28/05/2026
O FIM DA CAMBONAGEM E DA CURIMBA
Sim, esse assunto causa, à primeira impressão, um certo espanto.
Mas a verdade é essa: a cambonagem e a curimba dentro dos terreiros de Umbanda estão com os dias contados.
Quem hoje em dia ainda não notou como os ogãs, curimbeiros e atabaqueiros estão sumindo dos terreiros?
Como é fácil entrar em uma casa e ver os tambores vazios?
E também perceber entidades perdidas dentro da gira, sem ter uma pessoa fixa para orientar os trabalhos?
Cada dia é mais comum vermos isso acontecer, e o motivo não é difícil de entender:
INCORPORAÇÃO.
Hoje em dia, o médium que adentra uma corrente mediúnica, que deseja fazer parte de um terreiro, já chega com sua mediunidade “pré-destinada”.
Antes mesmo de participar de uma gira, antes mesmo de iniciar seu desenvolvimento mediúnico, ele já vem com uma lista de sensações, nomes e certezas prontas sobre sua espiritualidade.
“Eu nunca incorporei, mas trabalho com Maria Navalha.”
“Meu Exu é Tranca-Ruas, ele falou comigo em sonho.”
“Senti meu caboclo próximo de mim, acho que é o Sete Flechas.”
O sacerdote da casa já não precisa mais auxiliar na caminhada espiritual daquele médium, porque o neófito acredita que já possui todas as respostas.
Outro fator que contribui fortemente para isso é a comercialização da religião e o crescimento das redes sociais.
O que antes era segredo, hoje está ao vento.
Aquilo que era sagrado, tornou-se exposição.
E, muitas vezes, aquilo que deveria ser vivido com humildade passou a ser tratado com vaidade.
As pessoas já não querem mais apenas servir à espiritualidade.
Querem exibir aquilo que “receberam”.
Mostrar o quanto sua Pomba Gira é forte e temida.
O quanto seu Exu é poderoso.
As roupas luxuosas das entidades.
Os apetrechos.
Os vídeos.
As fotos.
Os pontos gravados.
A estética.
Tudo isso fez com que muitos médiuns que entram hoje em uma casa de axé desejem somente uma coisa:
INCORPORAR.
Como se a incorporação fosse a única faculdade mediúnica dentro da Umbanda.
Como se tocar o tambor e os atabaques para trazer o sagrado em terra não fosse importante.
Como se servir uma entidade, auxiliá-la em seus trabalhos e guardar seus fundamentos tivesse perdido o valor.
E assim, os atabaques foram ficando vazios.
Terreiros hoje buscam recursos tecnológicos para suprir a ausência desses médiuns.
Caixas de som substituem mãos consagradas ao tambor.
Entidades já não possuem suporte firme em seus atendimentos e trabalhos.
Muitas vagam pelo terreiro como pessoas comuns, procurando suas próprias coisas, servindo-se sozinhas, sem o amparo e o respeito que antes existiam dentro da corrente.
A Umbanda não é feita apenas de incorporação.
Dentro da religião, todos possuem seu valor.
O médium que incorpora seus guias deve fazê-lo para a caridade, jamais para a vaidade.
O curimbeiro possui o dom de, através de suas mãos e de seus cânticos, invocar as energias do sagrado em terra.
O cambono carrega a confiança, o segredo e a sustentação espiritual da entidade que ali se manifesta.
Todos são importantes.
Sem curimba, não há firmeza.
Sem cambonagem, não há sustentação.
Sem humildade, não há Umbanda.
Que os médiuns reflitam:
será que ainda queremos servir à espiritualidade…
ou apenas aparecer através dela?
Saravá Umbanda.
Pai Leandro de Oxóssipaijoaquimebaianoze