11/04/2020
Em tempos de pandemia, onde é necessário repensar e estabelecer novas formas de estar no mundo e onde a quarentena, e seu consequentemente isolamento, obriga muitos de nós a parar e refletir sobre cuidado em suas mais variadas dimensões (autocuidado, cuidado com quem amamos, cuidado com quem não vai conseguir/poder se cuidar, cuidado com a natureza, cuidado material e simbólico etc), gostaria de dividir um pouco do que venho pensando sobre a força que me sustenta: a fé na minha ancestralidade, a fé no panteão dos orixás que governa a minha vida.
Dentre eles, há um senhor regendo esse momento. O nome dele é Obaluayê.
Ele é o senhor da cura, mas o que muitos não sabem é que ele também é a própria doença.
Na história da humanidade, epidemias sempre se fizeram presentes. Em maior ou menor grau, há perdas (mortes) e assim é o ciclo da vida. Tudo que nasce, um dia morre. Vida e morte são faces da mesma moeda, assim como é a doença e saúde.
Naturalmente, tendemos a vilanizar uma das faces e estabelecer uma relação quase de negação, como se negar, inclusive, fosse dar conta de aniquilar a situação com a qual não sabemos lidar. Na cultura ocidental, nos falta repertório para enfrentar a morte, a doença, a tristeza, a penúria etc. Temos a falsa sensação de que só há tempo para viver, para se alegrar, para consumir e que precisamos afastar de nós qualquer coisa que ameace esse fluxo utópico de gozo ininterrupto de vida. No afã de viver, não aprendemos a morrer.
Em ioruba, Obaluayê é a junção de Oba (rei) + Ayie (terra) o que significa o “rei e senhor da terra”. Ele é a divindade que faz a intermediação entre o homem, enquanto dimensão física, e a terra, no que se refere ao mundo. Considerando que o homem nasce da terra e para ela retorna quando morre, a morte também representa o renascimento, a renovação. Para o novo existir, o velho precisa morrer.
Evidente que sentimos pesar com a possibilidade de perdermos quem amamos, de adoecermos, mas uma reflexão se faz necessária: o que esse tempo tem a nos ensinar? O que de velho em nós precisa morrer, para o novo nascer?
Talvez seja o tempo de aprendermos a nos recolher, de olhar para dentro, de cuidar do nosso corpo, de cuidar dos nossos mais velhos, de cuidar da nossa terra, da nossa natureza... de resgatarmos um tempo onde a coletividade tenha mais valor, onde o “meu cuidar” inunde a minha comunidade, assim como nos ensina o povo africano... talvez ainda tenhamos tempo de morrer para renascer, reverenciando a divindade que vive em mim, reverenciando a divindade que vive em vocês e, todes juntes, nos reconectarmos com o lugar de onde viemos, entendendo, sobretudo, que somos partes desse lugar...
Por isso, além do isolamento, façamos silêncio.
O senhor da terra está entre nós!
Deixemos só ele dizer o que de nós ele espera, o que ele quer que nós aprendamos com ele nesse período!
Atotô, Ajuberê. Respeitem o Velho Obaluayê!
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Texto: Daniela Cardoso