17/12/2022
CRISTO, O MENSAGEIRO
- Swami Vivekananda
“...Cristo não teve outro objetivo na vida, nenhum outro pensamento senão que era um Espírito, desencarnado, desligado do corpo e liberado. Não somente isto, mas, em sua visão maravilhosa, descobriu que todo homem e mulher, judeu ou gentil, rico ou pobre, santo ou pecador era, como ele, a encarnação do mesmo Espírito imortal. Por conseguinte, o único objetivo de sua vida foi chamar aqueles que se deram conta de sua natureza espiritual. Ele disse: ‘Abandonem esses sonhos supersticiosos de que vocês são inferiores e de que são pobres. Não pensem que são pisoteados e tiranizados como se fossem escravos; porque em seu interior há algo que nunca é tiranizado, que nunca é pisoteado ou atribulado, e que nunca morre. Vocês todos são filhos de Deus, Espírito imortal’. ‘Saibam, que o reino dos céus está dentro de vocês’. ‘Eu e meu Pai somos um’. Coloquem-se de pé e digam somente: ‘Eu sou o Filho de Deus’, e no fundo de seus corações sentirão que: ‘Eu e meu Pai somos um’. Isso foi o que disse Jesus de Nazaré. Ele nunca falou deste mundo, nem desta vida, e nunca tratou desses assuntos. O que ele fez foi tomar este mundo como é, empurrou e o fez avançar até o ponto em que alcançou a resplandecente luz de Deus, para que todos possam realizar sua natureza espiritual, e para que a morte seja vencida e a miséria desvanecida.
Tenho lido as diferentes histórias que se escreveram sobre Cristo; conheço o que os eruditos escreveram, a crítica levantada, e sei que tudo isso foi feito com muito cuidado. Não estou aqui para discutir se os relatos sobre a vida de Cristo é histórica. Não importa, em absoluto, se o Novo Testamento foi escrito anos após o seu nascimento; tampouco me importa quanto daquela vida é verdade. Mas existe algo nesses ensinamentos que necessitamos imitar. É necessário imitar a verdade porque ela é um fato. Não se pode imitar o que nunca existiu e o que jamais foi experimentado. Mas deve ter havido um fato, um tremendo poder que desceu, uma maravilhosa manifestação de poder espiritual; disso, precisamente, é que eu falo. Existiu, portanto não tenho medo das críticas dos eruditos. Se eu, como oriental, tenho que adorar a Jesus de Nazaré, só me resta um caminho; tenho que adorá-lo como Deus e nada mais. Alguém pode me dizer que não tenho direito de adorá-lo desta maneira? Se não posso fazer com que ele desça ao meu próprio nível, só posso lhe oferecer respeito como a um grande homem, então, por que adorá-lo? Nossas Escrituras dizem: ‘Esses grandes filhos da Luz, que manifestaram a Luz, e eles mesmos sendo Luz, ao serem adorados unem-se a nós e chegamos a ser um com eles’.
O homem percebe Deus de três maneiras. No princípio temos o homem inculto, cujo intelecto encontra-se ainda pouco desenvolvido, que acredita num Deus que vive em algum céu distante, sentado em um trono como um grande juiz. Acredita que Ele seja como o fogo, e tem medo dele. Esta crença é necessária e não há nada de mal nela. Vocês devem se recordar que a humanidade não vai do erro à verdade, senão da verdade menor à verdade maior. Vamos supor que partindo daqui, viajemos na direção do sol. Daqui o sol parece ser pequeno, mas se nos aproximarmos dele um milhão de quilômetros, o sol parecerá maior, e assim sucessivamente a cada etapa que nos aproximarmos dele. Suponham que se tenha tirado vinte mil fotografias do sol de diferentes pontos; com toda a certeza elas serão diferentes uma das outras, mas não se pode negar que cada uma delas é uma fotografia do mesmo sol. O mesmo ocorre com as diferentes formas de religião, sejam elas elevadas ou não, são simplesmente diferentes etapas na direção do eterno estado de luz, que é Deus. Cada religião representa um ponto de vista mais ou menos elevado, e esta é toda a diferença.
Por conseguinte, as religiões das massas, que não costumam pensar, acreditam e sempre acreditaram em um Deus que está fora do universo, que mora em um céu e dali governa, castiga aos maus e premia aos bons, etc. À medida que o homem avança espiritualmente, começa a compreender que Deus é onipresente, que está em todas as partes, que não é um Deus distante, que é a alma de todas as almas. Da mesma maneira que minha alma move meu corpo, assim também Deus é quem move minha alma. Alma dentro de outra alma. Uns poucos indivíduos que se desenvolveram o suficiente e que são puros, vão mais além e, por fim, encontram Deus. Como disse o Novo Testamento: ‘Bem-aventurados sejam os puros de coração, porque eles verão a Deus’. No final da jornada descobrem que eles e o Pai são um.
Observem que essas três etapas são ensinadas pelo grande Instrutor no Novo Testamento. Para o homem comum ele ensinou esta oração: ‘Pai nosso que está nos céus, santif**ado seja seu nome, etc.’. Pregação singela, pregação infantil. Esta oração é chamada de oração comum porque está dedicada às almas simples. Para um círculo mais elevado, para aqueles que avançaram um pouco mais, ele deu este ensinamento: ‘Eu estou em meu Pai, vocês em mim, e eu estou em vocês’. Recordem-se disso? Logo, quando os judeus perguntaram-lhe quem ele era, declarou que ele e seu Pai eram um e os judeus consideraram isto uma blasfêmia. O que ele quis dizer? O mesmo que disseram os antigos profetas: ‘Vocês são deuses e todos são filhos do Altíssimo’. Observem aqui as mesmas três etapas. Percebam que se deve começar com o mais fácil até que se esteja preparado para a etapa final.
O Mensageiro veio para mostrar o caminho; que o espírito não está nas formas; que não se pode conhecer Deus por meio dos muitos, incômodos e complicados problemas de filosofia. Seria melhor não ter nenhuma cultura e jamais ter lido um livro em sua vida. Porque isso não é necessário para a sua salvação – como tampouco são a riqueza, a posição, o poder, nem sequer a cultura – uma só coisa é necessária, pureza; Bem-aventurados sejam os puros de coração, porque o espírito é puro; e não poderia ser de outra forma porque é de Deus que tudo procede. Segundo a linguagem da Bíblia, ‘É o alento de Deus’. Na linguagem do Alcorão, ‘É a alma de Deus’. Alguém ousaria dizer que o espírito de Deus pode ser impuro? Podemos dizer que Deus tem sido coberto pelo pó e impureza através dos tempos, por causa de nossas boas e más ações. Ações incorretas, não verdadeiras, têm coberto o espírito com o pó da ignorância por séculos. Mas, basta limpar o pó e a sujeira para que o espírito brilhe novamente. ‘Bem-aventurados os puros de coração, porque eles verão a Deus’. ‘O reino dos céus está dentro de vocês’...”. -
(Texto extraído de uma conferência proferida por Swami Vivekananda em Los Angeles, Califórnia, em 1900)