24/08/2026
Ainda meditando sobre a liturgia deste Domingo...
Após ter celebrado as Missas deste Domingo, volto para casa deveras pensativo e intrigado.
A liturgia de hoje nos confronta com uma das figuras mais enigmáticas e instrutivas das Escrituras: Sobna, o administrador do palácio (cf. Isaías 22,19-23).
Sua história não é apenas um relato histórico de ascensão e queda, mas um espelho espiritual que reflete a eterna fragilidade do coração humano quando seduzido pelo poder.
Sobna falhou tragicamente ao não compreender o real significado do serviço, transformando o que deveria ser um altar de entrega em um pedestal de vaidade e proveito próprio. Ao buscar perpetuar seu próprio nome em rocha, ele se esqueceu de que a única inscrição que permanece é aquela gravada na memória de Deus, convidando-nos a refletir sobre as chaves que carregamos e os monumentos invisíveis que insistimos em erguer para nós mesmos.
Essa "ilusão de grandeza" que seduziu Sobna, encontra seu eco mais doloroso e contemporâneo nas fileiras do carreirismo clerical.
Quando o sacerdócio deixa de ser uma oblação mística para se tornar uma busca por "status quo", o altar é profanado e transformado em balcão de negócios sujos!
Pobres padres cujo codinome espiritual é Sobna — homens que vestiram a pele do pastor, mas guardam o coração do funcionário. O carreirismo é o câncer do sagrado, a tentação de usar o prestígio da batina para cavar sepulcros de vaidade em palácios humanos.
Nas estruturas diocesanas, o fenômeno se repete com uma precisão matemática e assustadora. Tomados por uma ambição cega, esses sacerdotes galgam postos com velocidade impressionante.
Conquistam posições, títulos e a simpatia dos centros de poder humano, movidos pela engrenagem da autogestão e da autopromoção.
A história de Sobna nos avisa que esse triunfo é efêmero!
O mesmo vento divino que eleva os humildes, precipita os soberbos de suas alturas artificiais!
Eles despencam.
A queda é dolorosa, pública e inevitável, pois o peso da própria hipocrisia os esmaga contra o chão da realidade!
Deus não assiste a esse teatro de vaidades com indiferença. O Senhor da Igreja tudo vê e penetra com seu olhar de fogo os meandros mais ocultos das intenções clericais. Ele não é alheio à dor do povo, negligenciado por pastores que buscam a si mesmos, nem ao escândalo de ver o Evangelho instrumentalizado como trampolim social.
A justiça divina, que destituiu Sobna para colocar Eliacim, continua operante: ela desmascara os palácios de cartas e devolve à terra aqueles que se esqueceram de que o sacerdócio é, essencialmente, o lava-pés da Quinta-feira Santa.
Se o carreirismo clerical adoece a cabeça, a embriaguez do poder, entre os leigos, corrompe o corpo das comunidades paroquiais.
O "vírus de Sobna" não escolhe estado de vida; ele infecta com igual crueza aqueles que, sentados nos bancos da Igreja, transformam a pastoral em um tabuleiro de xadrez político.
São cristãos de nome, apenas, moldados por um analfabetismo espiritual profundo, que substituíram o mistério do serviço pela engrenagem da disputa de poder. Eles, ilusoriamente, detém as *"chaves"*: da igreja, do centro pastoral, da secretaria e alguns - PASMEM! - têm até a chave da casa Paroquial! É um horror desmedido!
O evangelho desses cidadãos sofreu uma mutilação herética: a frase de Jesus, "Eu não vim para ser servido, mas para servir", foi invertida em seus corações para um soberbo: "Eu vim para que me sirvam". Essa distorção gera frutos amargos que paralisam a ação da Igreja.
Ávidos por controle, esses leigos encastelam-se em pastorais, movimentos e conselhos. Criam "feudos" inacessíveis, onde a vontade pessoal deles impera acima das diretrizes da Igreja, levantando-se, muitas vezes, em rebelião aberta contra os próprios párocos.*
Eles disputam por lugares que só existem na cabeça estreita deles! Boicotam os projetos pastorais e, se preciso for, danificam até os bens da Paróquia! Sentem-se, tantas das vezes, senhores da Igreja, capazes de determinar o que pode e como deve ser feito!
Onde deveria haver comunhão, constrói-se o escândalo! Esses grupos tornam-se responsáveis diretos pelo fracasso do anúncio da fé, pois transformam a Paróquia em um ambiente hostil de fofocas, intrigas e disputas por espaço.
Sem contar ainda que, o contratestemunho desses líderes afasta os que estão de fora e fere os pequenos.
Quem se aproxima da comunidade em busca de Deus, encontra, em vez disso, um tribunal de vaidades onde os "donos da Igreja" barram o caminho da graça.
É muito triste ouvir de um cristão que está deixando aquela Comunidade porque o "dono da Igreja" não soube acolher como deveria!
Esses "Sobnas de calça e camisa" também esqueceram que os monumentos de influência que erguem nas paróquias são feitos de areia. Ao buscarem o aplauso humano, o controle das chaves das salas paroquiais e o status de coordenadores eternos, cavam seu próprio vazio espiritual.
Eles desconhecem a beleza do anonimato evangélico e a santidade daqueles que servem sem esperar nada em troca, pois no Reino de Deus, o único poder legítimo é o serviço que se esconde para que o Cristo apareça.
Diante do espelho cortante de Isaías, clero e laicato encontram-se despidos de suas vaidades artificiais e irmanados na mesma urgência de conversão e humildade despretensiosa. Seja sob o peso da batina ou nos bancos da assembleia, o chamado de Deus desmascara todo projeto de poder que tenta instrumentalizar o sagrado para fins pessoais.
A Igreja não é um palácio de privilégios para o carreirismo de "Sobnas ordenados", nem um campo de batalha para os feudos de "Sobnas leigos"; ela é o Corpo Místico d'Aquele que se esvaziou de si mesmo até a morte de cruz.
Que a profecia que destituiu o administrador orgulhoso e soberbo, ecoe hoje em nossos corações como um santo solavanco, arrancando-nos de nossos tronos ilusórios e devolvendo-nos à beleza do chão da comunhão. *É tempo de devolver as chaves do orgulho, de renunciar aos títulos e de redescobrir que, no Reino dos Céus, a única grandeza consiste em desaparecer para que a glória de Deus resplandeça.
Itápolis, 23 de agosto de 2026 AD.
Padre Luiz Felipe Pereira de Melo.
Pároco