22/03/2019
ORIXÁ OMULU - OBALUAIYÊ - XAPANÃ!
Omulu-Xapanã é a Terra!
Essa afirmação resume perfeitamente o perfil deste orixá, o mais temido entre todos os deuses africanos, o mais terrível orixá da varíola e de todas as doenças contagiosas, o poderoso “Rei Dono da Terra”. È preciso esclarecer, no em tanto, que Omolu-Xapanã está ligado ao interior da terra (ninù ilé) e isso denota uma íntima relação com o fogo, já que esse elemento, como comprovam os vulcões em erupção, domina as camadas mais profundas do planeta. Toda a reflexão em torno de Omolu-Xapanã, ocorreu colocando-o como um orixá ligado à terra, o que é correto, mas não deixa de ser um erro desconsiderar a sua relação com o fogo do interior da terra, com as lavas vulcânicas, como os gases etc. o
que pode ser mais devastador que o fogo?
Só as epidemias, as febres, as convulsões lançadas por Omolu-Xapanã! Orixá cercado de mistérios, Omolu-Xapanã é um deus de origem incerta, pois em muitas regiões da África, eram cultuados deuses com características e domínios muito próximos aos seus. Omolú-Xapanã seria Rei dos Tapas, originário da região de Empé. Em território Mahi, no antigo Daomé, chegou aterrorizando, mas o povo local consultou um babalawó, que lhes ensinou como acalmar o terrível orixá. Fizeram então oferendas de pipocas, que o acalmaram e o contentaram.
Omolu-Xapanã construiu um palácio em território Mahi, onde passou a residir e a reinar como soberano, porém não deixou de ser saudado como Rei de Nupê, em pais Empê (Kábíyèsí Olútápà Lempé). As pipocas, ou melhor, deburu, são as oferendas prediletas do orixá Omolu-Xapanã; um deus poderoso, guerreiro, caçador, destruidor e implacável, mas, que se torna tranquilo, quando recebe sua oferenda preferida.
Em África, são muitos os nomes de Omolu-Xapanã, que variam conforme a região. Entre os Tapas era conhecido Xapanã (Sànpònná); entre os Fon era chamado de Sapata-Ainon,que signif**a ‘Dono da Terra’; já os yorubás o chamam Obaluaiyê e Omolu. Omolu-Xapanã, nasceu com o corpo coberto de chagas e foi abandonado pela sua mãe, Nanã Buruku, na beira da praia. Nesse contratempo, um caranguejo provocou graves ferimentos na sua pele. Yemojá encontrou aquela criança e criou-a com todo amor e carinho; com folhas de bananeira, curou as suas feridas e pústulas e transformou-a num grande guerreiro e hábil caçador, que se cobria com palha-da-costa (ikó), não porque escondia as marcas de sua doença, como muitos pensam, mas porque se tornou um ser de brilho tão intenso quanto o próprio sol.
Por essa passagem, o caranguejo e a banana-prata,tornaram-se os maiores ewò de Obaluaiê. O capuz de palha-da-costa-aze (azê) cobre o rosto de Obaluayiê, para que os seres humanos não o olhem de frente (já que olhar diretamente para o próprio sol, pode prejudicar a visão). A história de Omolu-Xapanã explica a origem dessa roupa enigmática, que possui um signif**ado profundo relacionado à vida e à morte. O aze guarda mistérios terríveis para simples mortais, revela a existência de algo que deve f**ar em segredo, revela a existência de interditos que inspiram cuidado medo, algo que só os iniciados no mistério podem saber. Desvendar o azê , a temível máscara de Omolu-Xapanã, seria o mesmo que desvendar os mistérios da morte, pois Omolu-Xapanã venceu a morte.
Debaixo da palha-da-costa, Obaluayiê guarda os segredos da morte e do renascimento, que só podem ser compartilhados entre o iniciados. A relação dele com a morte, dá-se pelo fato de ele ser a terra, que proporciona os mecanismos indispensáveis para a manutenção da vida. O homem nasce, cresce, desenvolve-se, torna-se forte diante do mundo, mas continua frágil diante de Omolu-Xapanã, que pode devorá-lo a qualquer momento, pois Omolu-Xapanã é a terra, que vai consumir o corpo do homem por ocasião da sua morte. Obaluayiê andou por todos os cantos de África, muito antes, inclusive, de surgirem algumas civilizações. Do ponto de vista histórico, Omolu-Xapanã é a idade anterior à Idade dos Metais, peregrinou por todos os lugares do mundo, conheceu todas as dores do mundo, superou todas.
Por isso se tornou médico, o médico dos pobres, pois, muito antes da ciência, salvava a vida dos necessitados; durante a escravidão, só não pôde superar a crueldade dos senhores, mas de doenças livrou muitos negros e até hoje muitos pobres só podem recorrer a Omolu-Xapanã, que nunca lhes falta.
(Reginaldo Prandi)