25/01/2022
A DOR DO LUTO
Como em um filme de terror de mau gosto, é como se alguém enfiasse a mão no seu peito para retirar seu coração sem anestesia, uma dor lancinante e tão desesperadora que parece mesmo uma ficção, mas não é, é bem pior. E não acaba por aí, porque f**a se esperando que venha um fim e ele não vem, ainda como no filme, você f**a vivo e sem o coração, um zumbi, um morto-vivo. Essa dor não passa com nada, nenhuma palavra, nenhuma promessa, nada. Melhora um pouco com uma presença amiga, com alguns abraços genuinamente solidários, com toques de compaixão que surgem aqui ou ali de forma espontânea, mas é um alívio muito fugaz, logo volta essa dor que parece infinita.
O tempo passa e a vida vai lentamente retornando à sua rotina, mas a dor permanece; vai parecendo mais fraca e às vezes se pode pensar que passou, mas quando vai ver ela ainda está lá, com toda sua força e determinação de se instalar na sua vida permanentemente...
O tempo, na verdade, não cura esse tipo de ferida, ele apenas anestesia, o que, se por um lado, traz certo alívio que lhe permite retomar suas rotinas, por outro, traz à lembrança o zumbi em que o enlutado se transformou.
O Amor traz dor?
Não pode ser isso, porque Amor é a essência do bom e do bem, é a origem de tudo o que existe e evolui para a perfeição, o Amor é a sublimação de nosso orgulho e de nosso ego; então, porque esse Amor da ausência dói?
Trata-se de um Amor ressentido da ausência, da falta que sentimos da voz, da presença física, da imagem, do calor, mas é também orgulho, falta de resiliência, falta de aceitar aquilo que não podemos mudar, revolta.
Portanto, a culpa não pode ser do Amor, a culpa é de como vemos e sentimos a situação, de ressentirmos o Amor de forma egoísta, transformando a forma de sentir, invertendo a polaridade daquilo que nos trouxe tanto bem-estar, mas que agora nos traz tanto desconforto.
É preciso “re-sentir”, ao invés de ressentir, mudar a forma de encarar o signif**ado daquela pessoa na sua vida, e como num passe de mágica, aquela foto que fazia chorar, agora faz sorrir, aquele lugar que trazia melancolia, volta a trazer a mesma alegria que se sentiu quando a alma de que se sente falta estava fisicamente ao seu lado, ou seja, passamos a re-sentir o amor em nós da mesma forma que o sentíamos quando a pessoa querida estava ao alcance da mão ou de um telefonema, para que aquele coração enregelado pela dor, aquela alma ressentida pela ausência, se aqueça de novo, que volte a pulsar com aquele sentimento sublime que é e que sempre vai ser, reacendendo a presença querida de forma bem mais clara, percebida, agora, com o coração aberto e não mais com a inconformação de uma perda que nunca existiu de fato.
Re-sentir para não se ressentir, porque o amor é, e sempre vai ser.
Acredito que essa é a única saída para o luto passar, acabar, para a dor se curar, é a volta do amor pelo outro, mais forte que seu amor próprio, mais forte que sua rebeldia, trazendo a alegria das memórias e a certeza da continuidade; nada termina, é apenas um ciclo cujo tempo findou, mas que já anuncia um novo ciclo, novas coisas, novas vivências e outras conquistas para as duas almas envolvidas no processo de separação parcial e temporário que é a morte.
Amor verdadeiro não termina nunca, não se extingue, apenas cresce, floresce, alimenta. Se trouxer dor, não é do amor, é da forma adoecida e egoísta de senti-lo. Então aprenda à amar como Jesus nos ensinou.