02/02/2023
O Profeta
Com o espírito sedento eu me arrastava
Pelo plano de um deserto inabitável, —
Com seis asas revoando um serafim
Na encruzilhada veio a mim;
Com o dedo ele tocou minhas pupilas
Como em sonho, sem feri-las:
Dilataram-se pupilas mais pressagas,
Como os olhos assustados de uma águia.
Então tocou os meus ouvidos
Que se encheram de clamores e ruído:
Ouvi os céus como estremecem,
O vôo dos anjos no alto celeste,
Ouvi nos mares criaturas que se esgueiram
E no vale farfalharem os salgueiros.
Arrancou-me desta boca
Minha língua pecadora,
Tão ladina e displicente,
E no ensangüentado oco
Com a destra colocou
A sábia presa da serpente.
Com a espada me cortou o peito antes
De arrancar meu coração palpitante
E um carvão incandescente aí meteu
Que me abrasou o peito aberto
E eu, cadáver, estirado no deserto
Ouvi clamar a voz de Deus:
“Profeta, avante, ouve e vê,
Percorre terras e oceanos,
Com teu verbo flamejante faz arder
Os corações humanos”.
Aleksandr Pushkin