São Francisco de Sales - Espiritualidade do Amor

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Reflexão salesiana para a Festa de Pentecostes – (Jo 20,19-23) – 24 de maio de 2026O Santo Sopro de DeusRecordando que a...
22/05/2026

Reflexão salesiana para a Festa de Pentecostes – (Jo 20,19-23) – 24 de maio de 2026

O Santo Sopro de Deus

Recordando que a Família Salesiana de Dom Bosco celebra no dia 24 de maio a festa de Nossa Senhora Auxiliadora. Ela que estava presente, com os apóstolos no nascimento da Igreja. Que Ela seja sempre a Auxiliadora dos Cristãos!

Num sermão para a festa de Pentecostes, São Francisco de Sales afirmou que “hoje celebramos a festa dos presentes e do dom dos dons, que é o Espírito Santo, o qual foi enviado pelo Pai e pelo Filho sobre os Apóstolos sob a forma e figura de línguas de fogo.” (Sermão ###II para a Festa de Pentecostes, 7 de junho de 1620). E continua dizendo: “Os presentes são considerados grandes segundo o amor com que são dados; ora, este não é somente dado com grande amor, mas é o próprio Amor que é dado, pois todos devem saber que o Espírito Santo é o amor do Pai e do Filho.”

Ao longo do ano, a Igreja celebra três grandes festas: o Natal, a Páscoa e Pentecostes. Hoje, porém, muitas pessoas já não sabem exatamente o que essas celebrações significam. Talvez o aspecto econômico mantenha ainda muito vivas as duas primeiras. O Natal movimenta o comércio; a Páscoa conserva ao menos algumas tradições e feriados.

Mas Pentecostes parece ter desaparecido da memória de muita gente. Não movimenta a economia, não tem o brilho comercial das outras festas e, para muitos, tornou-se apenas mais um domingo qualquer. No entanto, é justamente Pentecostes que dá sentido ao anúncio do Natal e da Páscoa. Porque foi cinquenta dias depois da Ressurreição — pentekosté heméra, em grego, “quinquagésimo dia” — que a fé em Jesus Cristo começou verdadeiramente a espalhar-se pelo mundo inteiro.

Foi o Espírito Santo quem desceu sobre os Apóstolos, sobre Maria Santíssima e sobre os discípulos reunidos no Cenáculo. Foi Ele quem transformou homens medrosos em testemunhas corajosas do Evangelho. A partir daquele momento, os discípulos passaram a anunciar publicamente Jesus Cristo, crucificado e ressuscitado, como o Messias e Filho de Deus.

Por isso chamamos Pentecostes de “aniversário da Igreja”. Depois de acompanhar Jesus durante três anos, a Igreja nasce publicamente quando recebe o Espírito Santo. E desde então continua viva ao longo dos séculos, apesar das perseguições, fragilidades humanas, crises e divisões. Permanece de pé porque o Espírito Santo continua conduzindo-a.

No texto grego da Bíblia, o Espírito Santo é chamado hagia pneuma, expressão que pode ser traduzida literalmente como “o santo sopro” ou “a santa respiração de Deus”. E é exatamente isso que vemos no Evangelho de hoje: Jesus ressuscitado sopra sobre os discípulos e lhes diz: “Recebei o Espírito Santo”.
Em Pentecostes, esse Espírito manifesta-se como vento impetuoso e línguas de fogo. O vento empurra a Igreja para fora de si mesma; o fogo aquece, ilumina e purifica. E o mais belo é que cada povo ouve a Boa-Nova em sua própria língua. O Espírito Santo cria comunhão sem destruir as diferenças. Une os corações sem apagar a identidade de cada povo.

São Francisco de Sales dizia que “o Espírito Santo é o guia da Igreja”. Poderíamos dizer também que Ele é o “fôlego” da Igreja. É o Espírito quem impede que os cristãos percam o ânimo; é Ele quem dá força para continuar caminhando mesmo nas horas difíceis.

Hoje talvez precisemos justamente disso: de um “fôlego longo”. Vivemos tempos em que muitos desanimam na fé, afastam-se da comunidade ou perdem a esperança. Diante disso, Pentecostes recorda-nos que o sopro de Deus continua vivo. O Espírito Santo ainda sustenta a Igreja e continua agindo silenciosamente nos corações.

São Francisco de Sales escreveu também: “O sopro de Deus não apenas aquece, mas também ilumina… Seu hálito vivificante é inspiração, porque por meio dele Deus nos mostra seus desejos e seus desígnios.” (Tratado do Amor de Deus, Livro VIII, cap. X)
E no mesmo sermão de Pentecostes ele afirma algo profundamente atual: “O bom exemplo é uma pregação silenciosa. E, ainda que não tenhamos recebido o dom das línguas para pregar, podemos, no entanto, fazê-lo continuamente dessa maneira.”

Talvez este seja um dos grandes apelos de Pentecostes para nós hoje: deixar que o Espírito Santo transforme nossa vida em anúncio. Nem todos subirão a um púlpito ou falarão para multidões. Mas todos podem evangelizar pelo testemunho, pela paciência, pela bondade, pela alegria, pelo serviço humilde e pela caridade concreta.

Foi exatamente isso que São João Bosco ensinou aos seus jovens: deixar-se conduzir pelo Espírito Santo para tornar-se sinal do amor de Deus no meio do mundo. O verdadeiro salesiano — e todo cristão — deve ser alguém que leva esperança, cria comunhão, anima os desanimados e mantém acesa a chama do Evangelho.
Que nesta festa de Pentecostes o santo sopro de Deus renove também a nossa vida, aqueça nossos corações, ilumine nossas escolhas e nos dê coragem para testemunhar Cristo com alegria.

Amém.
P. Herbert Winklehner OSFS
Adaptação ao português: P. Tarcizio Paulo Odelli – SDB

Reflexão para a Festa da Ascensão do Senhor (Mt 28,16-20) -  17 de maio de 2026Sem Deus?“O mundo finalmente se livrou de...
15/05/2026

Reflexão para a Festa da Ascensão do Senhor (Mt 28,16-20) - 17 de maio de 2026

Sem Deus?

“O mundo finalmente se livrou de Deus.”
Se hoje perguntarmos às pessoas o que exatamente celebramos nesta festa da Ascensão do Senhor, talvez ouvíssemos uma frase assim. Ascensão… isso soa, para muitos, como despedida definitiva, como desaparecimento nas imensas distâncias do universo. Jesus Cristo já não estaria mais aqui; teria deixado o mundo. Todos os agnósticos e ateus poderiam então comemorar: “Estamos livres de Deus”.

Naturalmente, nós cristãos sabemos que a festa da Ascensão não é o grande triunfo dos incrédulos, daqueles que sempre pensaram que Deus não existe e que Jesus foi apenas um breve episódio de três anos na história da humanidade — praticamente sem importância.

O contrário é que é verdadeiro — e é justamente isso que o Evangelho de hoje proclama. A Ascensão de Jesus não é despedida, mas confirmação de sua divindade: “Subiu aos céus”, rezamos no Credo, “está sentado à direita de Deus Pai… e o seu reino não terá fim.” Isso significa: a Jesus Cristo foi dado todo poder no céu e na terra. Portanto, o mundo não está sem Deus; ao contrário, por meio de Jesus Cristo ele foi penetrado e preenchido de um modo novo pelo poder e pela glória de Deus.

Ou, como diz o Evangelho: Cristo está conosco todos os dias até o fim do mundo. Ou ainda, como formula São Francisco de Sales: “Deus está em tudo e em toda parte; não existe lugar nem coisa alguma onde Ele não esteja presente” (DASal 1,73). Precisamos recordar isso em todas as ocasiões: não nos livramos de Deus; Ele está presente, sempre e em toda parte, em todo tempo e lugar.

Em 2024 apareceu o livro do professor alemão de teologia prática Jan Loffeld, intitulado: “Quando nada falta onde Deus falta”. Nele, o autor afirma que o maior inimigo do cristianismo já não é o ateísmo ou o agnosticismo, mas a indiferença religiosa — isto é, a completa falta de interesse por tudo o que é religioso. Para muitas pessoas, tornou-se totalmente indiferente se Deus existe ou não, porque acreditam poder viver igualmente bem sem Ele. Deus já não seria necessário para ser feliz.

É justamente contra isso que o cristão deve se levantar com firmeza. Afinal, o que falta quando Deus falta? No fundo, falta tudo: falta o fundamento, falta a orientação, falta o apoio, falta a esperança. O sentido da vida dissolve-se num vazio escuro e sem fundo, porque já não existe alguém em quem se apoiar.
Por isso, na Ascensão, os discípulos recebem esta missão: “Ide e fazei discípulos todos os povos, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.”
Isso significa: mostrar às pessoas que viver sem Deus não conduz à felicidade, mas ao vazio.

A festa da Ascensão do Senhor nos convida, portanto, a redescobrir a existência de Deus, a perceber novamente a sua presença no meio de nós e a torná-la visível e sensível no mundo em que vivemos.

O falecido cardeal alemão Karl Lehmann resumiu isso de maneira belíssima:
“Com a Ascensão… o Ressuscitado não simplesmente desapareceu. Ele está presente de uma nova maneira. Já não está limitado pelo espaço e pelo tempo, nem restrito a alguns poucos companheiros imediatos. Torna-se claro que Jesus é o Filho, o Ungido, o Salvador — e isso não apenas para alguns, mas para todos, em todos os lugares e em todos os tempos.”

São Francisco de Sales disse num sermão em 1594: Jesus disse: “Eis que estou convosco todos os dias até a consumação dos séculos.” Aí Ele promete claramente sua assistência particular à Igreja; Nosso Senhor mostra que sempre haverá uma verdadeira Igreja na qual Ele estará; e, se Ele está com ela, quem estará contra ela?” (OEA Sermões, outubro 1594, Tomo VII, vol. 1).
Amém.
Pe. Herbert Winklehner OSFS
Adaptação ao português: P. Tarcizio Paulo Odelli - SDB

Reflexão salesiana para o 6º Domingo da Páscoa (Jo 14,15-21) – 10 de maio de 2026O que é a verdade?“O que é a verdade?” ...
08/05/2026

Reflexão salesiana para o 6º Domingo da Páscoa (Jo 14,15-21) – 10 de maio de 2026

O que é a verdade?

“O que é a verdade?” Esta pergunta não ocupou apenas o procurador romano Pilatos há dois mil anos; ela inquieta a filosofia e a teologia em todos os tempos.

Hoje, porém, essa questão talvez seja ainda mais importante do que nunca, provocada pelas modernas tecnologias informáticas e, sobretudo, pela inteligência artificial. A verdade pode hoje, no sentido mais literal da palavra, ser falsificada, manipulada e distorcida com extrema facilidade. Fake news e deep fakes — isto é, notícias falsas, fotos e vídeos adulterados — podem ser produzidos e difundidos em questão de segundos pelo mundo inteiro. Já não é difícil fabricar essas falsificações; o que se torna cada vez mais difícil é reconhecê-las. A chamada criminalidade virtual cresce rapidamente: golpes extremamente convincentes continuam enganando pessoas, apesar dos constantes alertas.

Quase se poderia dizer: o melhor é não acreditar em mais nada do que circula na internet ou nas redes sociais — pois tudo pode ser forjado.
Talvez justamente essa situação nos ajude a perceber quão atuais e, ao mesmo tempo, quão consoladoras são as palavras de Jesus no Evangelho de hoje, quando Ele promete aos seus discípulos:
“Eu vos darei um Defensor, para que permaneça sempre convosco: o Espírito da Verdade, que o mundo não pode receber, porque não o vê nem o conhece. Vós, porém, o conheceis, porque permanece junto de vós e estará em vós.”

Para São Francisco de Sales, é evidente que esse “Espírito da Verdade” é o Espírito Santo, a força divina que vive e age sobretudo na Igreja. Ele escreve textualmente: “Quem procura a verdade sob outra condução que não a da Igreja, erra o caminho. O Espírito Santo é o guia da Igreja; Ele a conduz por meio de seu pastor. Quem, portanto, não segue o pastor, não segue o Espírito Santo” (As Controvérsias – OEA, Tomo 1, Capítulo VI — Que os ministros violaram a autoridade do Papa, a 6ª Regra de Nossa Fé).

Esse pastor é, naturalmente, o Papa unido aos bispos. Quem os segue, segue a verdade e, por isso, não se desviará facilmente.
Por isso, convém prestar atenção ao que dizem o Papa e os bispos. Especialmente em tempos em que se afirma de tudo — o possível e o impossível — eles nos oferecem uma orientação segura para o agir cristão. É verdade que, por vezes, isso pode parecer complicado ou até antiquado. Mas a verdade não é simples: ela não pode ser reduzida a uma manchete, nem se adapta a qualquer moda passageira do tempo.

A verdade precisa ser buscada, refletida e, sobretudo, suplicada na oração.
Para isso, é necessário estar unido a Deus, permanecer ligado a Jesus Cristo, a este Jesus que nos diz: “Eu estou no meu Pai, vós estais em mim e eu em vós.” Quem deseja reconhecer a verdade precisa amar a Deus e escutar os seus mandamentos. Sem isso, torna-se muito difícil perceber a ação do Espírito da Verdade — e isso vale hoje mais do que nunca.

Amém.
Pe. Herbert Winklehner OSFS
Adaptação ao português: P. Tarcizio Paulo Odelli - SDB

Reflexão salesiana para o 5º Domingo da Páscoa (Jo 14,1-12) – 03 de maio de 2026Jesus nos dá orientação“Não se perturbe ...
30/04/2026

Reflexão salesiana para o 5º Domingo da Páscoa (Jo 14,1-12) – 03 de maio de 2026
Jesus nos dá orientação
“Não se perturbe o vosso coração”, diz Jesus aos seus discípulos. E como isso será possível? Ele mesmo responde: “Crede em Deus, crede também em mim!” Pouco depois, Jesus explica isso ao apóstolo Tomé com aquelas palavras conhecidíssimas: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida.” E ao apóstolo Filipe afirma: “Quem me viu, viu o Pai… Crede-me: eu estou no Pai e o Pai está em mim.” Em resumo, de forma breve e simples, isso significa: É Jesus Cristo quem dá à tua vida a orientação de que precisas para chegares ao teu destino. Agarra-te, portanto, a Jesus Cristo, e a tua vida encontrará o rumo certo.

Vivemos em um mundo repleto de ofertas que nos prometem toda espécie de felicidade e realização. A publicidade está cheia disso. Cada produto anunciado se apresenta como indispensável para que a vida dê certo. Mas, ao mesmo tempo, vivemos uma situação em que há muitas crises no mundo: guerra, terrorismo, migração, aquecimento global, para citar apenas algumas. As pessoas se perguntam: como continuar? para onde ir? em quem confiar?

O Evangelho de hoje não nos oferece apenas orientação; ele também nos dá coragem. A fé em Jesus Cristo nos ajuda — em sua mensagem, em seus valores, em seus mandamentos. Porque Ele é, de fato, o Caminho, a Verdade e a Vida.
“Quem me vê”, diz Jesus, “vê Deus.” Permanece unido a mim, e a tua vida encontrará direção.

São Francisco de Sales utiliza para isso a imagem do alciões, uma ave da mitologia grega. O extraordinário desse pássaro fabuloso era que ele construía o seu ninho sobre o mar para ali chocar seus ovos flutuando. Por isso, diz São Francisco, essas aves “fazem o seu ninho em forma de esfera, deixando apenas uma pequena abertura na parte superior; colocado sobre as ondas do mar, esse ninho é tão firme e tão compacto que nenhuma água consegue penetrar, por mais altas que sejam as ondas que se lancem contra ele; assim, ele permanece boiando no meio da tempestade e domina o mar.” E então conclui o santo: “Assim também deve ser o teu coração: aberto somente para o céu.”
(Filoteia, Parte III, cap. XIV) Que imagem belíssima para a nossa vida!

Nosso coração deve estar aberto somente para o alto, somente para Deus.
Então, ainda que as ondas da vida se levantem ao nosso redor — dificuldades, medos, doenças, crises, decepções, inseguranças — não afundaremos. Permaneceremos sobre as águas. E por quê? Porque continuaremos no caminho certo: o caminho de Jesus.

É isso que hoje Jesus Cristo nos convida a viver: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida… Crede-me: eu estou no Pai e o Pai está em mim… Quem crê em mim fará também as obras que eu faço, e fará ainda maiores.” Manter o coração aberto somente para Jesus Cristo exige exercício — e exercício diário.

Uma forma concreta é aquilo que São Francisco de Sales chama de oração do coração: esse breve e frequente pensamento voltado para Jesus ao longo do dia. Pequenas elevações da alma: “Jesus, guia-me.” “Jesus, confio em vós.” “Jesus, permanecei comigo.” “Senhor, mostrai-me o caminho.”

São Francisco de Sales diz que esses pequenos pensamentos em direção a Jesus podem até substituir muitas outras orações, mas eles mesmos não podem ser substituídos por nada. Porque são simples, leves, podem ser feitos em meio ao trabalho, no trânsito, nas preocupações, nas decisões, nas lutas diárias — e nos recordam continuamente: é Jesus quem nos dá orientação na vida. Pois Ele é, ontem, hoje e sempre: o Caminho, a Verdade e a Vida.
Amém.

P. Herbert Winklehner, OSFS
Adaptação ao português: P. Tarcizio Paulo Odelli - SDB

Reflexão salesiana para o 4º Domingo da Páscoa (Jo 10,1-10) - 26 de abril de 2026A confiança em Deus alcança tudoSão Fra...
24/04/2026

Reflexão salesiana para o 4º Domingo da Páscoa (Jo 10,1-10) - 26 de abril de 2026

A confiança em Deus alcança tudo

São Francisco de Sales nos ensina com profundidade o que significa ser um verdadeiro pastor: “amar as ovelhas não por vaidade, mas por amor a Cristo; não para buscar reconhecimento, mas para que Cristo seja glorificado nelas. Ecoando o Evangelho — “Tu me amas? Apascenta as minhas ovelhas” —, ele recorda que esse amor deve ir até o fim, até a entrega total, “até a morte, e morte de cruz. Ao pastor que ama, nada falta: o próprio amor o forma, o edifica e o guia. Esse amor sabe sofrer, sabe ensinar e não age com precipitação. Às vezes, duas palavras, quando nascem de um coração cheio de amor, são mais do que suficientes.” (Sermão CXXIX. 21 de fevereiro de 1617 - OEA VIII tomo 2)

Hoje em dia, quase ninguém gosta de ser comparado a ovelhas… mas, no tempo de Jesus, era bem diferente. Para o povo pastoril dos hebreus, a ovelha era simplesmente a base da própria existência. Quem possuía muitas ovelhas era considerado rico e respeitado. Perder uma ovelha era uma verdadeira catástrofe: significava perder a base para o alimento, o vestuário e outros bens necessários à vida. Por isso, as ovelhas eram frequentemente alvo de ladrões e assaltantes. A profissão de pastor, portanto, implicava grande responsabilidade e gozava de alta consideração. Era especialmente importante a relação de confiança entre o pastor e o rebanho. Um pastor descuidado podia significar a morte das ovelhas, assim como um rebanho que não escutasse o pastor também se colocava em perigo.

Todos esses aspectos devem ser levados em conta para compreender as imagens que Jesus Cristo utiliza no Evangelho de hoje. Ele se apresenta como o pastor que cuida com atenção do seu rebanho, que sobretudo o protege dos ladrões e assaltantes e o conduz a pastagens onde encontra alimento.

Com essa comparação, Jesus quer, acima de tudo, conquistar a nossa confiança: as ovelhas escutam a sua voz, Ele chama cada uma pelo nome. Ele se apresenta como o porteiro e também como a porta: quem entra por Ele será salvo. Quem o segue terá a vida — e a terá em abundância.

Uma palavra de São Francisco de Sales resume muito bem tudo aquilo que Jesus quer nos dizer com a imagem do pastor e das ovelhas. Ele afirma de modo simples e direto: “A confiança em Deus alcança tudo” (DASal 7,63). Ele escreveu isso a uma religiosa que estava passando por um momento difícil: estava doente e enfrentava problemas com algumas pessoas ao seu redor. São Francisco de Sales a encoraja: “A sua enfermidade corporal — escreve ele — é um peso a mais… Guardai-vos, porém, do desânimo!… A santa confiança em Deus tudo suaviza, tudo alcança e tudo ordena.”
Este é apenas um entre muitos exemplos em que São Francisco de Sales anima as pessoas a confiarem em Deus, a confiarem em Jesus Cristo, o Bom Pastor: escutai a voz do vosso Pastor, Jesus Cristo. Ele vos conhece, sabe o que vos faz bem. Sabe como vos proteger dos ladrões e dos perigos. Ele não é um estranho de quem devemos fugir; ao contrário, Ele é a porta que conduz à segurança, é o guardião que vigia e cuida para que nada de mal vos aconteça. Ele sabe como conduzir-vos à salvação. Ele veio para que tenhais a vida — e a tenhais em abundância.

A pergunta deste domingo, então, é esta: em quem eu confio?
Quão grande é a minha confiança em Jesus Cristo? Confio que Ele me conduz bem pela vida, que me protege, que me sustenta, que me dá segurança e, sobretudo, que me oferece a vida em plenitude? Acredito verdadeiramente que tudo dará certo se eu seguir a voz do Bom Pastor?

Talvez o salmo mais conhecido da Bíblia seja o Salmo 23:
“O Senhor é meu pastor, nada me faltará.
Ele me faz repousar em verdes pastagens,
conduz-me às águas tranquilas…
Ainda que eu atravesse o vale escuro,
não temerei mal algum,
pois Tu estás comigo.
Teu bastão e teu cajado me dão segurança.”

Há milênios, as pessoas rezam esse salmo sobretudo nos momentos difíceis… Talvez seja hora de retomá-lo com mais atenção e, com suas palavras, fortalecer a nossa confiança em Jesus Cristo, o Bom Pastor, que nos conhece, nos promete a vida em abundância e nos assegura aquilo que também São Francisco de Sales nos ensinou: “A confiança em Deus alcança tudo.”

“Sou um homem pobre, sujeito à paixão; mas, pela graça de Deus, desde que sou pastor, nunca disse uma palavra apaixonada de raiva às minhas ovelhas”. (Carta MCCCX. Ao Sr. Philippe de Quoex. Annecy, 16 de maio de 1617. — OEA Cartas, tomo XVIII, volume 8)

“Quem quiser ser um bom pastor deve ser uma ovelha, não um lobo, deve assemelhar-se à ovelha; seguir não os seus próprios instintos, mas os de Cristo”. (Sermão CXII. 1616 - OEA VIII tomo 2)
Amém.
P. Herbert Winklehner OSFS
Adaptação ao português: P. Tarcizio Paulo Odelli – SDB

Reflexão salesiana para o terceiro domingo da Páscoa (Lc 24,13-35) – 19 de abril de 2026  EncontroSão Francisco de Sales...
17/04/2026

Reflexão salesiana para o terceiro domingo da Páscoa (Lc 24,13-35) – 19 de abril de 2026

Encontro
São Francisco de Sales e Santa Joana Francisca de Chantal deram à congregação religiosa que fundaram há 400 anos o nome de “Irmãs da Visitação de Maria”. Esse nome recorda a visita da Virgem Maria, grávida de Jesus, à sua parenta Isabel, que trazia no seio João Batista. Duas mulheres grávidas se encontram — e desse encontro nasce o Magnificat, o louvor a Deus: “A minha alma engrandece o Senhor e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador”.

Exatamente esse acontecimento do Evangelho de Lucas está no centro da vida das Irmãs da Visitação. Visitação significa encontro — e um encontro que deve acontecer de tal modo que, por meio dele, Deus seja louvado.

O texto do Evangelho de Lucas que ouvimos hoje também fala de um encontro. A história dos discípulos de Emaús amplia ou completa tudo aquilo que significa a Visitação; completa, para cada cristã e cada cristão, o modo como devemos nos encontrar uns com os outros, com o próximo e com Deus.

Francisco de Sales, aliás, descreveu essa ligação entre essas duas histórias de encontro do Evangelho de Lucas — Visitação e Emaús — também em seu Teótimo:
“Às vezes… a alma sente uma certa alegria interior por Deus estar presente nela, e isso a torna extremamente feliz. Assim aconteceu com Santa Isabel, quando Nossa Senhora a visitou. Outras vezes, o coração arde de alegria por estar na presença de Deus, sem percebê-lo claramente, como aconteceu com os discípulos de Emaús; eles só se deram conta da grande alegria que experimentavam ao caminhar com o Senhor quando chegaram e o reconheceram na fração do pão (TDA Livro VI, cap. XI)

O que, então, nos ensina o encontro dos discípulos de Emaús para a maneira como vivemos nossos encontros na fé e na vida?
Encontro, no sentido cristão, significa antes de tudo: estar a caminho. Nenhum de nós já chegou ao seu destino. Estamos em peregrinação. A cada dia retomamos o caminho: ora alegres, ora tristes; ora cheios de entusiasmo, ora desanimados e cansados.
Encontro significa também: conversar sobre tudo aquilo que trazemos no coração; e significa ouvir o outro, acolher o que ele tem a dizer, seja sábio ou não, interessante ou não.
Encontro significa ainda: ter sempre consciência de que pode ser o próprio Deus quem está no meio de nós, mesmo quando não o reconhecemos. Cada pessoa que encontramos pode ser um encontro com Deus.
Encontro significa também: partilhar a fé, repartir a Palavra, trocar entre nós o dom da Sagrada Escritura.
Encontro significa: convidar Deus para a própria vida: “Fica conosco, pois já é tarde”. Trazer Deus para o centro da nossa existência, para o lugar onde vivemos, trabalhamos, comemos e bebemos — para o cotidiano mais simples. É ali que Deus quer estar.
Encontro significa, por fim: reconhecer Deus na fração do pão — no sacramento da Eucaristia. A Santa Missa é o ápice, o sol e a fonte da nossa fé. Sem a Eucaristia, a fé cristã é impossível: ela morre, seca e definha. A Eucaristia, porém, reacende o nosso coração. Abre os nossos olhos e o nosso interior, e nos dá a força para levar essa fé ao mundo — ou, como os discípulos de Emaús, voltar correndo a Jerusalém para anunciar: o Senhor ressuscitou verdadeiramente.
Também isso é encontro: anunciar ao mundo que Cristo vive, que ressuscitou, que é o Filho de Deus, o Caminho, a Verdade e a Vida. Que a fé nele promete a vida — a vida em plenitude.

Quem contempla passo a passo o Evangelho dos discípulos de Emaús sabe exatamente o que se espera de si como cristão na vida cotidiana:
Caminhar, dialogar, escutar, reconhecer a presença de Deus, partilhar a fé e a Palavra, convidar Deus para a própria vida, encontrá-lo na Eucaristia e anunciar ao mundo: “Jesus vive”. Amém.

P. Herbert Winklehner, OSFS
Adaptação ao português: P. Tarcizio Paulo Odelli - SDB

Reflexão salesiana para o 2º Domingo da Páscoa (Jo 20,19-31) – 12 de abril de 2026TocanteTemos uma palavra com a qual ex...
10/04/2026

Reflexão salesiana para o 2º Domingo da Páscoa (Jo 20,19-31) – 12 de abril de 2026

Tocante

Temos uma palavra com a qual expressamos que algo nos comove profundamente, nos atinge, nos fala ao coração… essa palavra é “tocante”. E poderíamos usá-la como título para o Evangelho de hoje.

O Ressuscitado, Jesus Cristo, toca os Apóstolos. Ele lhes deseja a paz, a vida em plenitude, e sopra sobre eles o seu Espírito Santo. E Jesus também se deixa tocar por eles, para que creiam que não é um fantasma, ainda que entre com as portas fechadas.

O apóstolo Tomé, que não estava presente no primeiro encontro, recebe depois uma atenção especial. Ele pode tocar as chagas de Jesus, como desejava em sua dúvida; sim, pode até tocar a ferida do lado de Jesus, o seu Coração aberto.

Inspirados por este Evangelho, podemos hoje nos perguntar: deixo-me tocar por Deus? E considero tocante que Deus se deixe tocar por mim, até o mais profundo do seu Coração?

São Francisco de Sales refletiu certa vez exatamente sobre essa questão e dizia que devemos “cem e até duzentas vezes por dia” tocar o Senhor, para sermos tocados por Ele. Nas suas palavras:

“Se tocarmos a sua cabeça, encontraremos a sua fronte coroada de espinhos pungentes, que nela penetraram e dela fazem sair e correr abundante sangue, que escorre pelo seu divino rosto. Se tocarmos as suas mãos sagradas, encontrá-las-emos traspassadas por grandes cravos. Se tocarmos o seu precioso corpo, encontrá-lo-emos todo ferido, escurecido e coberto de chagas, pelas quais, de todos os lados, Ele derrama o seu sangue para nos lavar de nossas iniquidades. Se tocarmos o seu Coração, encontrá-lo-emos todo inflamado e abrasado de um amor incomparável por nós, o seu divino peito todo consumido pelo ardor desse fogo do nosso Salvador e Mestre. Enfim, tocando esse amor infinito, como poderia acontecer que não O amássemos em resposta? Como poderíamos tocar e ver a sua extrema humildade sem nos humilharmos e nos aniquilarmos a nós mesmos? Tocando a sua paciência, a sua doçura e benignidade, tornar-nos-emos pacientes, dóceis e benignos. Em suma, se tocarmos Nosso Senhor crucificado aqui embaixo na terra, tocaremos eternamente esse grande Deus glorificado lá no alto do Céu, para onde nos conduzem o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Amém.” (Sermão XXV. Para a Festa dos Santos Cosme e Damião – 27/09/1619 – OEA Sermões, Tomo IX, vol.3)

Os encontros com Jesus Cristo não acontecem apenas no espírito — na imaginação ou na oração. Eles também se dão de modo real e sensível na celebração dos sacramentos. Um sinal desses “toques” é a unção, o óleo, que todos os anos, na Semana Santa, é consagrado pelo bispo na Missa do Crisma.

Deus nos toca no Batismo com o óleo dos catecúmenos e com o santo Crisma, com o qual também somos ungidos na Confirmação. E, de modo muito especial, Deus nos toca na Unção dos Enfermos, quando nossas mãos e nossa fronte são ungidas com o óleo dos enfermos. Nessa hora, exprime-se exatamente aquilo que Jesus disse aos seus discípulos no Evangelho de hoje:

“Por esta santa unção e pela sua infinita misericórdia, o Senhor venha em teu auxílio com a graça do Espírito Santo. Para que, liberto dos teus pecados, Ele te salve e, na sua bondade, alivie os teus sofrimentos.”

Com todos esses toques sacramentais, a Igreja quer nos mostrar que, ao longo da vida, Deus nos faz experimentar continuamente a sua misericórdia e o seu amor — como aconteceu com os Apóstolos, especialmente com o apóstolo Tomé.

Deixemo-nos, portanto, tocar novamente por Deus e pela sua misericórdia, pois já fomos tocados por Ele no Batismo. Amém.

P. Herbert Winklehner OSFS
Adaptação ao português: P. Tarcizio Paulo Odelli - sdb

Reflexão salesiana para o Domingo de Páscoa (Jo 20,1-9) – 05 de abril de 2026Alegria“Deus é o Deus da alegria” (Carta CC...
05/04/2026

Reflexão salesiana para o Domingo de Páscoa (Jo 20,1-9) – 05 de abril de 2026

Alegria

“Deus é o Deus da alegria” (Carta CCLXXV. À Presidente Brulart, Annecy, 18/02/1605, OEA Cartas, Tomo XIII, volume 3) … Justamente na Páscoa podemos experimentar esta afirmação de São Francisco de Sales de modo todo especial:
Coloquemo-nos na situação das discípulas e dos discípulos daquele tempo: o seu mundo, a sua vida, tudo aquilo que lhes dava sentido, esperança e futuro, desmoronou completamente em apenas vinte e quatro horas. Jesus — que era tudo para eles — foi condenado, crucificado e colocado no sepulcro. Uma pedra sela o fim de todas as esperanças: tudo acabou, tudo está morto.

Para os discípulos, isso significou luto, medo, desespero, dor, sofrimento, falta de esperança, miséria, angústia, tristeza, amargura e lágrimas. Eles só querem se esconder, não ver nem ouvir mais nada. Tudo perdeu o valor, nada mais tem sentido. Toda a energia da vida foi destruída. Ponto final.

E, de repente, de um segundo para o outro, tudo muda: a pedra diante do túmulo já não está mais lá. O sepulcro está vazio. Isso não é possível, não pode ser algo normal. Começa um movimento entre os discípulos: Maria Madalena corre, as mulheres correm, Pedro corre, João corre, os outros discípulos correm. Querem ver o que aconteceu — e é verdade: não há pedra, não há Jesus morto, apenas o túmulo vazio, com os lençóis e o sudário.

E então compreendem: “viram e acreditaram”. Jesus não está morto, Ele vive. A vida não acabou — ela começa. Deus não é um Deus dos mortos, mas o Deus da alegria. Ele remove as pedras que impedem a vida. O mundo inteiro entra no júbilo eterno da Páscoa: Aleluia, Jesus vive!

São Francisco de Sales tentou certa vez expressar essa alegria pascal que se espalhou por todo o mundo. O que ele escreveu quase não pode ser lido de tão transbordante, mas justamente por isso revela quão grande, extraordinária e indescritível é a alegria da Páscoa. Ele a compara ao som múltiplo de um grande concerto orquestral:

“A Igreja, nestes dias de júbilo, nunca cessa de proclamar o novo cântico, o santo Aleluia. Todos os seus Ofícios, todas as suas orações, estão entrelaçados com este grito de alegria que, repetido muitas vezes, deixa uma impressão sempre nova num coração verdadeiramente cristão.

De onde vem este admirável cântico? Ah! O Céu o ensinou à Terra. É o cântico do Bem-aventurado, como aprendemos com São João. Este Discípulo amado, esta águia do Novo Testamento, em seu êxtase misterioso, conheceu as maravilhas da Jerusalém celeste; viu o trono de Deus resplandecente de glória e o Cordeiro de pé como se tivesse sido imolado; ouviu os Anjos e Santos ressoando, ao redor do trono e na presença do Cordeiro, as diversas harmonias que começam e terminam com o sublime êxtase do Aleluia. Aleluia!

Oh! quão excelente é esta breve oração! quão enérgica! Pois não significa simplesmente: Louvado seja Deus, mas expressa louvores divinos de uma maneira inefável, com a ênfase do amor, com o entusiasmo do coração; é uma linguagem celestial que não pode ser traduzida para nenhuma língua; é um grito de alegria, um êxtase de admiração, a onda da mais viva gratidão... “Que felicidade ouvir essas melodias… nas quais, pela harmoniosa fusão de vozes diversas e de sons variados, nascem aquelas maravilhosas harmonias, em que as diferentes partes, superando-se umas às outras, em sucessões contínuas, quase impossíveis de compreender, acabam todas por confluir num único canto ressoante, poderoso, universal: um eterno Aleluia! Tão fortes são essas vozes que podem ser comparadas ao estrondo de trovões e ao som de trombetas, ou ao rugido das ondas do mar. E, ao mesmo tempo, são tão suaves e doces que se assemelham ao som da harpa, quando mãos habilidosas fazem brotar dela notas delicadas e suaves. E todas essas vozes se unem no alegre canto pascal: Aleluia, louvai a Deus! Amém, louvai a Deus!” (Sermão CLX. Para o Domingo da Misericórdia, sobre as Cinco Chagas de N.S.J. Cristo – OEA Sermões Tomo VIII, volume 2).

Em resumo: a alegria da Páscoa, que enche o céu e toda a terra, é simplesmente indescritível e não pode ser expressa plenamente com palavras.

“Deus é o Deus da alegria”… Se realmente acreditamos nessa alegria imensa e indescritível que a manhã de Páscoa provoca, então não nos resta outra coisa senão compartilhá-la com todos aqueles que encontramos. Como os discípulos, somos enviados ao mundo para anunciar:

Aleluia! Jesus vive. Amém.

P. Herbert Winklehner, OSFS
Adaptação ao português: P. Tarcizio Paulo Odelli – SDB

Endereço

Massaranduba, SC

Telefone

+4733791244

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