04/04/2026
Embranquecimento... 15 de Novembro de 1908 ficou marcado como o dia em que a Umbanda teria começado. Mas a pergunta que quase ninguém faz é: o que existia antes disso? Antes dessa data, já existia tambor. Já existia incorporação. Já existia guia trabalhando. Já existia cura sendo feita muitas vezes escondida, perseguida e criminalizada. A espiritualidade nunca começou ali. Ela já estava viva só não era aceita. Então talvez 1908 não seja o nascimento mas sim o momento em que essa fé foi reorganizada para ser tolerada. E quando algo precisa ser aceito por uma sociedade preconceituosa ele muda. Alguns elementos somem. Outros são suavizados. Outros são adaptados. E é aí que entra uma reflexão desconfortável: quanto da Umbanda original foi moldada para caber dentro de um padrão mais aceitável? Porque quando uma espiritualidade de origem preta e indígena precisa se encaixar em padrões brancos e elitistas Ela não passa ilesa. Ela é filtrada. Ela é limitada. Ela é, muitas vezes, embranquecida. E é dessa raiz que nasce aquilo que muitos hoje chamam, de forma crítica, de: “Umbranca”. Uma Umbanda cheia de regras rígidas, proibições excessivas, padrões engessados que muitas vezes se distancia da força viva, ancestral e popular que deu origem a tudo isso. E é aqui que a conversa começa a ficar desconfortável de verdade. Porque enquanto essa espiritualidade era vivida por pretos, pobres e marginalizados ela era perseguida. Era criminalizada. Era tratada como atraso, ignorância, feitiçaria. Mas quando passa a ser organizada e explicada aos moldes da sociedade e principalmente, embranquecida ela começa a ser aceita. Coincidência? Na realidade reflexo de uma sociedade que só legitima aquilo que passa pelo filtro do branco! Enquanto muitos exaltam Zélio Fernandino de Moraes como “fundador” ou “herói da Umbanda”, quantos realmente conhecem e valorizam Tancredo da Silva Pinto? Um homem preto. Um líder. Responsável por estruturar, preservar e fortalecer uma Umbanda muito mais próxima de suas raízes africanas. Mas esse nome quase não é lembrado.
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