29/07/2023
SERVIDORES ASTRAIS – Noções Gerais
Muitos neófitos não só da Magia do Caos, mas em outras escolas ocultistas/esotéricas, possuem dúvidas quanto ao conceito de servo astral, sendo inclusive muito comum o engano com outros seres astrais.
Parte deste engano entre magistas brasileiros ocorre devido a questões semânticas que se perdem em traduções. “Entities”, em inglês, equivaleria apenas parcialmente ao nosso conceito de “entidades”, que atrelamos à noção de espíritos ou, em alguns casos, deuses e, mais raramente, elementais. No inglês, “entitie” se relaciona à ideia de “ser”, a algo individual e definido. Ou seja, no inglês, qualquer coisa que se manifesta é, em si mesma, uma entidade.
No Brasil, porém, a semântica implica em possíveis distinções, muito devido à construção do imaginário popular acerca do sobrenatural, em grande parte com “entidades” se referindo a espíritos devido às nossas fortes influências Kardecistas e posteriormente Umbandistas, levando posteriormente o Candomblé a incorporar tal termo em seu já rico léxico. Naturalmente, isso se estendeu a outras vertentes na medida em que “entidade” se referia a espíritos. Contribui-se para não chamarmos divindades de “entidades” o fato de que nosso imaginário místico é fortemente influenciado pelo cristianismo, seja através de sincretismos com o mesmo, influências pela tradição e forma de pensar do meio social ou meramente derivações de outras vertentes também cristãs, como é o caso da Conscienciologia ou do Espiritismo de Mesa Branca, cujas abordagens, entendimentos e modus operandi acerca da realidade surgiram a partir de rachas e/ou agendas e interesses nichados próprios.
Ao contrário do que muitos creem, devido ao fato de não termos religiões populares de caráter politeísta, visto que orixás não são vistos como deuses propriamente ditos pelo cânone tanto do Candomblé quanto da Umbanda, ainda que sejam venerados de uma maneira própria e que não cabem explicação aqui; “entidade” nunca se referiu a seres tidos como divindades.
Portanto, na tradição esotérica nacional, “entidade” se refere unicamente a espíritos e muito ocasionalmente e apenas em certos segmentos esotéricos pós-modernos (como a Wicca, por exemplo), elementais.
Essa diferenciação, tomada como base para o que será explicado a seguir, ajudará o leitor a melhor compreender quais possíveis enganos ele pode cometer na compreensão do que são servos astrais, sua lógica de funcionamento e como utilizá-los.
Sendo assim, servidor astral é entidade?
Respondendo em bom português: NÃO!
Para melhor compreender isso, é necessário recorrer a alguns breves pontos da História da Magia. E embora seja possível remontar a ideia de servidores astrais ao mais arcaico Judaísmo e a ideia de gólem, passando pela Idade-Média e o estranho interesse de algumas ordens em homúnculos, a fim de nos concentrarmos no que realmente interessa, nós nos concentraremos em dois pontos.
Um deles é o Budismo, o outro é a magista Dion Fortune, pseudônimo da psicóloga Violet Mary Firth Evans (1890 – 1946). Sendo ela iniciada na Golden Dawn, compreende-se a correlação com o Budismo Tibetano, onde prevalece a influência da Tradição Theravada, a mais esotérica das escolas budistas.
Dentro de tal corrente, existe milenarmente o conceito de “tulpa”, termo que posteriormente sofreria mudanças semânticas para melhor definição técnica dentro do cânone da Magia do Caos.
Para a Theravada, “tulpa” é qualquer construção mental, ou seja, qualquer forma-pensamento, projetada por um iniciado. Tal forma seria a manifestação etérea da vontade do indivíduo, geralmente um monge, que poderia atuar de forma etérea à parte de seu corpo.
Em outras palavras, o monge canalizava a sua vontade num constructo mental cuja finalidade era realizar determinado objetivo. Por exemplo, depurar energias maléf**as no templo todos os dias em determinada hora, ou mantê-lo alerta quanto a potenciais ameaças à sua vida. É comum este segundo uso ainda hoje principalmente por monges quando precisam realizar longas viagens, embora o primeiro raramente seja utilizado por questões próprias da vida monástica.
Porém, são estes dois exemplos claros daquilo que eles chamam de “tulpas” e nós de servos astrais. Tal diferenciação não surgiu dentro da Magia do Caos, mas da Golden Dawn a partir de semânticas consideradas pagãs próprias do continente europeu.
Logo, originalmente, “servo astral” era o mesmo que “tulpa”.
Quem primeiro fez uso de tais constructos dentro da Golden Dawn, popularizando-os dentro da ordem e gerando certo interesse por iniciados de fora dela, foi justamente Dion Fortune. Em 1910, então com apenas 20 anos, ela se baseou em conceitos de Alquimia, Judaísmo e Budismo Theravada para criar sua primeira forma-pensamento como projeção autônoma de sua vontade, uma criatura etérea na forma de um lobisomem que, aos pés de sua cama, protegia-a durante o sono.
Tal distinção de constructo com vontade autônoma é especialmente importante, visto que outras correntes esotéricas já haviam desenvolvido naquele mesmo século na Europa o conceito de construções mentais a partir da vontade, geralmente inconsciente. Exemplo é a ideia de “plasmar” algo dentro do Kardecismo. Dentro da literatura pós-Kardec, são vastos os exemplos de objetos plasmados no plano espiritual tanto por encarnados quanto por desencarnados. E ainda que tal vertente admita a existência de formas-pensamento dentro de outras terminologias, raramente explora projeções do inconsciente que apresentem comportamentos autônomos, geralmente mostrando criações mentais na forma de vermes e parasitas que assolam indivíduos com “pensamentos negativos” e parasitam suas energias para se sustentar. Além disso, jamais, sob hipótese alguma, seus médiuns são incentivados por dirigentes, mentores espirituais ou pensadores da doutrina a fazerem uso útil dessa capacidade espiritual mesmo entre encarnados.
Dion Fortune, num contexto de decadência do Kardecismo na Europa, talvez tenha percebido esse vácuo de criações mentais para explorar tais possibilidades, obtendo efetivo sucesso, que influenciaria Austin Osman Spare, precursor da Magia do Caos, ao lançar seu 2º livro apenas 3 anos depois, sendo o 1º de sua produção a explorar de fato os conceitos que norteavam seu sistema mágico, o Zos Kia Cultus.
Tais constructos autônomos, muito análogos a robôs com pré-programações a exercerem vontade própria, a Golden Dawn chamou de “elementais artificiais”. A ideia era que respondessem a uma vontade do magista, a partir de métodos muito semelhantes às tulpas do Budismo Theravada.
Embora Austin Osman Spare, assim como a própria Dion Fortune, tenha contribuído bastante para a noção do que seriam e como se trabalhar com tal classe de seres, foi somente na década de 70, especialmente após a formação da IOT, que os conceitos foram melhor aprofundados, tomando então a real dimensão e profundidade que hoje possuem apenas décadas depois disso, com a formação do DKMU a partir da junção de dois já importantes coletivos mágicos.
Dentro do cânone literário formado a partir dos estudos e experimentações de tais grupos, bem como de outras instituições menores e até mesmo alguns covens, percebeu-se que era possível aperfeiçoar os métodos de criação de servidores astrais e até mesmo expandir sua utilização, além de se notar certas particularidades em determinados constructos.
Phil Hine comenta que “ao deliberadamente germinar porções de nossa psique e identificá-las por meio de um nome, traço, símbolo, nós podemos trabalhar com elas (e entender como elas nos afetam) a nível consciente”.
Sendo assim, a atuação dos servidores é, por um lado, similar à de uma sigilação (dado haver uma vontade específ**a embasando sua criação ou utilização), e por outro lado mais independente, haja vista que os servidores podem se movimentar pelo astral para realizar estes serviços de forma mais direta, também se comunicando com o magista. De forma geral, os servidores podem ser relacionados a um sigilo ou a um objeto, que servirão como sua morada ou simples ponto de ancoramento, ou ainda existindo de modo independente. Mas, de modo geral, possuem características genéricas na literatura caoísta:
• Criação Consciente: os servidores são criados conscientemente, de forma deliberada por um magista, e não possuem previamente uma existência própria como um aspecto mental, natural ou espiritual.
• Especificidade: os servidores são criados com características e objetivos específicos, incluindo limitações, traços de personalidade, fontes específ**as de alimentação e formas específ**as de evocação/destruição. Para especif**ar tais aspectos, pode ser utilizados diferentes métodos, mas muitos magistas se sentem seguros com a ideia de estipular tudo na forma de um contrato por escrito ou diretrizes de comando tais quais um código de programação.
• Movimentação: diferente de sigilos, fetiches ou outros elementos mágicos inanimados e imóveis, considera-se que os servidores possam, via de regra, fluir pelo astral e sejam capazes de realizar atividades em diferentes lugares, assim como seguir o magista, dependendo do objetivo para o qual foram criados, visto serem manifestações de uma vontade específ**a de quem criou determinado servo.
• Hierarquia: crê-se que os servidores estão dentro de uma grande cadeia contínua de entidades que se manifestam no astral, que em uma visão física equivalem às faixas vibracionais e às diferentes frequências, embora isso deva ser tomado como analogia e não tentativa de dar ares científicos ao oculto. Os servidores estariam em um grau vibracional abaixo do nosso nível mental, nessa cadeia, sendo subordinados à nossa vontade e dependentes da nossa energia ou de alguma fonte utilizada como bateria, o que pode incluir outras pessoas.
• Desenvolvimento: existe também a ideia de que o servidor pode se desenvolver com o tempo e mudar de nível hierárquico. Geralmente, isso tem a ver com inserir o servo astral em diferentes situações e/ou dá-lo múltiplos comandos ou mesmo uma “liberdade total” de autonomia. Nesses casos, ele ascenderia para o que caoístas chamam de “tulpas”, diferenciando a forma-pensamento na noção tradicional europeia para adequá-la a concepções que coincidem com o budismo. Ainda comparativamente com robôs, seria como testemunhar um software de machine learning adquirir sensciência e vontade própria, tornando-se um ser então independente da vontade do magista.
É importante ressaltar ainda que, para muitos magistas, tomando como base já as primeiras páginas de “O Livro do Prazer”, de Spare, bem como diversos trabalhos de magistas respeitados na tradição caoísta, praticamente TODA divindade está nesta última categoria de servo astral, geralmente criado pelo êxtase religioso e vontade inconsciente de tais deuses através da fé.
A isso, diversos coletivos mágicos chamam de “forma-deus”, diferenciando tais formas-pensamento de servos astrais comuns ou o que se convencionou chamar na literatura caoísta de tulpas.
Tais formas-deuses, entendidas como divindades pelo coletivo, seriam gestadas e fortalecidas pela egrégora de cada religião que a elas um dia se dedicaram e quanto maior for o montante de fé nelas depositadas.
Isso nos leva a compreender o que são servos astrais públicos...
Diferentemente dos servos astrais de uso pessoal, como o lobisomem de Dion Fortune, eles partem da premissa de que o uso coletivo de uma forma-pensamento a fortaleceria, potencializando seu uso quanto mais popular ela se torne.
Naturalmente que, sendo os servidores astrais públicos avatares de vontades coletivas, as mesmas passarão por variadas distorções. Por exemplo, digamos que um comerciante monte um servo astral para ganhar dinheiro rápido: é muito provável que o servo astral se relacione por razões subjetivas e via de regra alheias à intenção consciente do magista com a dinâmica de comércio. Especulemos então que este comerciante hipotético decida disponibilizar seu servo astral online a fim de fortalecê-lo, submetendo-o não só a uma relação com a psique de diferentes magistas, mas permitindo que ele seja aplicado em variados campos com o mesmo objetivo. Por exemplo, por alguém que deseja um emprego novo, alguém que busca receber certos valores de uma herança, alguém cujo desejo é lucrar na Bolsa de Valores, entre outras incontáveis possibilidades...
Enquanto a interação com a psique de diversos magistas, geralmente em gnose, fornecerá insumos necessários à construção de uma consciência própria, as variações nos comandos permitirão que ele adquira gradualmente maior variedade de ação e aos poucos se torne uma existência independente da vontade de magistas.
Especialmente quando são tratados como entidades no sentido semântico de serem espíritos, isso fortalece sobre tais formas-pensamento a construção de uma individualidade própria.
Quando tais comportamentos coletivos finalmente eclodem na individualidade da forma-pensamento, caoístas e adeptos de outras vertentes costumam chamá-las de “tulpas”. Assim, como seres independentes, podem ou não atender a pedidos, podem ou não simpatizar com o magista que o evoca, podem ou não ser uma ameaça real a quem com eles trabalha.
Obviamente, nem toda tulpa será uma ameaça ao magista. Tal como espíritos e pessoas, algumas podem ser especialmente amigáveis e parcimoniosas, ao passo que outras costumam vampirizar magistas e ocasionalmente representar ameaças ainda maiores.
Algumas pessoas costumam considerar que certos servos astrais possuem uma programação mais “segura” que outros, o que é verdade. Afinal, dois magistas a criarem servos astrais distintos com a mesma função terão metodologias e aplicarão diretrizes diferentes entre si, e isso sem considerar as circunstâncias da criação pertinentes ao magista, ao momento da criação de tais seres e ao ambiente em si.
Enxergar servidores astrais numa aproximação com entidades foi que se tornou comum especialmente a partir de 2016, após o estrondo de popularidade de Tommie Kelly em seu famoso baralho “Os Quarenta Servidores”, e não que seja culpa do mesmo, que assumidamente não sabia muito bem o que estava fazendo, quando, durante um estado de gnose para compor seu baralho pessoal de Tarô, adaptado às suas próprias características, ele buscou representar 40 arquétipos para uso pessoal e decidiu, com certa relutância, publicá-los online.
Provavelmente devido à grande adesão de seu sistema originalmente concebido para fins oraculares através de arquétipos, comunidades caoístas começaram a aderir como se fossem formas-pensamento seguras e imunes a quaisquer modif**ações involuntárias ou conscientes de seu autor, ou mesmo da própria egrégora composta pela coletividade.
Para se compreender tais riscos a partir do que foi dito até aqui, é preciso recorrer ao próprio Tommy Kelly, como descrito em “Adventures in WooWoo”, site para o qual o artista e magista sempre deu grandes contribuições. Diz ele que:
“Em primeiro lugar, os Quarenta Servos são quarenta arquétipos individuais, ideias ou representações de energias que podem ser usadas para fins de adivinhação. Por exemplo, você pode misturar o baralho, escolher as cartas e depois colocá-las em uma distribuição predeterminada. Ao analisar a posição do cartão no jogo e, em seguida, pesquisar o que o cartão representa, você pode obter algumas informações sobre a pergunta feita.
Em segundo lugar, os Quarenta Servos também podem ser usados no seu dia-a-dia para aumentar ou diminuir a quantidade de energia ou influência que cada Servo representa. Isso é conhecido em alguns círculos como ‘magick’, mas tem muitos nomes.
Você pode usar os Quarenta Servos exclusivamente para adivinhação, ou exclusivamente para magia, ou pode usá-los para ambos, dependendo totalmente de suas próprias necessidades e preferências. Se a adivinhação não lhe interessar, então o lado mágico ainda o servirá da mesma forma, e o oposto também é verdadeiro.
Mas as descrições acima são apenas de seus usos e não de sua natureza. Então o que exatamente são os Quarenta Servos?
No início, tive uma resposta muito definida sobre qual era a natureza exata dos Servos: “Os Quarenta Servos são servos [astrais]”; mas hoje em dia não tenho tanta certeza. Hoje em dia, é difícil identif**ar exatamente o que são, e quanto mais eu tento, mais tenho a sensação de que, de alguma forma, estou perdendo o objetivo e, de muitas maneiras, estou apenas limitando-os ao tentar.
Mas definir um servidor é um ponto de partida tão bom quanto qualquer outro, então vamos começar por aí.
Um servidor é comumente descrito como uma forma-pensamento. Pessoalmente, porém, prefiro ver um servidor como uma ideia. Os servidores são criados para cumprir um propósito específico ou desempenhar uma determinada função. Portanto, em nosso caso, cada um dos Quarenta Servos recebeu um papel ou poder específico para que possam ser usados para ajudá-lo ou guiá-lo. Alguns Servos representam proteção ou boa sorte, enquanto outros recebem sabedoria e conhecimento, alguns são para desenvolvimento pessoal e muitas outras coisas.
Mas como é um servidor ou forma-pensamento na vida cotidiana? Os servidores estão vivos? São espíritos? Eles têm uma mente e vontade própria? Você pode vê-los? Outras pessoas podem vê-los? Bem, infelizmente, não há uma resposta definitiva para isso. Todos terão uma experiência e uma visão diferente sobre os servidores. Eu pessoalmente conheço pessoas que viram fisicamente seus próprios servos ou de outras pessoas, conheço pessoas que podem sentir uma presença ou até mesmo ouvir uma voz. Também conheço pessoas que nunca viram, sentiram ou ouviram seus servidores, mas os usam de qualquer maneira, pois parecem ser bastante ef**azes. E outros, ainda, parecem nunca conseguir que os servidores trabalhem, não importa o que tentem. Ainda não vi nenhum dos Quarenta Servos no mundo mundano, embora algumas pessoas tenham me dito que conseguiram.”
Por tudo isso, podemos dizer que, se nem o autor dos Quarenta Servidores sabe o que exatamente são, tampouco se interessou a qualquer momento por limitá-los, não seriam eles, senão tulpas, candidatos ideais a alcançarem tal estado de existência?
Cabe mencionar aqui mais uma vez que uma tulpa não necessariamente será maligna, mas é salutar que o magista compreenda possíveis implicações daquilo com que está trabalhando; coisa hoje cada vez menos abordada por gurus digitais mais preocupados em utilizá-los como ferramentas de marketing pessoal e digital para lucro financeiro e/ou vampirismo energético do que de fato instruir pessoas interessadas em Magia do Caos. Ainda que nem sempre a intenção seja ruim, como muitos servidores compartilhados a partir de diferentes comunidades, que apenas reproduzem o modus operandi formulaico assimilado de tais figuras.
Normalmente, na internet, o que se percebe é um passo-a-passo no qual servos astrais são evocados a partir de um sigilo, alimentados com energia do magista ou de algo no ambiente em uma imitação rasteira de oferendas a deuses ou entidades (tais como velas de determinadas cores, bolo de laranja, bebidas alcoólicas e etc.), sendo então feito o pedido (antes ou depois da oferenda) e, após realização do intento, um agradecimento público.
Por essa reprodução em cadeia artificialmente estimulada por tais gurus digitais, o que se vê são verdadeiras romarias virtuais em redes sociais nas quais aqueles a utilizarem os mais variados servidores partem para agradecê-los virtualmente, esquecendo-se de que, em primeiro lugar, um servidor deveria ser a manifestação de uma vontade individual ou o avatar de uma vontade coletiva, projetada para o “eu” externo ao magista a fim de cumprir determinada função ou conjunto das mesmas.
A partir de relatos das comunidades, os três exemplos mais famosos de servidores astrais brasileiros a se tornarem tulpas com interesses próprios, podendo inclusive prejudicar certos magistas, são:
- Ronda, um servo astral dedicado à prosperidade financeira, produzido pela caote Lua Valentia dentro de seu sistema Specularis, e cuja forma-pensamento alçada à condição de tulpa atende fielmente à sua criadora, beneficiando magistas que a usam apenas quando eles possuem potencial de gerar lucro financeiro para a criadora. É relatado ainda que, por vezes, mesmo atendendo a tais critérios, Ronda pode ativamente prejudicar de forma deliberada os negócios de quem a evoca.
- LaSombra, um servo astral dedicado à vingança e destruição, notoriamente se sabendo que passou a vampirizar a maior parte daqueles que o conjuram.
- Zéskias, imaginado como um ser antropozoomórfico de aspecto felino que em tese se dedicaria a encontrar animais perdidos, mas se tornou proficiente em encontrar também objetos perdidos e roubados, como se pode perceber em fóruns online; sendo um exemplo de tulpa amigável, embora por vezes esteja sujeito a involuntariamente adoecer animais que encontra quando não banido adequadamente.
Portanto, os caminhos mais seguros para a utilização de servos astrais são aqueles de uso pessoal e os compartilhados estritamente por respectivos grupos pequenos nos quais cada magista confia na competência dos demais para utilização de tais servos.
Em relação aos demais, os de uso público, talvez seja mais seguro tentar Goétia.
Agora, vamos ao que interessa.
Como criar seu próprio servo astral?
Como em tudo na Magia do Caos, não existe um método específico, dado que você pode adaptá-lo dentro de certos limites do bom-senso, a não ser que esteja se sentindo seguro para realizar experimentações.
Primeiro, tenha em mente que o servidor astral é projeção da sua vontade, da sua intenção e fixação em tal ideia. E, quanto mais intensa for tal vontade, maiores serão as suas chances de criar um servidor com força de ação relevante.
Então vamos pular todo o cerimonialismo de velas acesas e qualquer papagaiada que os tais gurus de internet te ensinaram e nos concentrarmos no cerne da Teoria da Magia do Caos.
Utilizando-se o princípio filosófico da Navalha de Occam para se reduzir premissas desnecessárias que levam à confusão, f**a óbvio que todo servo astral depende de três condições para ser criado:
1) Intenção, que será o ditame da “programação” de seu servo-astral.
2) A forma que ele terá, sua aparência.
3) A energia depositada, cujos métodos são variáveis.
Pronto, agora que você já sabe o básico sobre criação, é o momento de entrar em estado de gnose, como nós já ensinamos por aqui a fazer.
A partir daqui, duas metodologias são populares:
A 1ª constitui em adotar uma mentalização do intenso agregado à forma, adotando-se então, ainda em estado de gnose, a técnica de sigilação, que nós já ensinamos no artigo “MEU SIGILO FICOU UMA B***A! E AGORA?”. Em seguida, ao invés de “esquecer” o sigilo, como é comum nas práticas brasileiras, o magista regularmente fortalece seu intento através do sigilo.
A 2ª técnica é exatamente como a primeira, mas, ao invés de compor um sigilo que alimentará energeticamente o servo astral, ele depositará sua própria energia num processo de depósito energético continuado. Essa técnica, obviamente, cria servidores fortes muito mais rapidamente, mas vampiriza quem o utiliza. Não é recomendável que seja adotada por magistas sem grande domínio de controle energético, sendo capazes de compensar essa perda através do vampirismo de outros seres ou por meio de métodos frequentemente pouco ortodoxos e bastante individuais. Alguns magistas conseguem inclusive atrelar a matriz energética de seus servos a outras coisas, como sentimentos depositados na psicosfera ou mesmo alimentos e até energia elétrica e nuclear, embora seja ideal que a “primeira carga” parta de energia própria. Via de regra, é bom que a alimentação energética parte de natureza metafísica, cabe ressaltar; sendo as exceções frequentemente frutos de experimentações de magistas com perfil aventureiro e investigativo.
Alguns magistas costumam banir ou mesmo destruir seus próprios servidores tão logo começam a manifestar os primeiros sinais de autonomia à parte do que foram projetados a fazer. Isso se deve muito ao fato de que alguns não têm desejo de trabalhar com tulpas, seja por uma razão ou outra.
Há ainda aqueles que almejam exatamente isso.
O magista deve saber o que deseja a fim de evitar empecilhos em sua jornada.
Assim como deve saber o que são servidores, suas variações e como utilizá-los.
A magia é livre.
E assim deve ser também o conhecimento a respeito.
Jean Gabriel Álamo é escritor de ficção e não-ficção, diagramador, revisor de textos sem tempo para revisar os próprios escritos, ferreiro com espetos de pau em casa, editor-chefe da Revista Literatura Fantática e ocultista desde os 12 anos de idade.