10/03/2025
O Primeiro Culto Protestante no Brasil
Hoje comemoramos um marco histórico: o primeiro culto protestante realizado no Brasil.
Nós, presbiterianos, temos a honra de carregar essa herança. Esse culto singular aconteceu no dia 10 de março de 1557, na Ilha de Villegaignon, Rio de Janeiro, completando 468 anos em 2025.
A presença protestante no Brasil já havia começado alguns anos antes. O vice-almirante Villegaignon, líder da colônia francesa na região, solicitou a João Calvino o envio de pastores para assistirem espiritualmente os colonos huguenotes (protestantes franceses calvinistas). Em resposta, no dia 7 de março de 1557, chegaram os pastores Pierre Richier e Guillaume Chartier, vindos de Genebra.
O desembarque ocorreu no dia 10 de março, uma quarta-feira, no Forte Coligny. Villegaignon recebeu o grupo afetuosamente e demonstrou alegria com a chegada. Reunidos em uma pequena sala no centro da ilha, realizaram um culto de ação de graças, o primeiro culto protestante do Novo Mundo.
O Rev. Richier iniciou a cerimônia com uma oração. Em seguida, todos entoaram, segundo o costume de Genebra, o Salmo 5: "Dá ouvidos, Senhor, às minhas palavras". Esse hino fazia parte do Saltério Huguenote, e até hoje se mantém nos hinários franceses. A versão mais conhecida em português é "À minha voz, ó Deus, atende" (CTP 144).
Na sequência, o pastor Richier pregou um sermão baseado no Salmo 27:4:
"Uma coisa peço ao Senhor e a buscarei: que eu possa morar na casa do Senhor todos os dias da minha vida, para contemplar a beleza do Senhor e meditar no seu templo."
Após o culto, os huguenotes tiveram sua primeira refeição brasileira: farinha de mandioca, peixe moqueado e raízes assadas no borralho. À noite, dormiram em redes, à maneira indígena.
No domingo 21 de março de 1557, foi celebrada pela primeira vez no Brasil a Santa Ceia segundo o rito reformado. Essa celebração gerou uma grande controvérsia teológica: os pastores huguenotes utilizaram pão e vinho, mas Villegaignon discordou, insistindo que deveria ser com óleo e água salgada, como faziam os católicos.
Com o passar do tempo, Villegaignon revelou não ser o que os huguenotes esperavam. O ex-frade Jean Cointac levantou questões sobre doutrinas católicas, como o sacrifício da missa, a invocação dos santos, a oração pelos mortos e o purgatório. Essas divergências levaram Villegaignon a se alinhar definitivamente ao catolicismo.
Nos meses seguintes, o desentendimento entre Villegaignon e os pastores aumentou. Ele decidiu enviar os líderes huguenotes de volta à França para consultarem João Calvino sobre a questão da eucaristia. Além disso, mandou prender cinco huguenotes, acusando-os de desordem pública.
Na prisão, esses protestantes redigiram um documento que ficou conhecido como a "Confissão de Fé da Guanabara", tornando-se os primeiros mártires protestantes no Brasil. Pelo massacre desses irmãos na fé, Villegaignon entrou para a história com o apelido de "Caim das Américas".
Uma década após o primeiro culto na Guanabara, em 20 de janeiro de 1567, Portugal já havia recuperado o controle da região. Naquela data, durante as comemorações da vitória sobre os tamoios e os franceses, um outro huguenote, Jacques le Balleur, foi condenado à morte por pregar o Evangelho segundo a visão reformada. Sua execução foi ordenada por Mem de Sá, com a assistência do padre José de Anchieta, evidenciando que a fé protestante não tinha mais espaço sob o domínio português, fiel à Igreja Católica.