22/07/2025
Religião japonesa e múltiplas pertenças
A noção de religião, como sistema unificado de crenças com exigência de adesão exclusiva, não se desenvolveu no Japão da forma como ocorreu na Europa cristã. No arquipélago, desde os primeiros registros históricos organizados — especialmente a partir do Período Nara (710–794) — já se observava a sobreposição de práticas, doutrinas e ritos provenientes de origens distintas. Budismo (仏教, Bukkyō), Confucionismo (儒教, Jukyō), Taoísmo (道教, Dōkyō), tradições xamânicas e os cultos ligados aos kami coexistiam sem delimitações rígidas, operando de modo funcional na vida cotidiana.
A palavra referente a “religião” no Japão — 信教 (shinkyō) — passou a ser usada a partir do século XIX, acompanhando a incorporação dos conceitos ocidentais que deram nome às práticas já presentes, agora delimitadas em categorias que permitiam o enquadramento institucional e ideológico. É a partir desse marco que surgiram as designações formais, que nomeavam essas tradições antigas, outrora integradas num sistema fluido.
A experiência religiosa era conduzida por gestos, festividades, obrigações comunitárias e rituais de passagem, sem a necessidade de declaração de pertencimento institucional. A prática, não a crença abstrata, orientava a relação com o invisível. O sagrado se manifestava em gestos simples, em paisagens, em objetos, sem precisar de uma teologia formal.
O conceito de “religião”, enquanto categoria normativa, só foi incorporado à língua e às instituições japonesas no século XIX, em resposta ao confronto com as nações ocidentais. O Estado Meiji, ao buscar estabelecer uma identidade unificada e comparável às potências europeias, criou o Shintoísmo de Estado (神道, Shintō), separando o que era considerado “costume nacional” do que passou a ser classificado como “religiões estrangeiras”. Essa operação ideológica transformou uma tradição de convivência em um instrumento de centralização. A figura do imperador foi elevada a dimensão sagrada, e o aparato simbólico shintoísta passou a ser utilizado como base moral para a construção do nacionalismo moderno japonês.
Esse processo teve desdobramentos diretos na estruturação da política expansionista e na legitimação da guerra. A adesão forçada a um discurso de pureza espiritual e missão divina justificou tanto o colonialismo quanto o sacrifício militar. Ao mesmo tempo, na base da sociedade, a prática multirreligiosa nunca desapareceu. Persistiu nos lares, nos calendários festivos, nos templos e nas pequenas rotinas.
A múltipla pertença é um hábito comum do povo japonês. Muitos frequentam rituais ligados aos Matsuri, outros estão vinculados às chamadas novas religiões japonesas (新宗教, Shinshūkyō), surgidas no século XX, que por sua própria natureza são sincréticas e acolhem múltiplas filiações sem exigir adesão restrita — como exemplifica a própria Igreja Messiânica Mundial do Brasil, que afirma a possibilidade da coexistência de múltiplas pertenças religiosas. Há ainda aqueles que mantêm práticas budistas — mesmo sem uma adesão absoluta ou confessional. Essa multiplicidade não gera conflito. Ela se enraíza em uma tradição histórica marcada pela aglutinação cultural, característica da formação civilizacional japonesa.
Durante o Período Asuka (538–710), o Budismo foi oficialmente introduzido, vindo da Coreia e da China, e rapidamente se integrou às práticas locais. No Período Heian (794–1185), houve uma grande sincretização entre Budismo esotérico e crenças xintoístas, fenômeno conhecido como shinbutsu-shūgō (神仏習合). Já no Período Kamakura (1185–1333), surgiram escolas budistas voltadas às camadas populares, o que contribuiu para ainda mais diversidade no modo de vivência religiosa. No Período Edo (1603–1868), o Confucionismo foi valorizado como doutrina ética e estatal, convivendo com a vigilância do Budismo institucionalizado sob controle do bakufu.
A tradição japonesa é, portanto, agregadora. Sua história é marcada por ciclos sucessivos de incorporação e adaptação de elementos estrangeiros. Mesmo diante da rigidez normativa do Japão contemporâneo, essa herança permanece viva. A identidade religiosa japonesa não se ancora na exclusividade. É plural, pragmática, territorial. O gesto ritual importa mais que a crença interior. O templo visitado importa mais que o dogma proclamado.
Hoje, a multiplicidade permanece. Em geral, a criança é apresentada a um santuário xintoísta ao nascer, muitos casamentos são realizados em igrejas cristãs — mais por estética do que por convicção — e os funerais seguem os ritos budistas. Nenhuma dessas escolhas exige exclusividade. Não há tensão interna entre elas. O pertencimento é simbólico, situacional, não confessional.
Trata-se de uma forma de consciência que opera fora da lógica da ortodoxia. A relação com o sagrado é sensível, local, atravessada por memórias e hábitos. O indivíduo japonês não escolhe uma religião — vive a sobreposição de várias. Esse modelo não resulta de relativismo, mas de outra concepção do que significa estar vinculado. A fé não é contrato, é trânsito.
Profe Frato Kyudosha