06/06/2024
# # # O Machado de São Bonifácio e a Virtude da Discrição # # #
Por Dr. Peter Johnston, traduzido de Anglican Compass
São Bonifácio, bispo inglês do século VII, missionário na Alemanha e mártir, foi um mestre da discrição. Guiado pelas Escrituras e pelo Espírito Santo, ele sabia a importância de escolher a ação certa no momento certo. Bonifácio sabia quando empunhar o machado e quando colocá-lo de lado.
# A Discrição do Professor #
Nascido com o nome anglo-saxão Wynfrid na Inglaterra Ocidental por volta de 675 d.C., Bonifácio soube desde cedo que Deus o chamava para uma vida monástica de aprendizado, ensino e ministério do evangelho. Ele se destacou como estudante, professor e autor, compondo tratados sobre gramática e versos, além de sua própria coleção de enigmas.
Formado pelas escrituras sagradas e pelas artes liberais, ele guiava seus alunos com discrição, adaptando seu ensino às necessidades particulares de cada um. Willibald, escrevendo pouco depois da morte de Bonifácio, descreve o caráter de seu ensino:
“Sua discrição era tal que suas repreensões, embora afiadas, nunca faltavam em gentileza, enquanto seu ensino, embora suave, nunca carecia de força. Zelo e vigor o tornavam enérgico, mas gentileza e amor o tornavam suave.” (Vida de Bonifácio, 1)
Bonifácio parecia levar a sério a instrução de Paulo a Timóteo:
“Pregue a palavra; esteja preparado a tempo e fora de tempo; repreenda, corrija e exorte com toda a paciência e ensino... esteja sempre atento, suporte o sofrimento, faça o trabalho de um evangelista, cumpra seu ministério.” (2 Timóteo 4:2, 5)
# A Discrição do Evangelista #
Na casa dos 40 anos, por volta de 717 d.C., Bonifácio abraçou o chamado para a evangelização, lançando uma missão na Alemanha. De certo modo, foi uma mudança surpreendente de ministério ao deixar a Inglaterra, abandonando bons amigos e uma boa reputação.
Mas vemos a discrição de Bonifácio ao discernir um chamado para os alemães. Sendo anglicano (significando que ele era da Igreja Histórica Inglesa), ele estava particularmente apto para a tarefa. Os povos germânicos eram considerados inimigos dos romanos e daqueles próximos ao centro do Império Romano. Eles haviam saqueado Roma e, por séculos, resistiram ao domínio romano. Mas Bonifácio percebeu que os pagãos alemães não eram tão diferentes de seu próprio povo.
O historiador Tom Holland explica:
“Para os monges anglo-saxões, a escuridão pagã que pairava sobre as regiões orientais da Alemanha, do Mar do Norte até as grandes florestas do interior, não falava de uma selvageria invencível, mas de uma necessidade premente de luz. Todo o mundo era deles para iluminar com o brilho de Cristo.” (Domínio, 203)
Bonifácio sabia que seria necessário um esforço determinado para alcançar as tribos germânicas para Cristo. No início, ele não teve sucesso e retornou para a Inglaterra. Após um ano de descanso e oração, Bonifácio sentiu o chamado novamente. Ele buscou e recebeu a bênção do Papa, que nesse momento mudou seu nome de Wynfrid para Bonifácio, e então retornou à Alemanha por volta de 722 d.C.
# A Discrição do Iconoclasta #
Foi durante essa segunda jornada missionária que Bonifácio empunhou seu famoso machado. Na maioria das vezes, a discrição é a melhor parte da bravura, como diz o ditado. Mas em raras ocasiões, a bravura é a consequência da discrição.
Bonifácio foi a Geismar, ao Carvalho de Donar, também chamado de Carvalho de Thor. Essa árvore era um local sagrado para o povo saxão pagão, onde adoravam e faziam sacrifícios, às vezes de animais e às vezes até de pessoas. Bonifácio pegou seu machado e cortou o carvalho na frente de uma grande multidão. Segundo Willibald, Bonifácio fez o primeiro corte, e então o Senhor completou a tarefa:
“Tomando coragem (pois uma grande multidão de pagãos estava assistindo e amaldiçoando amargamente em seus corações o inimigo dos deuses), ele fez o primeiro corte. Mas quando ele fez um corte superficial, de repente, a enorme massa do carvalho, sacudida por uma poderosa rajada de vento de cima, caiu ao chão, quebrando seus ramos superiores em fragmentos em sua queda.” (Vida de Bonifácio, 6)
Para a mente moderna, tal iconoclastia seria uma violação repreensível da tolerância e do pluralismo religioso. E deve ter sido profundamente ofensivo para muitos saxões pagãos na época. Mas, como Jesus derrubando as mesas no Templo, Bonifácio sabia o risco que corria. Ele certamente despertaria raiva, mas em sua discrição, acreditava que o Senhor o justificaria. Segundo Willibald, ele foi:
“À vista deste espetáculo extraordinário, os pagãos que estavam amaldiçoando cessaram de difamar e começaram, ao contrário, a crer e a abençoar o Senhor.” (Vida de Bonifácio, 6)
# A Discrição do Bispo #
Nas três décadas seguintes, Bonifácio trabalhou como bispo nas terras alemãs. Ele construiu uma capela com a madeira do Carvalho de Donar, coordenou um crescente grupo de missionários vindos da Inglaterra, organizou amplos esforços de educação nas escrituras e nas artes liberais, e continuamente trabalhou para reformar as igrejas sob seu cuidado, eliminando o sincretismo pagão. Nas palavras de Tom Holland, ele era “rigoroso, espinhoso e exigente” (Domínio, 206).
Bonifácio também era astuto nas questões mundanas, usando a discrição para formar alianças com líderes políticos. Um de seus principais aliados foi Carlos Martel, avô de Carlos Magno. Como Thomas Cranmer sob Henrique VIII, Bonifácio percebeu que a reforma religiosa exige atenção ao contexto político. Nisso, Bonifácio refletiu o ensino de Cristo, que disse a seus discípulos:
“Eis que vos envio como ovelhas no meio de lobos; portanto, sede prudentes como as serpentes e simples como as pombas. Cuidado com os homens, pois eles os entregarão aos tribunais e os açoitarão nas sinagogas, e vocês serão levados à presença de governadores e reis por minha causa, para testemunharem a eles e aos gentios.” (Mateus 10:16-18)
# A Discrição do Mártir #
Em 754, já próximo de completar 80 anos, Bonifácio teve uma premonição de sua morte. Ele não sabia como ela ocorreria.
Bonifácio estava em uma jornada missionária na Frísia, no norte da Alemanha. Ele marcou um dia para que todos os convertidos se reunissem em seu acampamento perto do rio Bordne para confirmar seus votos batismais. Naquela manhã, um grupo de homens estranhos chegou em barcos pelo rio e começou a se aproximar do acampamento. Quando ficou claro que esses homens estavam armados, alguns dos assistentes de Bonifácio pegaram em armas.
Mas Bonifácio discerniu que seu tempo havia chegado, e em sua discrição, ele abandonou o caminho do machado. Willibald descreve o momento dramático:
“O homem de Deus, ouvindo os gritos e a investida da multidão, imediatamente chamou o clero ao seu lado e, reunindo as relíquias dos santos, que sempre carregava consigo, saiu de sua tenda. Ele repreendeu os assistentes e os proibiu de continuar a luta, dizendo: ‘Filhos, parem de lutar. Larguem suas armas, pois somos instruídos nas Escrituras a não retribuir o mal com o mal, mas a vencer o mal com o bem.’” (Vida de Bonifácio, 8; cf. Romanos 12:17-21)
Bonifácio e seus companheiros foram martirizados. Mais tarde, os corpos foram levados e enterrados no mosteiro e na catedral de Fulda. Alguns dos pertences de Bonifácio também foram recuperados, incluindo um livro chamado Codex Ragyndryudis, cuja encadernação original ainda carrega as marcas de um machado ou espada. Uma biografia posterior afirma que Bonifácio ergueu o códice como um escudo antes de ser abatido.
# Aprendendo com a Discrição de Bonifácio #
O exemplo de Bonifácio aponta para a necessidade de discrição na vida cristã. Há momentos para gentileza e compaixão e momentos para firmeza e repreensão. Em Cristo, porém, todas essas qualidades estão unidas. O Jesus que falou com a mulher no poço é o mesmo Jesus que purificou o templo. Assim, Jesus não era gentil sem verdade, nem exigente sem compaixão.
Como cristãos, nenhum de nós pode capturar completamente a amplitude do caráter de Jesus. Em muitos aspectos, é por isso que precisamos da igreja, as muitas partes do corpo de Cristo, cada uma refletindo com particular brilho um de seus carismas.
À medida que crescemos em nosso discipulado, como Bonifácio, nos tornamos mais parecidos com Cristo
Crescemos em discrição e discernimento, entendendo a aplicação cotidiana da vontade de Deus. Aprendemos quando empunhar o machado e quando colocá-lo de lado.
Aqui estão as palavras finais de Bonifácio, que se baseiam no ensino de Jesus:
“Irmãos, sejam corajosos, não temam aqueles que matam o corpo, pois eles não podem matar a alma, que continua a viver para sempre. Alegrem-se no Senhor; ancorem sua esperança em Deus, pois sem demora Ele lhes dará a recompensa da bem-aventurança eterna e lhes concederá uma morada com os anjos em Seu céu. Não sejam escravos dos prazeres transitórios deste mundo. Não se deixem seduzir pelas vaidades dos pagãos, mas suportem com mente firme o súbito ataque da morte, para que possam reinar para sempre com Cristo.” (Vida de Bonifácio, 8; cf. Mateus 10:28)