06/02/2020
Na maioria das vezes, a Redação escolhe o tema da capa. Mas há momentos em que o tema nos escolhe. Na Carta do Editor da edição de novembro, explico o motivo pelo qual a revista Globo Rural resolveu falar de um assunto tão polêmico, muito bem abordado pelos repórteres Aureliano Biancarelli e Emiliano Capozoli Biancarelli
Por que não falar de cannabis?
Esqueça a maconha que dá barato. Vamos falar aqui das variedades com menos de 0,3% de THC (tetraidrocanabinol), o componente psicotrópico presente nas flores da planta. Com este teor, a maconha não faz a cabeça nem dá larica. Utilizadas como anticonvulsivante, ansiolítico, analgésico, essas variedades de cannabis também vêm sendo testadas para tratamento de doenças neurológicas espásticas (esclerose múltipla e síndrome de Tourette). E se prestam à fabricação de cosméticos e tecidos, entre outras aplicações industriais. Não é uma novidade. Por volta de 7000 a.C , na Índia, a cannabis curava de prisão de ventre a malária.
Cerca de 30 países do mundo cultivam a planta hoje. A maioria para uso medicinal e industrial, alguns poucos para uso “recreativo”. Durante três meses, os repórteres Aureliano Biancarelli e Emiliano Capozoli se debruçaram sobre o tema, conversando com médicos, empresários, usuários, pesquisadores, juristas e legisladores.
No meio científico, há controvérsias sobre a real eficácia da cannabis em tratamentos médicos. Na prática, os relatos de pacientes de doenças crônicas que obtêm melhoria da qualidade de vida com o uso de substâncias à base de cannabis são cada vez mais frequentes.
No campo político, a cannabis, mesmo para uso medicinal, enfrenta forte oposição de um governo conservador e partidário da guerra sem trégua às dr**as. Na frente do combate estão os ministros Osmar Terra (Cidadania) e Onyx Lorenzoni (Casa Civil), além do presidente Jair Bolsonaro.
Uma das únicas vozes destoantes é a de William Dib, diretor-presidente da Anvisa, a agência de vigilância sanitária. “Os produtos que serão liberados pela Anvisa não vão causar nem dependência física nem dependência psíquica”, diz Dib. A Anvisa deve decidir nos próximos dias se libera ou não o plantio de cannabis e o registro dos medicamentos derivados da planta.
Antes mesmo da lei, pelo menos 20 empresas já planejam a produção e a comercialização da cannabis no Brasil. E já existe até uma mapa, preparado pela Universidade Federal de Viçosa, sobre as regiões com clima e solo mais propícios para o plantio.
Não há dúvida de que, mesmo se demorar, o Brasil vai ganhar uma nova commodity, que pelas contas dos empresários pode gerar R$ 4,7 bilhões por ano em negócios, considerando que 3,9 milhões de pacientes poderiam utilizar os derivados da cannabis.