02/07/2016
Quarta-feira, 27 de Junho de 2016. Será disputado o Título do campeonato de luta-livre do CCJ. Não será uma batalha normal, teremos algo não visto há muito tempo, quatro competidores lutando ao mesmo tempo no ringue e apenas um deles sairá com o cinturão.
Os lutadores entram um por vez no ringue. O primeiro é o Maquinista, veste apenas uma bermuda, cotoveleiras e tênis. Ninguém sabe o porquê, mas é um favorito dos fãs e venceu os últimos três títulos, mesmo sendo insosso, sem graça e não trazendo nada novo para o esporte. No outro corner entra Camarada, com trajes que misturam influências hippies e da farda do exército da finada União Soviética, este é o principal rival do Maquinista e por anos tenta tirar, sem sucesso, o seu cinturão de campeão da organização CCJ. Para a surpresa de toda a plateia no terceiro corner entra Raio de Luz, antigo parceiro de luta de duplas do Maquinista, tem o mesmo repertório de golpes que ele e ambos seriam inconfundíveis se não fosse o jeito brega de se vestir do Raio, que utiliza Spandex preto com detalhes rosa neon.
Após essa entrada surpreendente todos estavam ansiosos para o começo do quebra-pau, até que no quarto corner, passa com dificuldade entre as cordas, o Cascavel, que é literalmente um anão usando um terno. Todos acharam engraçadinho, até torcem para ele em algumas partes da luta, mas todos sabem que ele não será o campeão.
O gongo soa e a luta vai começar e o que vemos é que uma configuração interessante é formada no campo de batalha, em vez de termos uma luta desenfreada entre os quatro lutadores, são formada duas duplas que lutam uma contra a outra, consistindo de Maquinista e Cascavel contra Camarada e Raio de Luz. A batalha toma uma tônica interessante, enquanto o Cascavel f**a fazendo algumas acrobacias engraçadas, como passar por baixo das pernas dos oponentes com uma cambalhota e outras manobras que divertem a plateia, Camarada e Raio de Luz se revezam para bater no Maquinista, inclusive com golpes baixos quando o juiz não está olhando.
A torcida vai a loucura, seria esse o fim do Maquinista? Não adianta quantas cabeçadas no s**o dos oponentes, ou pular das cordas direto para a cabeça deles, o Cascavel não consegue fazer de maneira alguma que seus adversários comecem a lutar seriamente contra ele. Por fim, Raio de Luz segura o cambaleante Maquinista para que o Camarada dê seu golpe de misericórdia, a torcida atira uma cadeira dobrável para que ele consiga este feito. Um golpe seco no ar e a torcida toda está em silêncio, Camarada acerta o Raio de Luz em cheio com a cadeirada, então a luta toma outra configuração, o caos tomou a arena e finalmente temos uma luta de todos contra todos, voltamos ao estado de natureza de Hobbes e não haveria Leviatã que conseguisse impedir os nossos contendores.
A luta seguia por mais de uma hora e o Raio de Luz pede um microfone para os narradores, todos param de lutar no mesmo instante e aconteceu uma baixaria que não víamos desde a primeira edição do Teste de Fidelidade, apresentado por João Kléber. Após acusações trocadas pelo Maquinista e pelo Raio, que variavam desde impotência sexual a um estranho hábito de masturbar-se enforcando com uma gravata a multidão foi ao delírio. Segredos que foram confidenciados a quem era, na época, um amigo, acabavam de ganhar o mundo. A torcida organizada do Camarada comemorava cada acusação do Raio contra o Maquinista mais do que um golpe desferido de seu ídolo.
Ouvimos então novamente o gongo e o juiz anuncia que o tempo havia terminado. A decisão foi para os árbitros e nós saberíamos quem foi o campeão da temporada apenas na semana seguinte.