20/12/2025
29 anos chegaram — e com eles, chegou também um ano de Kimbanda.
Hoje, no meio de um silêncio ensurdecedor, ouvi algo no seio de uma oraculação que fiz para mim mesma, vinda de Tata Mulambo.
E ela me disse:
“Minha menina, tenho uma palavra para a voz que resume toda a tua travessia até aqui: RESISTÊNCIA.”
Guardei-me em silêncio por alguns instantes, e então ela tornou a falar:
“Não tomes isso por bem nem por mal, pois o culto que a serve conhece essa palavra na carne, no suor e nos dias. Sei que, para a voz, tal palavra carrega muitos sentidos e muitos pesos.”
“Voz resiste ao ódio e à maldade dos homens desde os primeiros traços do feminino que ousaste revelar ainda menina, quando te reconheceste como tal — e depois, como mulher.”
“Não desejo que a voz que deixe de resistir, pois infelizmente não lhe é permitido repousar por completo. Contudo, é chegado o tempo de mudar o olhar sobre a vida e permitir-se viver para além da resistência.”
“Por um tempo, voz assim o fez com maestria, até que o mar bravo e violento do ódio tentou roubar-lhe o brilho.”
“Mas agora, basta.”
“Tudo já reside dentro da voz. Há em ti uma fonte de axé que não se esgota, prestes a transbordar. Sou eu quem remove as barreiras para que esse axé flua de dentro para fora.”
“E não permitirei que, neste tempo, uma única gota desse axé seja entregue a outrem que não seja a voz própria.”
“Não falo pelos outros Exus e Pombogiras, mas falo do culto que a voz me presta, da lealdade que tens a esta bruxa.”
“E encerro estas palavras que sussurro para que compreendas, de uma vez por todas: jamais eu poderia abandonar a voz, minha menina. Estive contigo nos dias de riso e nos dias de dor.”
“Desde o instante em que a voz decidiu dedicar-me a própria vida, eu já não poderia partir. E sei que a voz tampouco conseguiria afastar-se de mim.”
“Guarda isto para sempre: Exu devolve aquilo que lhe é dado — seja luz ou sombra.”
“Segue, minha menina. Não detenhas teus passos. Isto é apenas o começo…”