19/04/2025
Dizem que toda bruxa carrega um amor que não se apagou nem com a lenha da fogueira.
Leonor era o nome que o mundo lhe deu. Nascida em chão seco, criada por mãos caladas, foi mulher de muitas cicatrizes e palavras doces. Mas sob a saia de linho rústico e o lenço amarrado à cabeça, guardava segredos que a cruz jamais quis entender.
Na vila onde vivia, ela era vista com olhos de medo e desejo. Sabia curar feridas com folhas, trazer sonhos com chás, fazer criança dormir e homem voltar pra casa. Mas naquela época, mulher que sabia demais não era santa — era perigosa.
Leonor amou apenas uma vez.
Seu nome era Matias, filho do dono da terra, homem de fala bonita e promessas fáceis. Vinham se encontrar sob a figueira do alto do morro, onde ela acendia velas e queimava ervas para proteger o que tinha de mais puro: o amor.
Mas numa sexta-feira da paixão, Matias não veio.
Veio o pai dele. Veio com soldados, padres e palavra armada. Disse que Leonor enfeitiçava seu filho, que usava sangue, velas e orações de “língua torcida”. No altar da ignorância, ergueram acusações como se fossem preces.
Ela não negou. Não chorou. Só sorriu de canto e disse:
💃🏽: Sim, eu conheço os segredos da terra. Mas o único feitiço que fiz foi amar demais um homem de menos.
Naquela noite, a vila acendeu tochas. Não por fé. Mas por medo daquilo que não compreendia.
No centro da praça, ergueram lenha, rezaram salmos e disseram que era para o bem das almas. Leonor, de pé, sem chorar, pediu apenas um espelho, sete rosas murchas e um pedaço de fita vermelha.
Fez com as próprias mãos o último feitiço.
💃🏽: Eu não vim pra virar cinza. Eu vim pra virar aviso.
Colocou a fita ao redor do espelho. Quebrou cada rosa e soprou pétala por pétala para o alto. E antes que o fogo tomasse o corpo, Leonor gritou:
💃🏽: “Toda mulher que amar demais e for esquecida, me sentirá nas costas.
Toda mulher que for chamada de louca por sentir, será minha filha.
E todo homem que mentir com juras santas terá meus olhos nos sonhos.”
Na manhã seguinte, a vila estava muda. A fogueira havia apagado. Mas nenhuma cinza restou.
Só um espelho com a fita vermelha ainda intacta, deitado no chão, refletindo o céu cinzento daquela sexta-feira de dor.
Desde então, dizem que Maria Mulambo nasceu ali.
Não nos terreiros. Mas no coração de toda mulher abandonada que decide se levantar.
Maria Mulambo não veio pra curar homem.
Ela veio pra levantar mulher.
Veio pra recolher quem foi deixada na sarjeta da alma, pra dar banhos de erva, bebida doce e um novo olhar no espelho.
E a cada sexta-feira da paixão, quando o mundo chora pelos que foram crucificados, ela se senta no tronco da figueira antiga, acende uma vela de sete dias, e sussurra:
💃🏽: Amar não foi o erro. O erro foi esquecer de si mesma.
Hoje, se o amor te deixou murcha, se a paixão te tirou o nome, se a vida te colocou pra baixo, chama por ela. Porque se o mundo te queimou, Maria Mulambo vai te vestir de novo. E dessa vez, de vermelho e ouro.
Texto: Maria Padilha /