20/11/2019
Hoje, dia da consciência negra, pensei em algo que fosse válido de compartilhar. Então cheguei à conclusão de que valeria a tentativa de ajudar os amigos brancos a entender o que significa a ideia de "branquitude".
Entender o significado da branquitude é o primeiro passo para poder caminhar em direção a uma consciência e uma prática mais cientes dos nossos privilégios, das nossas responsabilidades e dos nossos espaços. É um primeiro passo para buscar uma postura anti-racista efetiva no seu convívio social enquanto uma pessoa de pele branca.
A branquitude é um fenômeno complexo que nasce das teorias eugenistas de séculos atrás. Ela vem de uma falsa ciência que trabalhou para induzir que a diferença de cor da pele e de origem significa uma diferença de capacidade.
Nosso sistema intelectual, cultural, político e social passou a ser desenhado a partir da ideia de que o ser humano de pele branca detém direitos e qualidades naturais que os de pele não-branca não poderiam ter.
O sufixo do termo branquitude designa a ideia de que é um estado, uma qualidade ou uma instância do ser. A branquitude é um lugar estrutural de onde o sujeito branco vê os outros e a si mesmo.
A identidade racial branca é um lugar de privilégios simbólicos, subjetivos e materiais que colaboram para reprodução do preconceito racial. Considerar o branco como único sinônimo do ser humano, ou ser humano ‘ideal’, é uma das características marcantes da branquitude em nossa sociedade.
A branquitude está na facilidade com que um branco entra e sai de estabelecimentos comerciais sem ser barrado por qualquer motivo, pois é branco. Está na conhecida propensão a ser liberado de uma batida policial ou de um delito cometido somente por ser branco. Está na diferença entre “usuário” e “traficante” quando se é detido com um baseado pela polícia.
A branquitude é toda essa roupa de privilégios que nos veste e que foi tecida cuidadosamente através dos séculos com ideias, teorias, políticas e práticas sociais.
A branquitude é a preferência em uma entrevista de emprego pois seu cabelo “é bom”. É a iemanjá na imagem de nossa senhora, com cabelos escorridos e quase translúcida de tão clara - tão diferente daquela nascida em Abeokuta.
A branquitude é um terreiro que divide suas tarefas internas seguindo a diferença da cor da pele de seus filhos.A branquitude é a tranquilidade de saber que sempre haverá uma oportunidade, uma desculpa ou uma vantagem por ter nascido com a pele clara, mesmo que sua ascendência não seja totalmente branca.
A branquitude é um umbandista ou candomblecista que pode usar seus fios de conta na rua pois receberá, no máximo, olhares tortos - mas nunca um apedrejamento. A branquitude é a demonização dos orixás e a vista grossa com os vícios dos cristãos, que roubam dos seus.
A branquitude é uma condição a ser derrotada, desconstruída, superada. A construção da democracia no Brasil depende disso. Uma convivência social saudável depende disso. A reparação por séculos de tortura, violência e marginalização da negritude depende disso.
A branquitude já atingiu o inconsciente da coletividade e parece uma barreira intransponível de tão enraizada que é. Mas reconhecê-la e identificar suas operações na nossa vida é um primeiro passo a ser dado.
O passo seguinte é combater esses vícios e apoiar as pautas dos movimentos sociais de quem historicamente sofreu com a branquitude: negros, indígenas, candomblecistas, quilombolas e tantos outros.
Isso é o mínimo a ser feito por nós.
CARDOSO, Lourenço. Brancura e branquitude: ausências, presenças e emergências de um campo de debate. Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade Federal de Santa Catarina. Florianópolis: UFSC, 2017.
FRANKENBERG, Ruth. White women, race masters: The social construction of whiteness. Minneapolis: University of Minnesota, 1999.