05/07/2026
(A Palavra desta Semana — Obata Bunshō)
“Se ao rancor se responde com rancor, o rancor jamais cessará. Somente quando se abandona o rancor é que ele se aquieta.”
— Dhammapada
O pai de Hōnen trilhou o caminho de superação do rancor que o Buda ensina. Ferido de morte num ataque noturno, à beira do fim, disse ao pequeno Hōnen: “Se guardares rancor, essa inimizade jamais se extinguirá, geração após geração (…); busca antes a tua própria libertação” (Biografia Ilustrada em 48 volumes). Guardar rancor é matar.
O Buda ensina: “Não mates. Não faças matar” (Dhammapada). Esse ensinamento condena tanto o assassinato individual, quanto o assassinato praticado pelo Estado (a guerra), o assassinato coletivo (o crime) e também a pena de morte. No Shinshū, enxergamos na raiz desse “não-matar” o Voto Original (hongan) do Buda Amida, que promete salvar todos os seres. O “não-matar” tem por fundamento o Voto Original.
No final de dezembro de 2009, estive com o Sr. Inoue Yoshihiro, ex-membro da Aum Shinrikyō, no Centro de Detenção de Tóquio. Ele se debatia com as perguntas: “o que é viver?”, “o que é morrer?”, “o que é o eu?”. Ao fim do encontro, unimos as mãos em gasshō através do painel de acrílico e nos despedimos recitando o nembutsu. Ele foi executado em 6 de julho de 2018. Será que desejava viver e expiar seus crimes? Será que, por meio deste sistema, o rancor foi de fato superado?
(Professor emérito da Universidade Dōhō)
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Notas de contexto do texto (para o leitor brasileiro)
Dhammapada (Dammapada / 法句経): uma das mais antigas escrituras budistas, coletânea de versos atribuídos ao Buda. O verso citado é o de nº 5, um dos mais conhecidos sobre a inutilidade da vingança.
Hōnen (1133–1212): fundador da escola Jōdo-shū (Terra Pura) e mestre de Shinran, fundador do Jōdo Shinshū — a nossa tradição. O episódio do pai de Hōnen, morto num ataque e pedindo ao filho que não se vingasse, é uma narrativa fundadora: em vez de perpetuar o ciclo de sangue, o pai o encaminha ao Caminho.
Biografia em 48 volumes (四十八巻伝): o Hōnen Shōnin Gyōjō Ezu, biografia ilustrada da vida de Hōnen, fonte tradicional dessa história.
Voto Original / hongan (本願): o voto de Amida de salvar sem exceção todos os seres (一切衆生). O autor faz um argumento doutrinário forte: para o Shinshū, o “não-matar” não é apenas uma regra moral, mas se enraíza nesse voto que abraça até quem cometeu o pior.
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Sobre o caso citado (a Aum Shinrikyō)
A Aum Shinrikyō foi um grupo religioso fundado nos anos 1980 por Asahara Shōkō (nome verdadeiro: Matsumoto Chizuo). Misturando budismo, ioga e profecias apocalípticas, atraiu muitos jovens instruídos e, sob Asahara, transformou-se numa organização que planejava derrubar o Estado japonês. Ao todo, a seita causou 29 mortes e mais de 6 mil feridos, em crimes que incluíram o assassinato da família do advogado Sakamoto (1989) e o ataque a gás em Matsumoto (1994).
O episódio mais conhecido é o atentado com gás sarin no metrô de Tóquio, em 20 de março de 1995. No horário de pico da manhã, membros do grupo liberaram o gás neurotóxico sarin em cinco trens de três linhas do metrô, na área de Kasumigaseki (o distrito dos ministérios); o ataque matou 14 pessoas e feriu mais de 6 mil Jiji Kotobank (a 14ª vítima faleceu anos depois, em decorrência das sequelas). Foi o primeiro uso de arma química contra civis numa grande cidade em tempos de paz.
Inoue Yoshihiro, citado na coluna, entrou na seita aos 16 anos e tornou-se monge aos 18, tendo estudado num colégio budista em Kyoto; Daily Shincho dentro da Aum, chegou a “ministro da inteligência”.
No atentado ao metrô, seu papel foi o de coordenador/elo de ligação, não o de quem espalhou o gás; por isso, em primeira instância (2000) recebeu prisão perpétua, mas o tribunal de segunda instância (2004) reformou a sentença para pena de morte, ao reconhecer seu papel central na coordenação do massacre indiscriminado. Weblio A pena foi confirmada em dezembro de 2009 Weblio — exatamente quando o autor o visitou. Nas cartas que escreveu na prisão, Inoue refletia sobre vida e morte e chegava a citar o próprio Dhammapada. Weblio
Em julho de 2018, o governo japonês executou os 13 condenados à morte ligados aos crimes da Aum: sete em 6 de julho (entre eles o próprio Asahara e Inoue) e seis em 26 de julho. Kotobank Foi a maior série de execuções do Japão contemporâneo, poucos meses antes do fim da era Heisei.
Por que isso importa para a coluna: o autor — sacerdote e estudioso do Shinshū — não escreve como quem defende os crimes, que foram hediondos. Ele levanta uma pergunta budista incômoda: se o ensinamento do Buda é que “o rancor não se apaga com rancor”, a execução de um culpado realmente encerra o ciclo do ódio, ou apenas o prolonga sob outro nome? Ao lembrar que rezou o nembutsu com Inoue através do vidro, mesmo diante do pior dos crimes, o olhar do Voto de Amida abraça também aquele que matou — e que a verdadeira superação do rancor talvez não caiba num sistema que responde à morte com a morte.
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