17/05/2026
29 Se o teu olho direito te faz tropeçar, arranca-o e lança-o de ti; pois te convém que se perca um dos teus membros, e não seja todo o teu corpo lançado no inferno. 30 E, se a tua mão direita te faz tropeçar, corta-a e lança-a de ti; pois te convém que se perca um dos teus membros, e não vá todo o teu corpo para o inferno. Mateus 5.29-30
Por Rev. Luciano Nunes de Araújo
Ser cristão “não se trata de alguma experiência a ser recebida, porém, muito mais, de uma vida a ser vivida nas pisadas de Jesus” (Lloyd-Jones). Ou seja, muitas pessoas vivem um cristianismo baseado em experiências, mas posso afirmar que somente a experiência não sustenta a nossa vida cristã.
No que diz respeito à salvação, tudo pertence a Deus! Ninguém pode ser salvo, como já foi dito em outras ocasiões, por causa das suas obras. Apesar de muitas pessoas servirem à igreja com esse desejo, a saber, serem elogiadas pelos homens e alcançar o favor de Deus, ninguém conseguirá a salvação por isso. Sua salvação, regeneração, justificação, eleição, enfim, pertencem ao Senhor! Não existe merecimento diante de Deus. Ninguém faz por merecer a graça e o favor divino. Mas, no que diz respeito à santificação, além de ser uma obra de Deus, nós também precisamos dar alguns passos.
O Catecismo Maior de Westminster, na pergunta 75, nos dá uma direção sobre isso. “Pergunta 75. Que é santificação? R. Santificação é a obra da graça de Deus, pela qual os que Deus escolheu, antes da fundação do mundo, para serem santos, são nesta vida, pela poderosa operação do seu Espírito, aplicando a morte e a ressurreição de Cristo, renovados no homem interior, segundo a imagem de Deus, tendo os germes do arrependimento que conduz à vida e de todas as outras graças salvadoras implantadas em seus corações, e tendo essas graças de tal forma excitadas, aumentadas e fortalecidas, que eles morrem, cada vez mais para o pecado e ressuscitam para novidade de vida”.
Quais são os tipos de santificação que temos na Palavra de Deus? 1. Separação de um uso comum para um uso sagrado. 2. Tornar moralmente puro ou santo, ou seja, a santificação pessoal. Portanto, existem duas partes na santificação, a saber: a mortificação, “na qual somos capacitados a morrer cada vez mais para o pecado” (Rm 6.11), e a vivificação, “na qual nossa natureza é vivificada pelo poder da graça para que vivamos para a justiça” (Rm 6.13). Ou seja, o crente regenerado é aquele que não tolera o pecado em sua vida, pois deve morrer para o pecado, crucificá-lo diariamente e lembrar também que o crescimento em santidade não é algo que possa alcançar por si mesmo.
Dentro do nosso contexto, os versículos 29 e 30 nos dão uma direção sobre o que devemos fazer. A primeira observação é que não estamos diante de algo literal. Você não precisa arrancar o olho ou a mão direita, pois, mesmo que fizesse isso, ainda teria o olho e o pé esquerdo! Mas pense no contexto. “Os fariseus procuravam evitar a questão dizendo que a dificuldade não era tanto o desejo que estava em seus corações, mas o próprio fato de que podiam enxergar” (Lloyd-Jones). Em suma, no entendimento deles, o problema estava apenas no olhar, pois acreditavam que, se não olhassem, não teriam o desejo de pecar.
Lloyd-Jones faz a seguinte afirmação: “Muito bem, já que vocês insistem que a dificuldade toda reside no olho direito e na mão direita, desfaçam-se desses membros”. Portanto, se esse raciocínio fosse correto, seria necessário arrancar os dois olhos, as duas mãos, os dois pés, enfim, não sobraria nada! Qualquer coisa, por melhor que seja, se estiver servindo como armadilha ou ocasião de tropeço, precisa ser abandonada.
A segunda observação é o inferno. Temos aqui várias questões importantes. Por exemplo: se uma pessoa morrer em seus pecados e não se arrepender, irá para o inferno. O que fazemos nesta vida possui implicações eternas para a nossa alma. Entretanto, não podemos afirmar categoricamente que alguém está no céu ou no inferno, pois somente Deus conhece o destino eterno de cada pessoa. A salvação pertence ao Senhor. O que podemos fazer é crer à luz dos frutos apresentados. Se uma pessoa morreu em Cristo, ou seja, demonstrava compromisso com a noiva de Cristo, a Igreja, e viveu uma vida que buscava glorificar ao Senhor, podemos crer que ela está com Cristo. Da mesma forma, quando alguém viveu sem qualquer evidência desse compromisso e morreu afastado de Deus, isso também nos leva a refletir seriamente sobre sua condição espiritual.
Também precisamos lembrar que aquele que nasceu do Espírito, isto é, foi regenerado por Cristo, não encontra prazer na prática do pecado. O verdadeiro convertido luta contra o pecado e não vive entregue a ele como estilo de vida. Aquele que vive continuamente na prática do pecado, sem arrependimento e sem luta espiritual, pode demonstrar que ainda não foi convertido e, humanamente falando, pode até nunca ter experimentado uma verdadeira conversão.
O versículo, então, não está afirmando que um salvo pode perder a salvação caso esteja em pecado e não peça perdão. O que o texto está mostrando é que, entre escolher os prazeres desta vida, que não estão de acordo com a vontade de Deus, e o prazer vindouro, o cristão deve abster-se dos prazeres pecaminosos desta vida. Ser cristão implica renúncia. Ser escravo de Jesus implica verdadeira liberdade.
Continuaremos no próximo domingo.