30/01/2026
Quaresma: Mito, Influência Cultural e Consciência Espiritual na Umbanda
A Quaresma e a Umbanda: diferenças, influências e cuidados espirituais
A Quaresma, em sua origem, não faz parte dos fundamentos da Umbanda. Ela é um período criado e estruturado dentro do Cristianismo, especialmente pela Igreja Católica, marcando os 40 dias que antecedem a Páscoa, associados a jejum, penitência, recolhimento e reflexão espiritual. Seu simbolismo está ligado à passagem de Jesus pelo deserto, às provas espirituais e à preparação do espírito por meio do sacrifício e da disciplina.
A Umbanda, por sua vez, nasce no Brasil como uma religião brasileira, afro-indígena, em valores éticos. Seus fundamentos vêm da ancestralidade africana e da sabedoria dos povos indígenas. Portanto, a Umbanda não possui quaresma em sua doutrina original, nem períodos obrigatórios de recolhimento baseados no calendário cristão.
Então por que se fala tanto em “Quaresma na Umbanda”?
Essa associação surge por influência cultural e histórica, não por fundamento religioso. A Umbanda se desenvolveu em um país majoritariamente cristão, onde o imaginário coletivo já via a Quaresma como um período “pesado”, de maior movimentação espiritual. Com o tempo, esse pensamento foi sendo incorporado por alguns terreiros, dirigentes e médiuns, criando a ideia de que:
espíritos mais densos estariam mais soltos,
o astral f**aria mais carregado,
e seria necessário redobrar cuidados espirituais.
É importante entender que isso não é um consenso dentro da Umbanda. Muitos terreiros não alteram absolutamente nada em seus trabalhos nesse período, pois compreendem que o mundo espiritual não obedece a calendários humanos. A atuação dos guias, dos Orixás e das falanges espirituais ocorre continuamente, independentemente da Quaresma.
A importância dos cuidados espirituais nesse período
Mesmo não sendo um fundamento da Umbanda, falar em cuidados espirituais durante a Quaresma não é errado desde que isso seja feito com consciência e sem medo.
O que acontece, na prática, é que esse período coincide com momentos de maior introspecção coletiva, emoções afloradas, culpas, conflitos internos e desequilíbrios energéticos. E onde há desequilíbrio emocional e espiritual, há brechas energéticas.
Por isso, muitos dirigentes orientam:
maior atenção ao equilíbrio emocional,
cuidado com excessos (álcool, conflitos, pensamentos negativos),
fortalecimento da fé,
firmeza espiritual com responsabilidade, e não por medo.
Na Umbanda, o cuidado espiritual não é sazonal. Ele deve existir o ano inteiro. Mas esse período pode, sim, ser visto como um convite à disciplina espiritual, à reforma íntima e ao alinhamento com o bem valores que a Umbanda sempre ensinou, com ou sem Quaresma.
Umbanda não trabalha pelo medo, mas pela consciência
É fundamental deixar claro:
Umbanda não ensina que a Quaresma é um tempo perigoso por si só, nem que Exus “f**am soltos” ou que o mal domina esse período. Isso são leituras distorcidas, muitas vezes reforçadas pelo medo e pela desinformação.
Na Umbanda, Exu é guardião, é lei, é ordem, e não age conforme datas cristãs. Os Orixás não se afastam em nenhum período. A espiritualidade trabalha de forma contínua, justa e organizada.
-Terreiro de Umbanda Aldeia do caboclo Ubirajara.