02/02/2026
Minha segunda viagem a Coxim
Antes de narrar esta nova viagem, deixo que a memória me conduza à primeira vez em que percorri o caminho até Coxim. Era dezembro de 2022. A ordenação episcopal de Dom Otair Nicoletti ainda ecoava na Catedral de Dourados, onde, no dia 10, ele havia recebido o báculo e o encargo de pastorear a Diocese de Coxim. Nove dias depois, em 19 de dezembro, acompanhei o amigo recém-ordenado em sua mudança para o novo lar que o aguardava.
Dom Otair carrega consigo uma história que atravessa estados, cidades e décadas. Minha convivência com ele, porém, antecede esses acontecimentos na minha própria memória. Conheci-o ainda seminarista, quando eu trabalhava na Cúria Diocesana de Dourados. Em 1996, já como reitor do Seminário, atendia pastoralmente a comunidade Santo André, da qual faço parte, e foi um dos padres assistentes em meu casamento com Ilcineia, em 28 de dezembro daquele ano. Ao longo desse período — entre reuniões, formações e encontros — construímos uma proximidade que se manteve até sua transferência para Novo Horizonte do Sul, em 2003
Com seu retorno a Dourados, em 2005, essa convivência se renovou. Além dos trabalhos paroquiais, ele se tornou diretor espiritual do CEIA — instituição onde retomei minha vida profissional após deixar a Cúria. Foi também ele quem batizou e crismou nosso primeiro filho, Nathan, e esteve presente em momentos marcantes de nossa família: confraternizações, encontros simples e também o período de luto pela perda dos meus pais. Anos depois, com a criação da Paróquia Santo André, onde resido, reencontrei-o como primeiro pároco, retomando uma relação próxima, seja pela comunidade, seja pelo CEIA, do qual foi diretor espiritual até 2022.
Nascido em 6 de abril de 1962, em Fernandópolis (SP), Dom Otair é o primogênito dos sete filhos de Aparecida e Domingos Nicoletti. Ainda na infância, a família mudou-se para Angélica (MS), onde sua vocação começou a ganhar forma. Estudou no Seminário Franciscano em Rio Brilhante e, mais tarde, no Seminário Diocesano de São Gabriel do Oeste.
Em Campo Grande, concluiu, entre 1987 e 1989, a licenciatura em Filosofia pela FUCMT. De 1990 a 1993, cursou o bacharelado em Teologia pelo Instituto Teológico João Paulo II e pela Unicesumar, de Maringá. Sua ordenação diaconal ocorreu em Ivinhema; a presbiteral, em 18 de junho de 1994, na mesma cidade.
Desde então, sua trajetória pastoral se desdobrou em múltiplas frentes: vigário, pároco, reitor de seminário, fundador e presidente da Cáritas Diocesana, membro do Conselho Econômico, Vigário Geral e assessor das grandes campanhas da Igreja no Brasil. Um caminho de serviço silencioso e dedicação constante — quem o conhece sabe que Dom Otair nunca fugiu do trabalho, seja no altar, na enxada, no escritório ou na estrada.
Em 19 de outubro de 2022, o Papa Francisco o nomeou bispo de Coxim. Na época, ele era Vigário Geral da Diocese de Dourados, reitor do Seminário Propedêutico e, há anos, diretor espiritual do CEIA. Sua ordenação episcopal aconteceu no dia 10 de dezembro, na Catedral de Dourados, pelas mãos de Dom Antonino Migliore e Dom Dimas Lara Barbosa.
Partimos rumo à estrada a bordo de uma Kombi simples, cedida pelo Seminário Propedêutico de sua diocese de origem. Saímos antes do amanhecer — às quatro da manhã — levando caixas, lembranças e uma silenciosa dose de expectativa. Chegamos a Coxim perto do meio-dia, recebidos por um calor que parecia anunciar o início de um novo tempo. Descarregamos, organizamos o essencial e respiramos o cheiro da nova casa. Por volta das quatro da tarde, já retornávamos a Dourados. Um bate-e-volta breve, mas simbólico: o começo de uma missão e, para mim, o início de uma ligação afetiva com aquele percurso e aquela cidade.
Agora, ao revisitar Coxim nesta segunda viagem, percebo como certos caminhos guardam ecos de passos antigos. Era o início da tarde de uma terça-feira, 2 de dezembro, quando acompanhei novamente Dom Otair — desta vez não mais o bispo em início de missão, mas um pastor já integrado ao ritmo da diocese que o acolheu. Voltávamos à residência episcopal após uma sequência intensa de compromissos: a posse do novo bispo na Diocese de Jardim (MS) e, na noite anterior, em Dourados, a presidência da Celebração Eucarística na Catedral Imaculada Conceição, parte do Novenário da Padroeira da cidade. A missa também celebrava os 90 anos da criação da paróquia e os 100 anos da chegada da imagem da Imaculada Conceição a Dourados — uma noite de memória e fé.
Partimos às 13h30, seguindo por Itaporã, Maracaju e Sidrolândia, onde fizemos uma pausa para o café da tarde. Depois seguimos para Campo Grande, onde Dom Otair passou rapidamente na casa da irmã e foi recebido com carinho pelos sobrinhos. Retomamos a estrada às 17h30, pela BR-163, atravessando Bandeirantes, São Gabriel do Oeste e Rio Verde, até chegarmos à residência episcopal às 21h.
Ainda naquela noite, Dom Otair recebeu a visita dos irmãos e amigos Ishi, David e Fátima, que pernoitaram ali após resolverem assuntos particulares em Sonora (MS).
A quarta-feira amanheceu serena. Após o café da manhã, o bispo nos levou para conhecer espaços significativos da vida diocesana: a Catedral São José, a Cúria e o Centro de Formação Emaús, situado a 13 km do centro e atualmente em reforma. No retorno, passamos no mercado e na casa de carnes — preparativos para o churrasco que David, com sua habilidade habitual, assumiria.
O almoço foi simples e farto, como os bons almoços do interior: carne bovina e cordeiro, salada fresca, arroz e mandioca macia. De sobremesa, sorvete. À mesa sentaram-se também dona Maria, cozinheira da residência, e o padre João Pedro, ecônomo da diocese e pároco da Paróquia São Francisco das Chagas, presença diária nas refeições com o bispo.
Por volta das 13h, Fátima e David retornaram a Dourados. Eu e Dom Otair permanecemos ali, dedicando a tarde à montagem do presépio na calçada externa — tradição deixada por Dom Antonino Miggliore, bispo emérito residente na Itália. Como Dom Otair havia passado dez dias fora, o presépio estava atrasado, e alguns vizinhos até especulavam que talvez não fosse montado naquele ano. Aos poucos, entre luzes e figuras, o presépio voltou a ocupar seu lugar. Após um dia longo, recolhemo-nos por volta das 20h.
A quinta-feira, 3 de dezembro, começou com oração às 5h, seguida do café e da continuidade na montagem do presépio. No almoço, o padre João Pedro nos levou a um restaurante à beira do rio Coxim, famoso pelo buffet de peixes. Serviram-nos moqueca de pintado, costelinha de pacu frita, peixe com banana, filé de peixe e outras variedades que perfumavam o salão com o aroma do rio.
À tarde, às 15h, seguimos para Sonora, na divisa entre Mato Grosso do Sul e Mato Grosso. O compromisso do bispo era participar do encerramento anual do Projeto Social Esperança “Giuseppe Guttilla”, conduzido pelas Irmãs Missionárias Catequistas do Sagrado Coração e responsável por atender cerca de duzentas crianças de 5 a 15 anos. Antes do evento, visitamos a Igreja Nossa Senhora Aparecida, matriz local, e a casa do padre João Paulo, pároco da comunidade.
O evento teve início às 19h30. Na abertura, a coordenadora convidou Dom Otair a dirigir palavras de ânimo e gratidão, concluindo com a oração do Pai-Nosso. Em seguida, houve apresentações com o tema ambiental “Sonhar e Transformar: a beleza do futuro está em nossas mãos”, encerradas com a encenação do nascimento de Jesus — gesto que devolvia ao ambiente a essência do Natal.
O último momento foi a entrega dos presentes de Natal, oferecidos por padrinhos e madrinhas previamente escolhidos. Depois, a convite do padre João Paulo, jantamos espetinhos em uma espetaria simples da cidade. Em seguida, retornamos a Coxim para descansar.
A sexta-feira, meu último dia na residência episcopal, manteve a rotina de oração, café da manhã e ajustes finais no presépio. No almoço, novamente contamos com a presença tranquila do padre João Pedro e de dona Maria. Às 14h, Dom Otair me deixou na rodoviária de Coxim. Retornei a Dourados, chegando de madrugada, por volta de 1h30.
Conhecer Dom Otair de perto é perceber que a simplicidade que ele carrega não nasceu com o episcopado — vem de longe. Sua história começa em Fernandópolis, em 1962, como o primeiro dos sete filhos de Aparecida e Domingos Nicoletti. A mudança para Angélica aproximou-o do chão do povo e da vida comunitária, moldando sua vocação. Passou pelo Seminário Franciscano em Rio Brilhante, pelo Seminário Diocesano de São Gabriel do Oeste e concluiu Filosofia e Teologia em Campo Grande e Maringá.
Ordenado sacerdote em 1994, dedicou-se a paróquias grandes e pequenas, formou seminaristas, fundou e presidiu a Cáritas Diocesana, serviu como Vigário Geral e assessor das campanhas nacionais da Igreja. Uma vida inteira sem se distanciar do povo — e talvez por isso, quando o Papa Francisco o nomeou bispo para Coxim, em 19 de outubro de 2022, ninguém duvidou que seu pastoreio teria cheiro de estrada e de pasto verde.
Foram dias de boa convivência, conversas longas e muitos assuntos compartilhados. A impressão que ficou é simples e luminosa: Dom Otair está bem em Coxim, e o povo o acolheu com carinho verdadeiro. As crianças se aproximam com naturalidade, acenam de longe, reconhecem nele não apenas o pastor, mas alguém que caminha ao lado delas. As pessoas admiram sua simplicidade, sua paciência, sua disposição para o trabalho — veem nele o bispo, sim, mas também o jardineiro, o homem da enxada, o carpinteiro, o motorista que dirige o próprio carro, o vizinho que vai à padaria e ao mercado como qualquer outro.
Essa proximidade discreta é um dom raro, e o povo do interior sabe reconhecer quem vive com autenticidade.
Ao final desses dias, só posso dizer: obrigado pela acolhida. Que Deus conserve em você, Dom Otair, essa serenidade firme, esse modo acessível e essa proximidade tão humana. Há muito caminho pela frente, mas estes primeiros anos já revelam quanto você abraça a missão com convicção. Suas longas viagens, para encontrar seus fiéis e visitar comunidades distantes, revelam o coração de um verdadeiro pastor — e isso é algo belo de se testemunhar.
José Vieira