22/07/2025
Dizem os antigos que existiu uma filha de Ògún chamada Ojúwà, iniciada nova, menina ainda, mas de cabeça firme.
Viveu para o Orixá. Suas mãos eram rezas, seu corpo era oferenda.
Quando ela morreu, no dia do seu axexê, os pássaros se calaram. O céu se cobriu de nuvens e o tambor, ao ser tocado, chorava.
O pai de santo se recolheu no roncó. Passaram-se três noites. Ele saiu e disse:
— Ela foi levada ao Ìntùlà.
E os filhos perguntaram: O que é o Ìntùlà, pai?
E ele respondeu:
— O Ìntùlà é a casa do barro sagrado.
É onde a alma de um iniciado volta para que Nanã refaça com suas águas.
É onde o Orixá acolhe o corpo e o espírito, onde não há dor, nem fome, nem saudade, só silêncio e axé.
Quem morre no segredo, não morre. Se transforma em luz ancestral, e de lá, um dia, volta em outro corpo, em outro tempo.
E dizem que, meses depois, nasceu uma criança no terreiro, filha de uma iaô.
A criança tinha a mesma marca de nascença que Ojúwà.
E quando ela cresceu, deitou no roncó como feito, e no jogo, Ògún sorriu:
— Ojúwà voltou.
🕊 No Candomblé, ninguém morre por completo
Quando dizemos: “Fulano foi para o Ìntùlà”, não estamos falando em fim.
Estamos dizendo que retornou ao útero da Mãe Ancestral, que já está no seio de Nanã, onde as águas viram barro e o barro vira gente.
E por isso o axexê não é apenas choro. É também gratidão.
Aquele que parte se despede da matéria, mas f**a entre nós como força de terreiro, como guardião do axé, como sussurro no vento do atabaque.
🌾 O Ìntùlà não se vê com os olhos,
Se sente no arrepio,
Na lágrima que cai durante o toque,
No cheiro do dendê que sobe,
Na luz do fogo que dança no alguidar.
Quem tem axé, sabe:
O corpo se vai. Mas o iniciado… renasce.
Texto: Página
Maria Padilha