17/04/2026
Quem desacredita do próprio terreiro vive procurando confirmação fora!
Há quem permaneça no terreiro enquanto a vida sorri.
Enquanto a estrada está limpa, enquanto o corpo responde, enquanto o dinheiro entra, enquanto a casa não desaba e o coração não sangra, esse sujeito bate no peito e diz que contia.
Recebe o passe do caboclo, ajoelha diante do preto-velho, se entrega à fumaça do charuto de Exu, agradece o benzimento, se emociona com a gira, diz que a fé o sustenta. Mas basta a maré virar, basta o vento soprar contrário, basta a prova chegar com dentes e garras, que essa mesma fé se desmonta como palha seca diante do fogo. É nesse momento que ele começa a correr por fora.
Um trabalhinho aqui. Outro acolá. Um conselho ouvido às escondidas. Uma prática que contradiz a doutrina que dizia seguir com tanta devoção. Um atalho espiritual buscado na ansiedade de resolver rápido aquilo que exige firmeza, entrega, fundamento e tempo. E então, na confusão que ele mesmo cria, passa a dizer que o passe já não funciona, que o preto-velho já não alcança, que o caboclo já não corta demanda, que a baforada do charuto de Exu já não limpa caminho nenhum. Começa a acusar a casa de fraqueza, o dirigente de incapacidade, as entidades de silêncio. Mas a pergunta que rasga o centro dessa hipocrisia é uma só: ele acreditava mesmo? Ou apenas gostava da fé enquanto ela não lhe cobrava coragem? Porque é fácil chamar de sagrado aquilo que nos consola. Difícil é permanecer fiel quando o sagrado nos prova. No fim, muitos não saem do terreiro porque a casa era fraca. Saem porque nunca tiveram estrutura espiritual para suportar uma fé que exige constância. E então tropeçam na própria incoerência. Abandonam o terreiro, rompem com a casa, desacreditam do dirigente, desacatam as entidades, mas no fundo não estão decepcionados com a espiritualidade estão revoltados porque ela não se submeteu à pressa, ao medo e à vaidade deles.
Queriam uma fé que obedecesse ao seu tempo, uma entidade que respondesse ao seu comando, uma gira que resolvesse sem exigir reforma íntima, disciplina, paciência e lealdade.