29/05/2026
No coração de Itapoan, em Salvador, repousa um dos cenários mais emblemáticos e enigmáticos da cultura baiana. A lendária Lagoa do Abaeté.
Cercada por dunas de areia branca e marcada pelo contraste hipnotizante de suas águas escuras, a lagoa transcende a beleza natural e se transforma em um verdadeiro símbolo da memória e das tradições populares da Bahia.
A tradição oral preservada pelos antigos moradores da região conta que esse nome "Abaeté" seria em homenagem a um poderoso morubixaba indígena que desapareceu misteriosamente nas profundezas da lagoa.
Dizem os mais velhos que, em noites silenciosas, ainda é possível ouvir seus cânticos ecoando das águas escuras, como se o espírito ancestral permanecesse guardando aquele território sagrado.
Mas o Abaeté não vive apenas da história, ele respira lendas. O ambiente quase mágico formado pela combinação rara entre a areia clara das dunas e o espelho negro das águas deu origem a inúmeros contos folclóricos ao longo dos séculos.
Entre eles, destaca-se a misteriosa figura da “Dama da Lagoa”, também conhecida como Uiara. Descrita como uma entidade encantadora, semelhante a uma sereia, ela atrairia homens solitários para o fundo das águas, de onde jamais retornariam.
Para muitos moradores e adeptos das religiões de matriz africana, o Abaeté é um espaço de profunda energia espiritual, reverenciado como território sagrado e de conexão ancestral.
Além do imaginário místico, a lagoa possui uma importância social e cultural imensurável. Durante grande parte do século XX, o Abaeté foi espaço de trabalho, convivência e sobrevivência para inúmeras famílias da região.
As tradicionais lavadeiras transformaram suas margens em ponto de encontro e resistência cultural, enquanto pescadores, artesãos e moradores mantinham viva a relação cotidiana com a natureza.
O cenário também inspirou a música popular brasileira, eternizado em versos e melodias de artistas como Dorival Caymmi, com "A Lenda do Abaeté", que muito contribuiu para projetar o encanto de Itapoan para o mundo.
Entretanto, com o avanço da urbanização e da especulação imobiliária a partir da segunda metade do século XX, o equilíbrio natural do Abaeté começou a sofrer impactos profundos.
As dunas foram reduzidas, áreas naturais desapareceram e a poluição passou a ameaçar o delicado sistema ecológico da região. Esses desafios despertaram movimentos populares e ambientais em defesa da preservação do patrimônio natural e cultural da lagoa.
Hoje, o Parque Metropolitano do Abaeté representa um importante símbolo dessa luta pela conservação.
Transformado em Área de Proteção Ambiental (APA), o espaço abriga iniciativas voltadas à preservação ecológica, à valorização da cultura baiana e ao fortalecimento do turismo sustentável.
O memorial revitalizado, os eventos culturais e as manifestações artísticas mantêm viva a essência de um lugar onde natureza, história, espiritualidade e identidade popular permanecem profundamente entrelaçadas.
Visitar a Lagoa do Abaeté é mais do que conhecer um ponto turístico, é sim mergulhar em um universo de memórias ancestrais, mistérios e tradições que ajudam a contar a própria história da Bahia.
Entre dunas, águas silenciosas e lendas eternas, o Abaeté continua sendo um dos mais fascinantes patrimônios culturais de Salvador, um lugar onde o passado ainda sussurra nas margens do presente a espiritualidade e as tradições populares da Bahia.
Paulinho da Gamboa
Foto visita Abaetě junho 2025