04/10/2022
Resiliência
"Diariamente perseveravam unânimes no templo, partiam pão de casa em casa e tomavam as suas refeições com alegria e singeleza de coração, louvando a Deus e contando com a simpatia de todo o povo. Enquanto isso, acrescentava-lhes o Senhor, dia a dia, os que iam sendo salvos" (At 3.46, 47).
A sociedade humana sofreu enormes mudanças desde que o cristianismo nasceu neste mundo em Jesus Cristo. Certamente, tais transformações também modificaram a experiência da igreja. Embora a cobiça sempre esteve no coração humano a partir da queda, não se trata de uma força contida, mas de poder que procura sempre sobrepujar qualquer limite. Colocando isso de outra forma, não há fronteiras para a cobiça no coração humano. A expressão em inglês “no limits” expressa bem a perspectiva do homem atual. A cobiça, muitas vezes travestida de “ambição pessoal”, “sonhos”, ou qualquer outra forma eufemística, levará o pecador a estabelecer meios para que possa se manifestar de forma cada vez mais pujante, canais mais eficientes de sua afirmação. Multiplicaram-se os seus alvos e os meios para sua concretização. A cobiça se tornou a grande força motriz no homem, o próprio pecado original.
Na época do Novo Testamento não havia o ativismo presente em nossos dias, quando todo o tempo do indivíduo é ocupado com questões ou aperfeiçoamento profissionais e atividades físicas. Havia tempo para a família, para descanso, para o exercício do cristianismo. Quando lemos o texto epigrafado, salta-nos aos olhos algo que para a nossa realidade sugere uma utopia. Não estou me referindo ao desprendimento quanto às coisas terrenais e a valoração das coisas eternas, mas aquilo que já é referido no início do verso: diariamente estavam juntos! Em nossa época, nem mesmo a liderança da igreja frequenta os trabalhos de meio de semana, alegando falta de tempo.
Perdemos completamente de vista que a experiência verdadeira de igreja é diária. A igreja que procuramos viver na semana é formada de um só, “eu”, pois os irmãos se reúnem, geralmente, uma vez por semana, mormente no domingo. Os crentes não têm tempo para serem cristãos, tanto no desenvolvimento de sua própria vida cristã, no que diz respeito à visitação de enfermos e à evangelização, como também quanto aos trabalhos da igreja. Na experiência das igrejas locais, dificilmente se ouve a notícia de que terá início um novo trabalho. Geralmente é o contrário! Os trabalhos das igrejas estão minguando, sendo adaptados à falta de tempo daqueles que se dizem “crentes”. Mesmo os trabalhos de sábado estão acabando, pois, tendo todo o tempo da semana consumido pelas obrigações com o mundo, homens e mulheres querem aproveitar esse dia, às vezes, até mesmo o domingo, para sair e passear. Qualquer tentativa de estabelecimento de novo trabalho na igreja será ferozmente rebatida, pela afirmação da falta de tempo.
Certamente, como é comum acontecer, o cristão procura logo uma legitimação para seu procedimento errado. Passou a dizer que seu trabalho é para a glória de Deus. Assim, tornou-se também mentiroso! Todo tipo de adaptação das Escrituras não procede de Deus, mas de corações pecadores, ansiosos por fazer uma síntese entre igreja e mundo, entre Palavra de Deus e cobiças humanas. Quando pensamos no impacto da igreja no mundo neotestamentário, dificilmente nos lembramos que boa parte do “poder” que tinha vinha da comunhão diária. Imagine se sua igreja local tivesse trabalhos diários, que aliassem a pregação da Palavra e a oração ao trabalho evangelístico. Qual seria o resultado?
O diabo ocupou o tempo dos crentes com coisas lícitas, mas secundárias, convencendo-os de que aquilo que estão fazendo é correto. Crentes que vivem para a matéria, que não têm tempo para o reino de Deus, foram engolidos por um sistema anticristão, que praticamente impede o cristão de exercer seu papel no reino. A escravidão dos corpos foi banida, mas não a do tempo. Aliado a isso está o que podemos chamar de a “normalidade” da igreja. O texto epigrafado é a primeira reflexão que Lucas faz sobre a condição da igreja nascente. Inicia-se alguns versos acima, dizendo da perseverança na doutrina dos apóstolos, na comunhão e nas orações. Experimentava-se a unidade da igreja de uma forma intensa. Não havia egoísmo ou apego aos bens materiais, a ponto de venderem suas propriedades e repartir o valor igualmente a todos. Uma vivência do evangelho sem igual. Isso mesmo: sem igual!
Infelizmente, essa não é a realidade da igreja em tempos normais. O que o texto expressa é como viveram os primeiros cristãos debaixo do maior avivamento que já houve na história: o derramamento do Espírito Santo no Pentecoste. No entanto, já no capítulo 5 temos o episódio de Ananias e Safira, quando um casal mente descaradamente para a igreja. No capítulo 6 há discriminação, quando as viúvas judias cristãs nascidas fora da Judeia estavam sendo preteridas na distribuição diária, em favor das nascidas na Judeia. Agora começamos a ver o que é a igreja em tempos habituais. As cartas do Novo Testamento são repletas de problemas e dificuldades encontradas nas igrejas, mostrando também como é a normalidade da chamada "assembleia dos santos".
Com isso, não devemos entender que precisamos simplesmente nos acostumar com problemas e pecados na igreja. Não! Devemos fazer a nossa parte e lutar contra todo erro, pecado ou heresia. No entanto, é muito importante entender que, como uma comunidade de pecadores, embora redimidos, sempre haverá problemas na igreja. A visão realista sempre é a mais adequada, até mesmo para que não nos decepcionemos exageradamente. Há irmãos que olham para a igreja como se fosse a antessala do paraíso. Projetam um ambiente sempre santo, praticamente perfeito e idílico. Certamente, não tardarão em se decepcionar enormemente. Embora deva ser sempre muito melhor do que o mundo, encontraremos pecados naqueles que a compõem, às vezes, pecados de grandes proporções, de assoberbada impiedade. Entendamos que a igreja é a comunidade dos santos, mas ainda não perfeitos.
Portanto, o desafio do crente atual é enorme: a) buscar a manutenção de sua própria vida espiritual em um mundo já chamado de “pós-cristão”; b) lutar contra a legitimação de um cristianismo materialista, procurando um modelo de vida profissional que o permita exercer as atividades do reino, preferencialmente em caráter diário; c) clamar a Deus por um avivamento espiritual que venha corrigir os grandes desvios da igreja atual, especialmente vistos no materialismo e no secularismo, formas de mundanismos que invadiram a igreja. É a vida fiel e o testemunho verdadeiro que provocam o crescimento numérico da igreja. A igreja que se reúne diariamente vê dia a dia o acréscimo dos que vão sendo salvos por seu trabalho diário. A única evangelização ocorre pela fidelidade da igreja. Busquemos fazer o nosso melhor para a glória de Deus e a bênção do seu povo, sabendo que, vez por outra, haverá reveses e escândalos. A resiliência é a virtude que se busca nos verdadeiros crentes hodiernos. Pessoas certamente nos decepcionarão, mas Deus jamais.Tenha um excelente dia na presença de Deus (rev. Jair de Almeida Junior).