30/03/2026
Oswaldo de Castro relembra um caso incrível que aconteceu com um colega de profissão, o cardiologista doutor Elias Boainain. Antes de mergulhar na narrativa, Oswaldo faz questão de frisar um detalhe fundamental: na época, Elias não era espírita e não conhecia absolutamente nada sobre a doutrina.
A família de Elias era de Ribeirão Preto, no interior paulista. Foi lá que ele se formou em Medicina antes de se mudar e fixar residência na capital do estado. Certa vez, o médico tirou férias e decidiu viajar de São Paulo para visitar os familiares. O plano era simples e direto: chegar a Ribeirão Preto e ir para casa.
No entanto, assim que desembarcou na rodoviária de Ribeirão Preto, Elias notou que um outro ônibus estava prestes a partir, desta vez com destino a Uberaba, em Minas Gerais. Sem conseguir explicar o motivo, um pensamento cruzou sua mente. Ele refletiu por alguns instantes e tomou uma decisão de sopetão: decidiu embarcar naquele ônibus para Uberaba só para conhecer o famoso médium Chico Xavier, deixando a visita à família para depois.
Ao chegar a Uberaba, o sol já estava se pondo. Elias não conhecia ninguém na cidade. Ele começou a caminhar sem rumo pelas ruas, questionando a própria sanidade. Pensava consigo mesmo que aquela decisão havia sido estapafúrdia e se perguntava repetidamente o que diabos tinha ido fazer ali, tão de repente, em vez de ter ficado em Ribeirão Preto com a família, como havia planejado.
Ele andou até encontrar uma praça, que identificou como Ruy Barbosa, e pegou um táxi. Pediu ao motorista que o levasse até Chico Xavier. O taxista, muito prestativo e já acostumado com aquele tipo de pedido, prontificou-se a deixá-lo exatamente no centro espírita onde o médium costumava atender.
Durante o trajeto, as dúvidas continuavam a atormentar o médico. Por que não fiquei em Ribeirão Preto?, ele se cobrava.
Elias chegou ao centro espírita no exato momento em que a reunião da noite estava para começar. O salão estava lotado. Ele esticou o pescoço tentando encontrar algum rosto conhecido no meio da multidão que se acotovelava para ver Chico, mas não reconheceu ninguém. Ele observou o médium de longe, impressionado com a paciência, a alegria e a serenidade com que Chico atendia a cada uma das pessoas que o procuravam. Elias pensou que já tinha visto muita gente caridosa na vida, mas aquele homem era, de fato, diferente.
Eram oito horas da noite quando Dalva, a dirigente dos trabalhos, tomou a palavra para iniciar a sessão. Ela começou a ler uma lista de nomes das pessoas que haviam sido convidadas para compor a mesa principal. Chamou várias pessoas, incluindo Rolando e Caio Ramacciotti. Ao final da lista, ela anunciou:
— E o Dr. Elias...
No meio do público, o cardiologista ouviu o próprio nome, mas não deu a menor importância. Pensou tratar-se de algum advogado, algum outro médico ou apenas um xará. Ninguém, porém, se levantou. Dalva chamou pelo Dr. Elias uma segunda e uma terceira vez, e a cadeira continuou vazia.
Já sentindo um leve frio na espinha e achando a situação no mínimo estranha, Elias pediu a um garoto que estava ao seu lado para ir até a frente e perguntar à senhora Dalva qual era o sobrenome completo daquele doutor que ela tanto chamava.
Dalva olhou para as suas anotações e tentou ler o sobrenome difícil. Ela tropeçou nas sílabas, disse "Boain", depois "Boanin", até que finalmente conseguiu pronunciar corretamente: "Boainain".
O médico ficou paralisado. Sem saber o que dizer ou como reagir, caminhou em silêncio até a frente e sentou-se na cadeira que lhe havia sido reservada na mesa. Ele estava assustado. Não conhecia nada de espiritismo e, mais uma vez, a voz em sua cabeça gritava: Por que não fiquei em Ribeirão Preto!
Terminada a parte doutrinária da noite, Elias viu que estava sentado ao lado de Caio Ramacciotti. Ele puxou assunto, identificou-se como cardiologista e confessou que não conhecia absolutamente ninguém naquela cidade. Caio revelou que também era médico e sugeriu que Elias procurasse Waldo Vieira, outro colega de profissão, ali perto, na área do cafezinho, para tentar entender a situação.
Elias encontrou Waldo, apresentou-se e foi direto ao ponto:
— Quem deu o meu nome para compor a mesa?
Waldo respondeu com a maior naturalidade:
— Foram os espíritos.
A resposta não agradou nem um pouco ao cardiologista. Ele pensou que aquele homem só podia ser louco e decidiu encerrar a conversa ali mesmo. Saiu de perto de Waldo e foi procurar o próprio Chico Xavier no meio da multidão, em busca de uma explicação mais racional.
A surpresa final, porém, o desarmou completamente. Antes mesmo que Elias pudesse se aproximar, Chico virou-se espontaneamente na direção dele, abriu um sorriso acolhedor e exclamou:
— Dr. Elias! Nós estávamos esperando o senhor aqui!
O médico, totalmente confuso, perguntou a mesma coisa que havia perguntado a Waldo:
— Mas, quem lhe deu o meu nome?
Ainda sorrindo, Chico deu a mesma resposta:
— Nossos amigos espirituais!
Diante daquela prova irrefutável de que havia algo muito além da compreensão humana acontecendo ali, o Dr. Elias finalmente entregou os pontos. Profundamente emocionado com a experiência, ele começou a estudar o espiritismo. Tempos depois, tornou-se espírita convicto e passou a integrar o importante grupo de materialização que Oswaldo de Castro descreve em seus relatos.
Para Oswaldo, o episódio deixou uma lição muito clara: a "ideia estapafúrdia" de Elias não foi fruto do acaso. Naquele momento, na rodoviária de Ribeirão Preto, o médico havia sido fortemente intuído por benfeitores espirituais a entrar naquele ônibus e seguir para Uberaba, porque já estava nos planos do Alto que o encontro dele com Chico Xavier mudaria o rumo de sua vida para sempre.