12/07/2024
Equivalência.
Não havia chuva, embora as nuvens grossas cobrissem o céu de cinza escuro.
Justo naquele dia, resolvi pagar uma dívida.
Ou talvez não fosse uma dívida propriamente, mas uma dádiva, um presente, um gesto...
Reação?
Devolução.
Naquele dia, especif**amente, eu estava bem disposto. Já não havia o peso de antes, portanto não foi de malgrado que arrastei aquele pesado baú até a praia. Onde ele estava parado, eu já sabia bem.
Rapidamente, depositei o presente aos seus pés desnudos.
De dia, assim, era estranho estarmos sozinhos, pois vários eram os que vinham em multidões pedir a ele.
Nada cobria os pés desnudos daquele belo homem. Junto de uma embarcação naufragada, ele se sentava guardando pilhas e pilhas dos mais diversos itens.
"O que tem aqui dentro?” – ele perguntou.
Respondi correndo: “A minha parte no nosso acordo”.
De pronto, abaixei a cabeça, humildemente.
Naquele mesmo instante ele bufou.
“Já?” –perguntou abruptamente.
Os meus olhos encontraram os dele novamente.
Retirei o peso dos meus ombros ao ver que ele sorria.
"De verdade, já vejo os resultados” – eu disse.
“Não vou aceitar” – ele falou – “há muito mais por vir ainda”.
Joguei ainda um último colar que retirei do meu pescoço por sobre o pesado baú.
“O que estou pagando não são os presentes que você me deu”.
Rindo mais ainda, ele perguntou:
"De todas as coisas que combinamos, o que você paga então?”
Num breve instante, meu rosto expressou serenidade, alegria e paz.
Julguei que aquela conversa fosse importante, então me propus a pensar direito nas palavras.
"Objetivamente? Nada.” – falei.
"Respostas apropriadas faltam em momento de elevada verdade, por isso preferi o gesto ao falatório”.
“Desculpe-me se não pareço claro, mas há muitos anos que peço ajuda e você foi o primeiro a escutar.”
Luiz Fernando Azevedo