12/11/2025
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A história de um romeiro
- João de Freitas Sampaio –
(Jango Perna) 70 ROMARIAS
Poeta, compositor, artesão; João de Freitas Sampaio nasceu em Arraial Ventura, bairro rural da cidade de Capão Bonito há setenta e três anos (05/06/1944), e aos seis anos de idade veio na garupa de um cavalo, com seu avô, pela primeira vez à nossa cidade. Capão Bonito, dista 205 km de Iguape; foi uma grande aventura para um guri de sitio, e uma fascinante viagem no tempo, para todos nós, saber da sua história de vida.
Há 67 anos todas as estradas do Vale do Ribeira eram de barro, a rodovia Regis Bitencourt não existia, os carros eram poucos, carroças eram comuns para longas viagens. Os antigos romeiros eram gente corajosa; dormiam em barrancas de rio, embaixo de pontes, em taperas abandonadas. Traziam consigo todas as tralhas de primeira necessidade; víveres, panelas, caldeirão, pratos, talheres, lenha e esteira para dormir.
Não existiam pontes sobre o Rio Ribeira, e as três balsas pelas quais vadeavam o rio (Uma em Sete Barras e duas em Iguape), só faziam a travessia até às 18 horas; andavam a pé cerca de 40 km por dia, com algumas pausas para pequeno descanso. Cinco dias de viagem; na primeira noite pernoitavam no Bairro do Braz nas vizinhanças de Capão Bonito, na beira de um barranco. Na segunda noite, debaixo de uma ponte no Parque Estadual Carlos Botelho, na Serra da Macaca, em plena mata nativa e cercados por animais selvagens. Na terceira noite dormiam em Sete Barras, a margem do Rio Ribeira. Na quarta noite estavam em Pariquéra-açu e repousam no reservado de um bar. Na quinta noite chegavam à Iguape, dormiam no bairro do Rocio na orla do Valo Grande, pois a balsa parava as 18 horas.
No sexto dia de viagem se hospedavam na Casa do Santo; época de chuvas, lamaçal... Tomavam banho na Fonte do Senhor, aproveitavam para retirar lascas da “pedra que cresce”, um santo remédio para todas as doenças. A Fonte fechava seus portões às 17 horas, tinha uma onça rondando por lá, era o que dizia o vigia do local.
A primeira devoção era com o Bom Jesus; três horas na fila para beijar o pé da imagem. A subida do Morro do Espia era um passeio obrigatório; escada escavada na terra, escorregadia, muitos tombos, mas o panorama compensava; do alto se avistava toda a cidade, o lagamar, o Valo Grande, o mar....
Quinhentos Réis para atravessar o Mar Pequeno de canoa, caminho de muita lama, areão, três quilômetros até a praia, apenas uma casa onde hoje é o Posto de Bombeiros, voltavam antes das 17 horas, pois ao anoitecer muitos bichos do mar apareciam na beira da praia, era o que informavam.
O tempo passou, em 1977 João de Freitas Sampaio casou com Tereza, vieram os seis filhos e depois os oito netos; em 70 romarias do “Grupo de Romeiros do Bom Jesus Tradição e Fé”, Jango Perna, como é conhecido Seu João de Freitas Sampaio tem de cor e salteado o caminho entre Capão Bonito e Iguape; - 585 curvas – 26 pontes de concreto – 3 pontes de madeira – 25 riachos – 3 cachoeiras na beira da estrada – 4 bicas de água cristalina – 15 igrejas católicas – 33 km de Mata Atlântica contínua – 3 vilas (Ibaitinga/Barra do Ribeirão/Subauma) – 3 cidades (Sete Barras/Registro/Pariquéra).
As romarias atuais são diferentes; nada de mochila nas costas, ninguém carrega peso, um ou mais carros de apoio acompanham o grupo, e dentro deles; fogão a gás, mesas, cadeiras, colchão, cozinha completa, mantimentos armazenados em freezer, água para beber, banho quente.
O prazer da romaria é o mesmo de antigamente; calos nos pés, canseira, risos, tombos, muitas histórias para contar. Seu Jango Perna nunca esqueceu a tarde em que esteve frente a frente com uma onça parda, foi no ano de 2006... Bem! Na verdade não ficou assim fuça a fuça com a onça, o bicho estava há uns bons trinta metro de distância; qual o problema? Onça é onça.
Obrigado por sua história Seu Jango; volte sempre, pois o Bom Jesus e a cidade de Iguape estarão à sua espera.
Gastão Ferreira/2017