03/03/2017
COMO FUNCIONA UMA ANÁLISE
Jacques-Alain Miller diz que o psicanalista introduz na fala do paciente uma interrogação, mostrando que não compreende o paciente só por simpatia, e que ele mesmo não se entende. Esse “susto”, essa quebra na imagem narcísica de que somos donos do que falamos e fazemos, é um passo fundamental para introduzir alguém em uma análise: abre-se um hiato entre o paciente e a sua fala, causando um estranhamento. Essa cisão marca o início de uma compreensão, por parte do analisando, de que existem coisas que o ultrapassam (coisas que desconhece sobre si mesmo), mas que o determinam - e determinam suas atitudes e escolhas. Eis aí o início de uma introdução ao inconsciente, este obscuro lugar que Freud descobriu nos controlar.
Uma fala pode significar muitas coisas, mas “não há uma só frase, um só discurso, uma única conversa, que não traga a marca da posição do sujeito quanto ao que ele diz”*. É a prevalência dessa posição subjetiva sobre sua fala que o analista vai mostrar ao paciente, para que ele se aproxime de saber o que diz no momento em que fala.
Sem me alongar em questões muito técnicas das quais não possuo domínio, posso dizer que o discurso do neurótico (somos todos nós “normais”) basicamente se dá em três tempos: dizer, negar o que se disse e negar esta negação. Basicamente nós, neuróticos, não podemos aceitar o nosso desejo sem negá-lo! A análise nos dá a chance de entrar em contato com essa verdade que nos determina... Lá podemos aprender que “dizer uma vez é uma coisa, repetir é outra, e muito perigosa”*.
São essas coisas que as entrevistas iniciais vão mostrar a quem quer fazer análise. De início, o futuro analisando perceberá que é infrutífero esperar “tapinhas nas costas” vindos do analista, que marcará sua posição não participando emocionalmente (empaticamente) das dores do paciente. Por isso a análise é tão dolorida, porque obriga a pessoa a se responsabilizar pelo que diz, fazendo com que progressivamente pare de se queixar dos outros e passe a queixar-se de si . Isso é o que Lacan chamou de RETIFICAÇÃO SUBJETIVA.
Curioso paradoxo é o fato de que justamente o que torna a análise “tão dura” é o que também pode provocar alívio: a certeza de que naquele consultório existe alguém que não compreende antecipadamente o paciente, mas que é “todo ouvidos” para escutar o que ele diz. Um lugar onde, pela primeira vez na vida (como diz Jorge Forbes), o paciente fala de sua dor de cabeça e o analista vai perguntar como é a SUA dor de cabeça....ao invés de dizer “EU TAMBÉM tenho dor de cabeça, sei como é”... O analista é esse ser que não nos compreende a priori, e sai de cena para que nós (analisantes) possamos nos haver com os nossos sintomas e fantasmas...
Lugar muito bonito e que emociona, esse vazio! A certeza de que ali existe um Outro que vai realmente lhe ouvir em sua especificidade. É por essa postura ética que amo a Psicanálise! A beleza está em justamente o analista poder ser esse vazio, emprestando a si próprio para que o paciente teça sobre ele suas representações: ficando no lugar de um “nada” para que o analisando possa ‘vir a ser’. Não é qualquer posição! É uma posição que concerne à ética da psicanálise.
Pois bem, quando o paciente passa a queixar-se de si, curiosamente a análise pode então começar. Como dizia Carl Rogers: “Curioso paradoxo: quando me aceito como sou (interpreto assim: quando me conheço e aceito minhas responsabilidades pelo que faço e digo), posso então mudar!”. Nada menos necessário para o começo de uma análise!
As entrevistas preliminares servem, então, para reformular a demanda da pessoa que pede pra fazer análise. O analista guia esse processo e conduz o sujeito para um encontro com seu inconsciente: “leva-o ao questionamento de seu desejo e do que pretende dizer quando fala”*. Ao final das entrevistas preliminares (e início da análise) deve haver uma efetiva mudança de posição subjetiva, quando o paciente abandona a posição de mestre e aceita com humildade que muito pouco sabe sobre o seu desejo. Assim pode emergir um sujeito do inconsciente, que “não é um dado, mas uma descontinuidade dos dados”*. É preciso ter humildade para enxergar que algo na conta dos nossos sonhos, desejos e escolhas não se encaixam, e os sintomas nos obrigam a ver isto! Por isso eles são preciosos à análise, e ela não visa - a priori - acabar com eles.
Existe um texto em que Contardo Calligaris diz que para ser um bom terapeuta é necessário ter vivido uma boa dose de sofrimento. Às vezes eu penso que pra resistir à análise também. O que possui tamanha relevância a ponto de compensar atravessar tão sinuoso caminho? Talvez a angústia, reflito. Lembro-me do próprio Freud dizer que uma pessoa só devia fazer análise se outras coisas anteriores não lhe serviram.
Todos esses anos a análise tem me servido. Pode ser longa, pode ser angustiante, mas ainda acredito nela como um processo transformador. Lembro-me da psicose (à exemplo do caso Schreber) quando o surto determina o marco entre uma vida que se conheceu e um outro mundo que eclodiu. A análise talvez seja assim, um processo que nada tem de bom senso, que leva a questionar o mundo e o coloca em colapso - um desmoronamento necessário para que uma outra posição subjetiva possa emergir. Pode não parecer, mas este é um enorme presente, de proporções tão gigantescas que apenas pode ser dado à pessoa mais importante: aquela que a gente vê quando olha no espelho...
*frases de Jacques-Alain Miller, em "Lacan Elucidado"
(Texto de Carla da Conceição Mores Gastaldin, via Blá blá Bar da Psicanálise)