27/12/2023
“Vigor Ancestral”.
A quem interessar possa: a palavra Marialva, em linguagem indígena, signif**a Vigor Ancestral. Não poderia ser mais apropriada em seu signif**ado. Concordo demais com a definição. A cidade com este nome, para mim, sempre foi uma homenagem à vida, à família. Foi ali, que convivi com quatro primos do mais fino extrato da lealdade. Como dizem: “companheirismo não tem preço, mas tem valor.” Eles foram, na minha tenra infância, um hino à puerilidade, à amizade, ao amor totalmente fraterno. Não tem como esquecer. Edinho (famoso Billy), Edséa (sorriso meigo), Eddy (prima que acreditava no primo – eu escolhi a música tema do seu casamento), Edgar (o menino sério, caçula). (Não esquecendo o tio Edmo Mendes Baião e tia Alair).
Se por acaso, alguém perguntar: Você se lembra de Marialva? Simmm. O quê? A terra vermelha. O sol generoso. O céu sempre azul. O povo amigo, acolhedor, benfazejo. Em dias de chuva, um barro (em volume razoável) grudava, grudava mesmo, nos sapatos. Daí a pouco, os pés estavam pesando em dobro. Chegava-se aos lugares onde se fora, pronto! Uma raspadeira à porta, posicionada estrategicamente, eliminava aquele poeirão, transmutado em barro vermelho. Ah, lembro também o Sol. Estupendo, esfuziante, magnífico. Lembro, meu Deus, lembro: a tarde ia escorrendo lenta, sem pressa, ao calor radiante, do sol honesto, sincero, do meu Norte do Paraná. Eram os tempos de então, de antanho. Naquele calorão, sem dúvida, tornavam-se necessários uma limonada, um picolé de limão, um ki-suco gelado. Uma limonada de Marialva, outra não. Um picolé marialvense, o melhor. O Ki-suco, bom este em todos os lugares é igual. Acontece que a terra generosa desta cidade é propícia a que nasçam flores, frutos, amizades inigualáveis. Hoje, chamam-na a Capital da Uva Fina.
A casa do meu tio Edmo (e da minha tia Lally) era um santuário. Neste, eram servidas porções generosas de acolhimento, amor, carinho e atenção. A vida, a época, era plena, abundante. O tio Edmo era o cartorário da cidade. Pessoa importante. Uma autoridade. Detalhe: ele foi um homem. Ou seja, aproveitando o ensejo, posso dizer que tive o alto privilégio de conviver com homens de verdade. No transcorrer dos tempos, esta simples afirmação ganhou uma inédita relevância. Vivemos uma época que ser homem é praticamente um defeito. Pior. Ao falar-se em ser um homem ou ser uma mulher, imediatamente a maioria tangencia s**o. A mediocridade de reduzir a diferença de gêneros a apenas isto. S**o – comportamento sexual. Não, não. Ser homem é um conceito muito amplo. Amplíssimo. Ser mulher chega a ser mais amplo ainda. Tio Edmo foi um homem de verdade. Tia Alair foi uma autêntica mulher. Quando eu falo homem f**a subentendido: caráter, honra, fibra. Quando o falo mulher f**a implícito, caráter, carinho, candura, honra, fibra, amor, proteção incondicional à dignidade. Um tipo de ser humano que cria filhos para serem cidadãos dignos, honestos, íntegros. (Meus primos, no caso).
Exemplifico e resumo tudo isto que narrei numa singela narrativa. Meu pai, o Barbosa, iria viajar conosco, sua família, para a terra natal de minha mãe (Alanir): O Espírito Santo. De Jeep. Jeepinho 60. Meu pai tinha um espírito aventureiro. Foi por causa disso que veio para o Norte. Pousamos em Marialva, na boa casa de nossos bons amigos e parentes, antes de pegar a estrada. Meu tio veementemente levantou um obstáculo (lembro até hoje o diálogo):
– Barbosa, fez uma revisão no carro? Óleo, motor, caixa, suspensão, pneus?
– Não fiz, Edmo. O carro estava rodando bem em Cianorte.
– Compadre, eu vou levar teu carro até um mecânico amigo. Teu carro não pode fazer uma viagem tão longa sem estar revisado.
Bendito, tio Edmo. O carro ficou zerado para a inédita, inaudita, incrível viagem. Portanto, fomos e voltamos na mais perfeita paz. Nada nos atrapalhou. Quer dizer: alguns percalços neste mundo são inevitáveis. 1. Em um morro perto do Rio de janeiro, o Jeep foi cercado por assaltantes, que quando viram meu pai, minha mãe, e cinco crianças, imediatamente nos dispensaram. Creio que até assaltantes entendem o que é uma família. 2. Ainda no rio, minha irmã Maria não conseguiu dormir nem uma noite. Motivo: medo da macumba. Nunca tínhamos visto tal elemento religioso em nossa cidade. De repente, abundou a cada esquina, a cada encruzilhada. Foi demais para o aspecto psicoemocional de minha irmã. À noite, ela clamava: “A macunda, mãe. A macunda, tenho medo”. Apaziguou-se quando rumamos para Marapé (indo para Marapé, tudo se acalma). 3. Meu irmão teve a missão de comprar uma chupeta para a Cristianne (recém-nascida). Disse para nossa prima carioca: “Leve-me aonde vocês compram remédio. Normalmente, isto signif**aria Farmácia. Ela o levou a uma benzedeira. 4. Em um sítio que visitamos, meu pai teve que descer uma escada que nada mais era que um toco de árvore. Rolou pela escada com minha irmã recém nascida: Cristianne. Como um ágil goleiro faria, protegeu-a. Lanhou-se um pouco, mas a criança ficou incólume. No restante, uma viagem maravilhosa. Lembro a fazenda do nosso bisavô Quintino. O terneiro apartado, executado, carneado. Fritávamos polpudos bifes na chapa do fogão a lenha. Hum, ainda sinto o aroma a encher a cozinha. Os morros, o verde, as pessoas amigas, amigáveis, sorridentes. As jacas carnudas, os bezerros que vinham quando se lhes chamava o nome da mãe: “ÔÔÔ Estrela! Vemmmmm, Mimosa!” E os bezerrinhos se achegavam. Um mundo de sonhos. Lembranças imorredouras.
Duas semanas depois, chegamos a Marialva de volta; depois chegamos a Cianorte, sãos e salvos.
57 anos depois, vale a pena dizer: Obrigado, tio Edmo, tia Alair, Edinho, Edsea, Edgar e Eddy!
Sentado na varanda, ao sol de Curitiba (não é a mesma coisa), abro um livro, ligeiras lágrimas assomam. O tempo que não voltará mais. Leio, nas páginas gastas
A velha Chácara
A casa era por aqui…
Onde? Procuro-a e não acho.
Ouço uma voz que esqueci:
É a voz deste mesmo riacho.
Ah quanto tempo passou!
(Foram mais de cinquenta anos.)
Tantos que a morte levou!
(E a vida… nos desenganos…)
A usura fez tábua rasa
Da velha chácara triste:
Não existe mais a casa…
– Mas o menino ainda existe.
Manuel Bandeira.