23/08/2026
48 Portanto, sede vós perfeitos como perfeito é o vosso Pai celeste. Mateus 5.48
Por Rev. Luciano Nunes de Araújo
O capítulo 5 termina com um grande desafio. Observe as palavras de D. A. Carson: “Nós temos de ser santos, pois o Senhor nosso Deus é santo (Lv 19.2); amorosos, porque Deus é amor (1Jo 4.7ss.); perfeitos, assim como nosso Pai celestial é perfeito (Mt 5.48)”. Para deixar claro, Jesus não está ensinando uma perfeição absoluta antes da morte! Mas por que devemos buscar a perfeição? Porque Deus é perfeito!
Hendriksen, no auxilia no entendimento do versículo. Ele afirma: “[...] na presente conexão “perfeito” significa “concluído, plenamente desenvolvido, a que não nada falta”. Jesus está dizendo ao povo daqueles dias, bem como a nós hoje, que eles e nós não podemos ficar satisfeitos com meia obediência à lei do amor, à semelhança dos escribas e fariseus, que jamais penetraram no coração da lei”.
Deus não quer uma religiosidade apenas exterior, marcada por aparências e formalidades. Ele exige de seu povo uma santidade verdadeira, que alcance o coração e produza uma vida coerente com o caráter de Deus. Por isso, nossa obediência não deve ser motivada pelo desejo de parecer espirituais diante dos outros, mas pelo desejo sincero de imitar o nosso Pai celestial, buscando viver em santidade e integridade. Além de ser um desafio para nós, o último versículo funciona como uma espécie de transição.
Mais uma vez, atentemos para as palavras de Hendriksen: “Entre os capítulos 5 e 6 existe uma estreita conexão. Isso é evidente especialmente de dois fatos: a. Jesus prossegue falando da justiça do reino (cf. 5.6, 10, 20 com 6.1); e b. ele continua pondo em contraste a justiça genuína com aquela que ele associa com os escribas e fariseus (5.20), os hipócritas (6.2, 5, 16). Não obstante, há igualmente uma transição definida para uma nova subdivisão. No capítulo 5, a religião verdadeira foi contrastada com a que os escribas e fariseus, baseados na tradição rabínica, estavam ensinando; em 6.1-18, ela será contrastada com o que eles estavam praticando. A partir de 6.19, os hipócritas ficam na penumbra. Ainda que, provavelmente, fosse errôneo dizer que tenham desaparecido completamente, nesse sermão eles não são mais mencionados de forma específica. Começando com 6.1, e prosseguindo até 7.12, Jesus, mais positivamente que antes, dirige a atenção de seu auditório para o que significa a justiça do reino. Em síntese, viver a vida justa consiste em obediência espontânea à regra: “Amarás a Deus acima de tudo, e amará o teu próximo como a ti mesmo””. Em outras palavras, no capítulo 5, Jesus focou nos ensinamentos e agora no capítulo 6, Ele foca na vida prática.
Como veremos, os princípios bíblicos que são ensinados no Sermão do Monte, não são código de ética, mas princípios de vida. Ou como já foi apresentado no início dessas pastorais, o Sermão do Monte, “[...] descreve a aparência da vida e da comunidade dos homens sob o gracioso governo de Deus” (John Stott). A ideia é simples: devemos caminhar de maneira diferente, pois não estamos sob o governo de Satanás, mas sob o governo de Deus. Assim, mostramos ao mundo que somos verdadeiramente filhos do nosso Pai celestial, fortalecendo a nossa identidade nEle.
Como cumprir o IDE de Jesus se caminhamos como os ímpios? O IDE de Jesus implica TESTEMUNHO! Posso desenvolver diversos trabalhos missionários, levantar recursos para missões, entregar folhetos e até levantar uma placa no sinal, mas o verdadeiro IDE é o TESTEMUNHO!
Lloyd-Jones também nos ajuda a compreender o capítulo 6. Observe suas palavras: “Mateus 6 passa a revista a nossa vida como um todo, considerando-a segundo dois aspectos. Trata-se de algo verdadeiramente admirável, pois, em última análise, a vida do crente neste mundo tem dois lados, ambos o quais são aqui ventilados. O primeiro desses aspectos é tratado nos versículos 1 a 18; e o segundo, nos versículos 19 até o fim do capítulo. O primeiro desses aspectos cobre aquilo que poderíamos intitular de nossa vida religiosa, a cultura e a nutrição da alma, a nossa piedade, a nossa adoração, o quadro, completo de nossa vida religiosa, bem como tudo quanto diz respeito, diretamente, ao nosso relacionamento com o Senhor. [...] o segundo refere-se ao crente em sua relação para com a vida em geral, não tanto como indivíduo puramente religioso, e, sim, como alguém que está sujeito “as pedradas e flechadas da ultrajante sorte”, como uma pessoa precisa preocupar-se com alimentação, com vestuário e abrigo, como um homem que talvez tenha esposa e filhos, dos quais precisa cuidar, e que, por essas mesmas razões, está sujeito àquilo que, nas Escrituras, é denominado de “a coisas do mundo” (I Coríntios 7.34)”.
Ou seja, Mateus 6 apresenta a vida cristã de maneira abrangente, mostrando que nossa fé não está restrita ao momento do culto ou às práticas religiosas. Jesus trata de duas dimensões da vida do crente: nossa vida diante de Deus, envolvendo oração, adoração e piedade, e nossa vida cotidiana, envolvendo trabalho, família, necessidades e preocupações. Em suma, Jesus mostra que toda a nossa vida deve estar debaixo do governo de Deus.
Continuaremos no próximo domingo.