04/06/2023
Da fusão da palavra bó, que em iorubá signif**a oferenda, com ori, que quer dizer cabeça, surge o termo bori, que literalmente traduzido signif**a “ Oferenda à Cabeça”, princípio da individuakidade.
Do ponto de vista da interpretação do ritual, pode-se afirmar que o bori é uma introdução.
Nunca foi uma iniciação à religião, Candomblé.
Na realidade, nenhum noviço pode passar pelos rituais de raspagem, ou seja, o bori precede aos atos iniciáticos, mas não se constituí na iniciação por si.
O bori pode perfeitamente ser realizado como ritual isolado, único, para abiãns e clientes, mas todo lésè Òòrísá obrigatoriamente passará por ele antes de qualquer etapa de sua jornada religiosa no Candomblé ketu.
Bori no Candomblé ketu não torna ninguém 'filho de ninguém', já que sua realização não se constitui em iniciação.
Não se assenta Òòrísá, exatamente pelo fato de não se tratar de ritual iniciático e, isso vale como regra sim para o Candomblé ketu, mesmo que se faça argumentações em contrário.
No bori não é o momento do Òòrísá mas do indivíduo, a manifestação daquele, nem deve acontecer, salvo quando for o Òòrísá individual for louvado ao final.
O bori é dado à pessoa e não ao Òòrísá.
Isso por quê ...
Cada pessoa, antes de nascer escolhe o seu ori, o seu princípio individual, a sua cabeça.
Bori é um ritual que harmoniza ori individual, sério, complexo e profundo.
Por exemplo, o recolhimento para a realização do bori se dá para evitar principalmente que a sombra do oficiado seja pisada.
Ori é o "Deus" portador da individualidade de cada ser humano.
Representa o mais íntimo de cada um, o inconsciente, o próprio sopro de vida em sua particularização para cada pessoa.
Ori mora dentro das cabeças humanas, tornando cada um aquilo que é.
Ori é um Òòrísá mas não o de carrego de cada indivíduo.
Este Òòrísá/Orí tem características estéticas pois não incorpora.
Apenas é cultuado juntamente com os Òòrísás, possuindo um número no jogo de búzios onde “fala”.
A quizila de Ori é a mentira.
Durante o processo iniciático a primeira entidade a ser equilibrada é justamente o Ori, a individualidade pessoal, para que a pessoa não se transforme num mero espelho do Òòrísá.
Um dos mitos sobre Ori diz que ele pode depois de enterrado, voltar ao Orun, levado por Nanã ou Ewá.
Diz este mito que um dia Ori percebeu que era o momento de nascer outra vez e foi falar com Olorum, o Universo, solicitando permissão para nascer na mesma família em que havia nascido antes.
Olorun permitiu, com a condição de que apenas ele, pudesse conhecer o dia de sua morte, sem que Ori pudesse opinar sobre esta questão e que o destino de Ori só pudesse ser mudado quando Ifá fosse consultado.
Orí revela que cada ser humano é único, tendo escolhido suas próprias potencialidades.
Odu é o caminho pelo qual se chega à plena realização de orí, portanto não se pode cobiçar as conquistas do outro.
Cada um, como ensina Orunmilá – Ifá, deve ser grande em seu próprio caminho, pois, embora se escolha o ori antes de nascer na Terra, os caminhos vão sendo traçados ao longo da vida.
Esú , por exemplo, nos mostra a encruzilhada, ou seja, revela que temos vários caminhos a escolher.
Ponderar e escolher a trajetória mais adequada é tarefa que cabe a cada ori, por isso o equilíbrio e a clareza são fundamentais na hora da decisão e é por meio do bori que tudo é adquirido.
Os mais antigos souberam que Ajalá é o Òòrísá funfun responsável pela criação de ori.
Dessa forma, ensinaram-nos que Òòsàálá sempre deve ser evocado na cerimônia de bori.
Yemonja é a mãe da individualidade e por essa razão está diretamente relacionada a orí, sendo imprescindível a sua participação no ritual.
A própria cabeça é síntese de caminhos entrecruzados.
A individualidade e a iniciação (que são únicas e acabem, muitas vezes, se configurando como sinônimos) começam no ori, que ao mesmo tempo aponta para as seguintes direções:
OBI ORI - A TESTA
OBI OKAN - O CORAÇÃO
OPA OTUM - MÃO DIREITA
OPA OSSI - MÃO ESQUERDA
ESE OTUM - PÉ DIREITO
ESE OSSI - PÉ ESQUERDO
Da mesma forma, a Terra também é dividida em quatro pontos: norte, sul, leste e oeste; o centro é a referência , logo toda pessoa deve se colocar como o centro do mundo, tendo à sua volta os pontos cardeais: os caminhos a escolher e seguir.
A cabeça é uma síntese do mundo, com todas as possibilidades e contradições.
Na África, ori é considerado um deus, aliás, o primeiro que deve ser cultuado, mas é também, junto com o sopro da vida (emi) e o organismo (ese), um conceito fundamental para compreender os ritos relacionados a vida, como axexê (asesé).
Mas será sempre abian aquele que não se submeter aos rituais de iniciação completo.
Nota-se a importância desses elementos, sobretudo o ori, pelos orikíns, com que são evocados:
O bori prepara a cabeça para que o Òòrísá possa manifestar-se oportunamente plenamente.
Há um provérbio nagô que diz: Orí buru kó si Òòrísá.
É o bori que torna a cabeça ruim não ter Òòrísá.
É o bori que torna a cabeça boa.
Entre as oferendas que são feitas ao ori algumas merecem menção especial.
É o caso da galinha d’angola, chamada nos candomblés de etú ou konkém, que é o maior símbolo de individuação e representa a própria iniciação.
A etu é adoxu (adosú), ou seja, é feita nos mistérios do Òòrísá.
A etu só é oferecida ao iniciado após este ter completado seus sete ajos (odu ijé) e arriado obrigação. Não se,pode dar adoxú à quem não o posssui.
Ela já nasce com adosú, por isso relaciona–se com começo e fim, com a vida e a morte, por isso está no bori( para aqueles que já tem e pagaram ou arriaram o Odú ijé) e no axexê.
O peixe representa as potencialidades, pois a imensidão do oceano é a sua casa e a liberdade o seu próprio caminho( observar as restrições desse sacrifício aos omo Òòrísá Yemonjá ).
As comidas brancas, principalmente os grãos, evocam fertilidade e fartura.
Flores, que aguardam a germinação, e frutas, os produtos da flor germinação, simbolizam fartura e riqueza.
O pombo branco é o maior símbolo do poder criador, portanto não pode faltar( observar as restrições desse sacrifício aos omo Òòrísá de Òsún).
A noz cola, isto é, o obi é sempre o primeiro alimento oferecido a ori; é a boa semente que se planta-se e espera–se que dê bons frutos.
Obí é o fruto da vida.
Nota para o orogbô que substitui o obi, aos interditos.
Entre outros elementos e comidas.
Todos os elementos que constituem a oferenda à cabeça exprimem desejos comuns a todas as pessoas: paz, tranqüilidade, saúde, prosperidade, riqueza, boa sorte, amor, longevidade, mas cabe ao ori de cada um eleger prioridades e, uma vez cultuado como se deve, proporciona-las aos seus filhos.
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