08/12/2025
Há, que saudades.. ...
Lembranças do Candomblé de Outrora
Nos terreiros de antigamente, o tempo parecia caminhar ao compasso dos atabaques. A vida não tinha a pressa de hoje, e o sagrado se manifestava na cadência paciente das obrigações. Lembro do chão de terra batida, úmido pelo orvalho da madrugada, onde as pisadas dos iniciados desenhavam mapas de devoção.
As ialorixás e babalorixás eram verdadeiros arquivos vivos - não havia google para consultar, mas a memória ancestral fluía em seus cantos, rezas e folhas. Cada detalhe era transmitido ao pé do ouvido, no ritual diário da convivência. O aprendizado era longo, exigente, um caminho de entrega total que começava antes do amanhecer e seguia até as estrelas brilharem forte no céu escuro.
Nas noites de festa, a comunidade se reunia não por curiosidade folclórica, mas por pertencimento. Os orixás chegavam com uma força telúrica que parecia brotar das próprias raízes das gameleiras centenárias. Não havia som amplificado, apenas a voz humana em uníssono com os ilús e agogôs, criando uma frequência que ressoava no peito.
As oferendas eram preparadas com ingredientes colhidos ou comprados no mercado próximo, sem a necessidade de buscar elementos industrializados. Cada ekodidé, cada búzio, cada pedra tinha sua história, seu tempo de encontro.
Havia um silêncio respeitoso que hoje parece raro - o silêncio que não é vazio, mas pleno de presença. As crianças cresciam vendo os ebós serem feitos, aprendendo pelo olhar, pelo cheiro das ervas frescas, pelo som dos cânticos em língua africana que, mesmo não totalmente compreendida, era sentida na pele.
O Candomblé de antigamente não era espetáculo, era sustento. Não era identity marker, era identidade pura e simples. Havia dificuldades, perseguições e preconceitos muito maiores, mas também havia uma coesão comunitária mais forte, uma resistência mais orgânica.
Saudades daquele tempo em que o axé era como rio subterrâneo - não se via sempre na superfície, mas alimentava tudo por baixo, com uma força constante e profunda. O mundo mudou, o Candomblé se adaptou com sabedoria, mas nas memórias mais antigas, ainda ecoam os atabaques de um tempo em que o sagrado se vestia de simplicidade e profundidade.
Pejigan Murilo Sales