09/08/2026
Hoje, em quase todos os lugares, a palavra pai aparece cercada de afeto, proteção, força e cuidado. Mas a vida real é mais complexa do que um comercial de margarina.
Nem todo pai foi presença. Nem todo pai foi acolhimento. Para muita gente, a figura paterna também significou ausência, violência, abandono, silêncio e traumas que recaíram, muitas vezes, sobre mulheres sobrecarregadas pela falta.
Por isso, talvez o Dia dos Pais também precise ser um dia de pergunta: pai? Que pai é esse? Patriarcado e paternidade não são a mesma coisa, mas nossa ideia de pai foi moldada por uma sociedade machista e misógina, que ensinou homens a comandar antes de cuidar e a exercer autoridade sem necessariamente aprender responsabilidade afetiva.
E essas marcas chegam também ao terreiro. Muitas pessoas procuram no pai de santo a proteção, a aprovação ou o colo que faltaram na família. Mas pai de santo é pai dentro de uma relação espiritual, sacerdotal e comunitária. Não é substituto do pai biológico nem responsável por reparar sozinho todas as feridas de uma infância.
Quando essa fronteira se perde, o afeto pode virar projeção, a orientação pode parecer rejeição, o limite pode ser sentido como abandono e a disciplina como falta de amor. E isso também adoece o terreiro.
Porque amar não é ocupar todos os lugares na vida do outro. Às vezes, amar é justamente saber qual lugar nos pertence.
Talvez hoje, mais do que repetir automaticamente “feliz Dia dos Pais”, valha refletir sobre quais pais tivemos, quais pais estamos sendo e quais padrões ainda precisamos interromper.
Nem toda paternidade merece romantização. Mas toda paternidade exige responsabilidade.
Axé.
art: RONIERY