24/09/2025
A morte nos ajuda a olhar de forma profunda a vida. Essa vida que está além mesmo da morte.
Esse é o sentido mais importante: podemos encontrar dentro da morte aquilo que não morre, dentro da transmigração aquilo que não é afetado pelo desaparecimento das bolhas.
Quando nós estamos em diferentes bolhas de realidade, nós podemos ter as crises das identidades que não são mais viáveis, das bolhas que se dissolvem. Então, nesse momento, ficará claro que a bolha se dissolveu, a nossa identidade se dissolveu, mas alguma coisa não se dissolveu.
O ponto mais importante no budismo é aquilo que se chama natureza primordial, aquilo que não é construído, não é artificial, mas serve de base para todas as construções. Assim, ainda que as várias bolhas de realidade surjam, as várias identidades surjam dentro das bolhas, elas não são permanentes, não são reais. Mas há algo que é real e se mantém. Esse algo não é propriamente um objeto, não é um “algo”. É alguma coisa misteriosa que nós não conseguimos localizar como um conjunto de características.
Esse é o aspecto da vacuidade. A vacuidade plena. Assim, a morte nos ajuda a sensibilizar nessa direção. As mortes acontecem durante a vida. Mas a morte mesmo, ou seja, o desaparecimento completo, se dá como a água retornando ao mar: não há um desaparecimento.
Há uma imagem muito bonita naquele filme Samsara, que traz a pergunta: como nós podemos fazer para que uma gota de água jamais desapareça? E a resposta é: fazendo ela retornar ao mar. Quando ela se funde com o mar, ela não desaparece mais.
Então, na visão budista, essa é a grande morte: o desaparecimento da ilusão dentro do mar da existência que não flutua.
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📌 Lama Padma Samten — trecho de entrevista concedida a uma assessoria de imprensa de São Paulo, por ocasião da divulgação do retiro Conselhos sobre a Morte, em outubro de 2014, no CEBB Caminho do Meio (Viamão, RS).