17/09/2021
"Assim diz o Senhor: Tu, Belém de Éfrata, pequenina entre os mil povoados de Judá, de ti há de sair aquele que dominará em Israel; sua origem vem de tempos remotos, desde os dias da eternidade." (Mq 5,1)
A partir dessa passagem podemos refletir sobre como Deus quis que seu Filho visse o mundo, através de olhos humanos, pela primeira vez em uma cidade tão pequena que poderíamos dizer insignificante econômica e politicamente. Desse modo estava já a revelar por antecedência a quem Jesus iria ao encontro, bem como quem ousaria ir ao Ele.
Em toda a história sagrada que é narrada no Antigo Testamento, seguidamente vemos Deus escolher homens e mulheres para colaborarem com os seus preparativos para a vinda do Messias, e quase a totalidade deles eram pessoas fisicamente fracas ou socialmente pequenas.
O primeiro homem fraco a ser desafiado a uma grande missão foi Abraão, nosso pai na fé. Inicialmente chamado Abrão, Abraão, quando já era velho foi visitado pelo Deus invisível, porém, audível, que lhe disse que deixasse a terra de Ur em que vivia, sua parentela e seguisse pelo caminho que Ele indicaria. Mesmo tendo sido criado em meio às religiões politeístas, com deuses esculpidos, que portanto podiam ser vistos, e aos quais se podia pedir coisas em troca de favores, ao ouvir a voz de um Outro que não tinha figura e lhe pedia tudo que tinha, Abraão acreditou.
Tempos depois, outra pequena figura é chamada pelo Senhor. Criado pela própria mãe até certa idade e adotado pela filha do Faraó. De temperamento forte, certa vez, vendo que um egípcio espancava um hebreu, encheu-se de fúria, percebendo que ninguém estava vendo, matou o egípcio e escondeu seu corpo. Teve que fugir por causa de seu crime. Esta foi a história pregressa de Moisés, que tinha "língua pesada"(Ex 4,10). Ele se encontrou com o mesmo Deus invisível que Abraão encontrara; escutou a voz d'Ele e apesar do que pensava de si mesmo, recebeu a missão de libertar o povo hebreu que estava sendo escravizado no Egito. Provavelmente Moisés se culpava por ter tirado a vida de outra pessoa e certamente se surpreendeu com a atitude de Deus para com ele. O Senhor não o amaldiçoou, mas confiou a ele uma missão que faria de sua vida uma grande doação de amor.
Haveria muitas outras personagens para ilustrar como Deus gosta dos pequenos e fracos e os faz grandes pessoas. Para concluir, citamos a rainha Ester. Ela foi esposa do rei Assuero ou Artaxerxes. Era judia, mas manteu sua origem em segredo, de modo que o rei não sabia. Aconteceu, porém, que os judeus estavam sendo perseguidos e acabariam sendo mortos se alguém não intercedesse a favor deles. Naquele tempo a rainha não tinha muito contato com o rei e ficava em seus aposentos, de modo que, só ia até ele quando chamada. Devido a esta situação urgente com seu povo, Ester teve de tomar coragem e pedir para ver o rei mesmo sabendo que existia a possibilidade de morrer por perturbá-lo. O Senhor mudou o coração do rei e no final, a rainha, que estava pronta a dar a vida pelo seu povo, foi poupada e pôde ajudá-los.
Estes exemplos devem primeiramente consolar-nos ao percebermos como age Deus em sua infinita misericórdia ao escolher os pequenos e fracos, em seguida devemos ter uma esperança ativa, ou seja, esperar que Deus nos conceda uma missão única que somente nós poderemos realizar no contexto em que vivemos, e ativa porque devemos agora mesmo aplicar-nos à oração e aos sacramentos para que Deus possa formar-nos e preparar-nos para que estejamos prontos a corresponder ao nosso chamado.
Que possamos responder à voz de Deus como Samuel:
Tu me chamaste: aqui estou (Sm 3,6)