ORIGENS
A decisão de desenvolver um projeto de revitalização para a Ordem Rosacruz Juvenil – ORCJ – no âmbito da Grande Loja para Jurisdição de Língua Portuguesa foi tomada diante da constatação que o modelo de que se dispunha, até então, não se mostrava mais capaz de atrair os jovens. As afiliações vinham caindo progressivamente e a permanência daqueles que ingressavam não era consistente. Um tr
abalho de diagnóstico realizado como primeira etapa do projeto apontou as causas para tal declínio:
– Conteúdo com temas desatualizados ou de difícil compreensão, apresentados em linguagem pouco atrativa, disponível apenas no formato de monografias impressas e disposto em faixas etárias muito amplas (apenas três divisões).
– Vida ritualística muito pobre, resumida apenas ao Ritual de Convocação Ritualística, com mensagens pouco atrativas e desvalorizada por ser aberta a jovens e adultos não rosacruzes.
– Baixa atratividade no trabalho dos Organismos Afiliados, mmotivada pela inadequação de instalações e espaço, pouco preparo dos Coordenadores e falta de continuidade no trabalho entre as gestões. Embora os três fatores fossem decisivos para que o interesse do jovem pela ORCJ fosse reduzido, estava claro que os dois primeiros – conteúdo e rituais – deveriam ser considerados de maior prioridade. UMA ESCOLA PARA A VIDA
Desde o início dos trabalhos, a proposta que foi apresentada e aprovada pelo Grande Mestre, estabelecia que a nova Ordem Rosacruz Juvenil deveria ser, essencialmente, uma escola para a vida. Ela deveria estar voltada para formar pessoas íntegras, éticas, autônomas, dispostas a desenvolver seu potencial interior e trabalhar para a construção de uma realidade mais justa, fraterna, harmônica e solidária. Foi com este sentido que foi cunhada a seguinte declaração de Missão para a ORCJ:
Formar indivíduos capazes de assumir a condição de sujeitos autônomos, com plenas possibilidades de realizar todo o seu potencial individual e que nutram o sincero desejo de colocar este mesmo potencial desenvolvido a serviço de si e dos outros. Esta declaração deixava clara também uma posição importante: o objetivo maior é o de formar pessoas éticas e solidárias, atentas aos problemas da realidade atual e dispostas a trabalhar para enfrenta-los e resolvê-los. Se tais pessoas optarem por ingressar e permanecer na AMORC, teremos a situação ideal, contudo, se não o fizerem, mas mantiverem sua integridade e forem bons cidadãos, mulheres e homens de boa vontade, o objetivo da ORCJ terá também sido cumprido com fidelidade. A afiliação na AMORC é algo desejável, claro, mas não como o objetivo final da ORCJ como escola para a vida. Estabelecido este propósito, foi natural que o passo seguinte fosse escolher os fundamentos para a ORCJ funcionar como uma escola. Naturalmente, não fazia sentido buscar tais fundamentos em modelos já aplicados pelos sistemas oficiais de ensino, uma vez que além de duplicar esforços, tal opção representaria apenas prolongar uma condição sabidamente limitadora, já que a moderna educação oferecida pelo sistema escolar está mais preocupada em formar indivíduos produtivos, que funcionem da melhor forma possível em um sistema dominado pelas regras do mercado, do que sujeitos críticos, desejosos de corrigir as distorções que a lógica econômica faz dominar nos dias atuais. Na busca de um modelo a ser adotado para fazer da ORCJ uma escola, chegou-se ao projeto Educação para o Século XXI, desenvolvido no final do século passado, por uma comissão internacional constituída por pensadores e educadores, com patrocínio da UNESCO – órgão da ONU voltado para a educação. A Missão do projeto foi preparar uma nova proposta para a educação, um novo modelo capaz de enfrentar com êxito os desafios e tensões impostos por uma realidade totalmente nova, como esta em que vivemos no século XXI. As conclusões do trabalho desta comissão foram resumidas e publicadas em um livro de grande divulgação chamado Educação um Tesouro a Descobrir – Relatório para a UNESCO da Comissão Internacional sobre Educação para o Século XXI. Um dos primeiros conceitos expressos pela comissão neste relatório diz respeito à Missão da Educação:
“Cabe à educação a missão de fazer com que todos, sem exceção. Façam frutificar os seus talentos e potencialidades criativos, o que implica, por parte de cada um, a capacidade de se responsabilizar pela realização de seu projeto pessoal”.
É praticamente desnecessário destacar a sintonia que existe entre esta declaração e a missão da própria Ordem Rosacruz. Os estudos realizados pela Comissão apontaram no sentido de que um modelo eficaz e completo de educação deve estar assentado em quatro grandes pilares:
Aprender a Conhecer – Que significa conseguir conciliar cultura geral, suficientemente vasta, com a possibilidade de dominar profundamente um reduzido número de assuntos. Aprender a Fazer – Que significa ter condições de exercer vários papéis sociais e estar preparado para trabalhar em equipe. Aprender a Conviver – Que envolve conhecer e respeitar o outro, reconhecer a interdependência entre os indivíduos, respeitar a diversidade, saber trabalhar com conflitos e saber julgar. Aprender a Ser – Que envolve obter autonomia e discernimento, explorar todos os talentos pessoais e reconhecer a necessidade de conhecer e compreender melhor a si próprio. Pelo que acima foi dito, não é difícil constatar que escola de hoje se concentra em trabalhar nos dois primeiros pilares do modelo acima: aprender a conhecer e aprender a fazer. E quanto às outras duas dimensões, quem se ocupa dela? Historicamente, este espaço tem sido ocupado pela família que se valeu, em larga escala, de uma estrutura ética e de valores fornecidos pela religião, qualquer que esta seja. Durante muito tempo, foi assim que os quatro pilares acima foram mantidos. Ocorre, que desde a segunda metade do século passado, a situação vem se alterando rapidamente; pais e mães se acham cada vez mais envolvidos com o desempenho de seus papéis profissionais, os filhos têm uma agenda de compromissos cada vez mais intensa o que tem feito com que a convivência familiar, antes frequente, agora esteja, principalmente nos maiores centros urbanos, cada vez mais reduzida. Além disso, as religiões vêm perdendo força, rapidamente, deixando de ser a grande fornecedora de valores e de orientação moral para indivíduos e famílias. Ou seja, vivemos uma época em que há um vazio a respeito de quem deve e pode assumir a tarefa de ensinar aos indivíduos a aprender a ser e a aprender a conviver. A melhor resposta a esta questão parece ser: quem deve tomar a dianteira e suprir a esta lacuna na educação é a própria sociedade, aquela instituição que podemos simplesmente chamar de sociedade civil organizada, que tem como células os próprios indivíduos, organizados em entidades sociais, formalizadas ou não. Somente, portanto, as organizações sociais que se preocupam com o desenvolvimento e a evolução humanas que estão à frente da enorme tarefa de cuidar dos dois pilares, certamente os mais relevantes, que compõem o modelo considerado ideal pelos especialistas. Tais organizações precisam estar conscientes deste papel e trabalharem de forma intensa e decisiva para desempenha-lo de forma eficaz, pois, como vimos, é em grande parte de seu êxito que depende o futuro da humanidade. Novamente, é quase desnecessário apontar para o fato de que a AMORC é uma destas instituições sociais; como, aliás, está bem afirmado em sua Missão. Considerando a grande sintonia com a Missão da AMORC e com os objetivos definidos para a ORCJ, foi decidido que o conteúdo a ser trabalhado para os jovens teria como base os dois pilares da proposta da UNESCO: aprender a ser e aprender a conviver.