12/02/2021
🗝Ele era Bara🗝
Desempregado há 8 meses, 3 filhos menores para criar e as oportunidades esgotadas. Começo a trabalhar na reciclagem de lixo. Consegui um carrinho para puxar e logo passei a juntar latinhas, garrafas pet, papelão e tudo que era possível reciclar, o que me rendia míseros 9 a 10 reais por dia, muito insuficiênte para alimentar a minha família.
Certo dia, passei por uma encruzilhada e avistei uma oferenda de milho servido em um aguidal. Em pleno desespero, mesmo sem saber o que era, recolhi aquele aguidal e levei até o próximo cruzeiro, e ofertei o mesmo novamente, pedindo que me ajudasse a levar comida naquela noite pra casa, pois não sabia o que iria dar aos meus filhos. Estranhamente, foi o pior dia de reciclagem. Voltei a noite para casa sem qualquer alimento para minha família, mas com a certeza que o batuque era uma religião satânica, pois havia piorado ainda mais minha situação. Já se passavam das 22h , a noite consumia meus pensamentos de derrota, e as crianças reclamando de fome. Nesse momento, ouvi alguém chamando por meu nome. Deparei-me com um homem de estatura alta, negro, com uma sacola recheada de alimentos, ao qual me alcançou por cima do portão mesmo e disse que quem havia me enviado era o senhor do terreiro da esquina. Eu o agradeci e foi uma festa aquela noite dentro de casa: fizemos uma ótima refeição. Fiquei encucado de como o senhor do terreiro sabia da minha situação. No outro dia bem cedo, fui até aquela casa de religião para agradecer o bem que havia sido feito à minha família. O Pai de Santo me atendeu com um sorriso no rosto e disse: sabia que viria agradecer ao Pai Bará, fiquei sem entender. Ele abriu a primeira casinha que tinha no pátio e eu mesmo sem o conhecimento, agradeci. O Pai de santo me contou que um dia antes teve um sonho com seu orixá de rua, pedindo para que as 22h deixasse uma sacola com alimentos do lado de fora do portão, pois alguém em necessidade pegaria. Falei para ele que não peguei e sim recebi em minha casa, ele sorriu e disse: ah meu filho, fico contente, pois quem levou para você foi o Pai Bará. Chorei ao ouvir e a partir dessa data, nunca mais passamos necessidade, POIS ELE ERA BARÁ!
Texto: Pai Santiago de Oxalá