17/05/2026
■Palavra do Bispo:
Ele foi — e ficou
Meditação para a Solenidade da Ascensão do Senhor 🙏
(Lucas 24,36‑53)
( Por: Dom George Khoury)
"Subistes glorioso ao céu, ó Cristo nosso Deus, enchendo de júbilo os discípulos pela promessa do Espírito Santo e confirmando-os por Vossa bênção, porque sois o Filho de Deus, o Redentor do mundo."
Queridos irmãos e irmãs,
Cada vez que a Igreja nos convida a contemplar a Ascensão do Senhor, algo se remexe no coração. Não é o dia de uma despedida, é a festa de uma promessa cumprida e de uma presença que se transforma. Jesus não foi embora; ele foi para estar mais perto. É isso que Lucas nos mostra no último capítulo de seu Evangelho, e é aí que quero que você deixe o espírito repousar hoje.
Ele entra onde a porta está fechada
Imagine a cena: um grupo de pessoas amontoadas num mesmo lugar, divididas entre o medo e uma esperança que ainda não ousavam nomear. Conversam sobre tudo o que aconteceu — a cruz, o sepulcro vazio, as mulheres falando de algo que não sabiam explicar, o encontro misterioso na estrada de Emaús. Há confusão, dúvida, apenas um fio frágil de confiança atravessando aquele ambiente.
É nesse exato momento, no meio da conversa inacabada, que Jesus aparece. Não bate à porta; não espera que eles encontrem todas as respostas. Ele atravessa as paredes da dúvida e entra no meio deles — ali onde o medo ainda está vivo, onde o coração ainda não se acalmou. E a primeira palavra que pronuncia não é uma longa explicação teológica, não é uma crítica aos que duvidaram. São apenas duas frases que chegam como brisa fresca em tarde pesada:
“A paz esteja convosco.”
Antes de esclarecer, ele acalma. Antes de orientar, ele encontra. Essa é a pedagogia do Ressuscitado — e, por isso, é também a pedagogia que a Igreja precisa cultivar.
Quando chegamos perto de um irmão ferido, assustado, confuso, o mais importante não é trazer a resposta certa, mas ser a presença que acalenta. Não é mostrar a teoria, mas oferecer a paz que só vem de Deus.
O Senhor entra sempre onde a porta está fechada — e a primeira coisa que traz é a paz.
As mãos que não escondem as marcas
“Olhai as minhas mãos e os meus pés: sou eu mesmo. Apalpai‑me e vede.”
Os discípulos f**am transtornados, acham que estão vendo um fantasma. Então Jesus, com a paciência de quem ama de verdade, faz algo que nenhum mestre humano faria: mostra as feridas. Abre as mãos furadas. Exibe os pés atravessados pelo madeiro.
Convida‑os a tocar.
Pense bem no que isso signif**a. Jesus poderia ter ressuscitado sem qualquer cicatriz, com um corpo impecável, perfeito, sem sombra do sofrimento. Mas não foi o que aconteceu. Ele escolheu guardar as marcas. Porque as marcas são o idioma do amor. São a prova silenciosa de que aquilo foi de verdade, de que a cruz não foi teatro, de que a morte não foi fingimento.
E essa escolha é um abraço de misericórdia para cada um de nós. Você que carrega uma ferida antiga que ainda não fechou, uma perda que dói, um cansaço que desce fundo no peito — Jesus não lhe pede que finja que nada aconteceu. Ele mesmo não fingiu. O que ele faz é mostrar que, nas mãos de Deus, as marcas podem ser transfiguradas. O que nos quebrou pode se tornar a prova mais eloquente da vitória do amor.
E então vem um detalhe que me arrepia até hoje: Jesus pede um pedaço de peixe assado e come diante deles. O Ressuscitado, aquele que venceu a morte e está prestes a subir à glória do Pai, senta-se e come peixe com os amigos. O eterno cheira a brasa. A glória de Deus cabe numa refeição simples, num gesto ordinário de comunhão à mesa.
Esse é o nosso Deus: nunca se distanciou da vida concreta, da mesa, do trabalho, das lágrimas e dos risos.
Não somos apenas espectadores — somos testemunhas
“Assim está escrito: o Cristo havia de sofrer e ressuscitar dos mortos no terceiro dia, e em seu nome havia de ser proclamado o arrependimento para remissão dos pecados a todas as nações.”
Depois de comer, Jesus faz algo que só ele pode fazer: abre a inteligência dos discípulos. Lucas usa uma expressão de rara beleza: ele “lhes abriu o entendimento para compreenderem as Escrituras”. Os salmos que cantavam desde a infância, as profecias que ouviam sem entender, a lei de Moisés que decoreavam — tudo agora converge, ganha sentido, e aponta para Alguém que está diante deles, de carne e osso, com as mãos marcadas.
E então vem a palavra que muda tudo:
“Vós sois testemunhas disto.”
Não somos turistas da Ressurreição. Não somos apenas espectadores de uma história bonita. Testemunha é quem é marcado pelo que viu e responde por isso com a própria vida.
Jesus não estava fundando um museu de memórias sagradas, mas enviando pessoas para levar uma presença viva ao mundo. E é aí que nós entramos na história: batizados, crismados, chamados a ser testemunhas neste tempo, em nossas casas, nas ruas, nas redes, nos lugares de trabalho. Testemunhos de um Ressuscitado que tocou, que comeu conosco, que conhece nossas marcas pelo nome.
A missão da Igreja não é guardar o Senhor como se fosse um objeto fechado em um altar; é levar a presença viva de Cristo a todos os lugares em que vivemos, trabalhamos e amamos. Não é nós levando Deus conosco como um fardo, mas deixando que, por nossas palavras, gestos e forma de viver, a paz, a misericórdia e o amor de Jesus se tornem visíveis onde formos.
As mãos que f**am levantadas sobre nós
“Enquanto os abençoava, afastou‑se deles e foi levado ao céu.”
Chegamos ao momento mais emocionante. Jesus conduz os discípulos até perto de Betânia — aquele lugar carregado de memórias afetivas, onde estavam os amigos queridos, onde ele chorou diante do túmulo de Lázaro. Um lugar de amor. Um lugar de história vivida juntos. Ele escolhe esse lugar para a despedida.
Enquanto se afasta, enquanto é elevado ao céu, mantém as mãos levantadas sobre eles em bênção. O gesto não cessa. Ele parte, e a bênção f**a suspensa sobre os que f**am.
É como se Lucas quisesse dizer: as mãos de Cristo nunca foram abaixadas sobre a humanidade. Ele foi — mas a bênção permanece sobre nós.
E surge a pergunta que toca o coração: como é possível que aqueles homens e mulheres voltem para Jerusalém com grande alegria, acabando de ver o Mestre partir? Porque começaram a entender — ou o Espírito Santo já se movia neles — que aquela partida não era abandono, mas o início de algo maior.
Enquanto Jesus caminhava por uma única estrada, podia estar apenas num lugar de cada vez. Ao subir ao Pai, tornou‑se capaz de estar em todo lugar, com toda pessoa, em todo tempo. Não foi para longe — foi para dentro. Foi para o coração de cada batizado. E por isso o Evangelho termina não em choro, mas em louvor.
As mãos do Senhor permanecem levantadas sobre nós — agora, e para sempre.
A resposta mais verdadeira: o louvor
“E estavam continuamente no Templo, louvando a Deus.”
O Evangelho de Lucas termina no Templo, com os discípulos rendendo louvor a Deus. É um final que é, ao mesmo tempo, um começo: a Ascensão não encerra a história da salvação, abre o culto, abre a Igreja, abre o coração humano para uma relação nova com Deus.
Aqueles homens e mulheres ainda tinham muitas perguntas sem resposta, ainda estavam aprendendo a confiar. Mesmo assim, encontram no louvor a resposta mais honesta ao mistério que viveram. Quando as palavras faltam, quando o entendimento é pequeno demais para abraçar o que Deus fez, o coração cristão encontra no louvor o seu lugar mais verdadeiro.
Nós também vivemos isso. A vida de cada um de nós, e a vida da Igreja ao longo dos séculos, tem os seus Getsêmanis — noites de dúvida, sepulcros que parecem permanentes, silêncios de Deus que doem como feridas abertas. Nesses momentos, a liturgia nos chama a fazer o que fizeram os discípulos: voltar ao “Templo”, levantar o olhar, e louvar. Não porque tudo está resolvido, mas porque Alguém em quem confiamos está sentado à direita do Pai, com as mãos abertas em bênção sobre o mundo.
Que a Solenidade da Ascensão do Senhor renove em cada um de nós a alegria daqueles primeiros discípulos:
a alegria de quem foi ferido e foi curado,
de quem perdeu alguém e descobriu que ele não foi embora,
de quem é enviado não pelas próprias forças, mas com a força d’Aquele que prometeu estar conosco todos os dias, até a consumação dos séculos.
Aquele que subiu ao céu não abaixou as mãos.
Ele ainda nos abençoa — hoje, sempre, para sempre.