Paróquia Sagrada Família - Cuiabá

Paróquia Sagrada Família - Cuiabá Paraevangelização

Quero convidar quem puder participar a dar graças a Deus comigo por meus 50 anos de ordenação sacerdotal no dia dos pais...
12/07/2024

Quero convidar quem puder participar a dar graças a Deus comigo por meus 50 anos de ordenação sacerdotal no dia dos pais, 11 de agosto, na paróquia Sagrada Família em Cuiabá.

13/07/2019

Estou agora conhecendo algo mais da cultura antiga do ocidente: Athenas e Tessalonika hoje. Veremos se é possível continuar até Skopje, capital da Macedonia.

02/11/2018

31/10/2018 - Missionário por meio século
no Brasil, Roma, Japão, El Salvador
MINHA PRIMEIRA EXPERIÊNCIA MISSIONÁRIA
1968:
Martin Luther King foi assassinado em abril; críticas à sociedade de consumo, revoltas estudantis e manifestações um pouco por toda parte no mundo: Paris, Berlim, Lovaina, São Paulo, Nova York ... "É proibido proibir" ... Rudi Dutschke, Cohn Bendit, Andreas Baader, protestos contra a guerra no Vietnã ... a primavera de Praga (iniciada em janeiro e brutalmente interrompida pela invasão de tanques russos em 20 de agosto) ... em Lovaina, houve manifestações por «Leuven Vlaams» na sequência da decisão dos bispos belgas para manter a Universidade de Lovaina bilíngüe: nós também fomos para as ruas. Os mais velhos entre nós ainda lembramos como fomos questionados naqueles dias, enquanto no LIKS (Instituto Lovaniense de Estudos Eclesiásticos), engolíamos por dois anos a filosofia tomista "boa, velha e confiável".
Eu mesmo comecei a questionar a minha vocação e depois de muito discernimento, decidi pedir uma entrevista com o então provincial Padre Bundervoet e pedir-lhe de interromper meus estudos por três anos, substituindo, assim, de acordo com a lei belga, o serviço militar obrigatório por um estágio pastoral no Brasil. Deve ter sido no final de maio, quando fui para seu quarto (o provincial tinha então em cada casa um apartamento reservado para ele!) e ele me perguntou o que estava acontecendo. Eu tinha toda uma série de argumentos prontos, mas comecei a dizer que queria passar alguns anos de experiência no Brasil. Sua reação imediata foi: "OK, quando você quer sair?" Eu nunca havia esperado um tal acordo imediato, mas provavelmente nossos formadores tinham notado que eu não iria f**ar em Heverlee e lhe informaram.
Já que o superior regional do Brasil Padre W***y Van Hootegem estava de férias na Bélgica e o Padre Fons de Nijs, após vários anos de trabalho como propagandista, havia acertado para sair com ele pela primeira vez ao Brasil no fim de outubro, eu me juntei a eles para viajar no dia 30 de outubro.
Meu pai e sobretudo minha irmã Maria não puderam esconder seu medo de que alguma coisa me acontecesse, mas para mim era importante poder confirmar minha vocação como Missionário do Sagrado Coração e por os pés no chão num país onde havia muito tempo eu estava sonhando de poder ir.
O pouco tempo que me sobrava, já aproveitei para aprender algo de português, no livro de um holandês J.J. Van De Besselaer “Het portugees van Brazilië) e com algumas aulas que um padre brasileiro da Província Brasileira de São Paulo, o Padre Durval, que estudava na Europa, nos dava aos que estávamos destinados ao Brasil: me lembro que Padre Germano Goethals e Rogério De Ridder também já aproveitavam desta iniciação antes de ir ao curso do Colégio Latinoamericano de Lovaina.
Naquela época, era costume para um jovem missionário de se despedir nas várias casas da província e de receber algumas centenas de francos como apoio. Por isso, após as férias, fui a Borgerhout, Heverlee, Dinant, Beernem e também a Bree. O que eu me lembro até agora, é o bom conselho do Padre Marcelo Van Hie (que tinha vivido vários anos no Brasil e teve que voltar por causa da sua saúde e audição fraca havia sido nomeado como superior na casa de Bree):
Você ainda é jovem, mas talvez o conselho de um antigo missionário possa ajudá-lo. Vou dizer três coisas que você deve se lembrar: em primeiro lugar, você vai para um país tropical e deve beber muita água, pelo menos dois litros por dia; seus rins devem nadar! Tenho visto vários colegas sofrer com pedras e outros problemas renais porque eles beberam muito pouca água ... em segundo lugar, não deve beber álcool quando está sozinho. Não há nada de errado quando você bebe uma cerveja jogando baralho, ou toma um aperitivo antes do almoço ou um copo de vinho no jantar, mas eu vi várias confrades perder-se no alcoolismo: quando você está sozinho em alguma paróquia no interior, e chega em casa no domingo de noite, cansado, e vai até a geladeira para tomar uma cerveja; e não pode f**ar em uma perna só, vai uma segunda e terceira e antes que você percebe, você está dependente de álcool, especialmente se essa doença já está na sua família. E em terceiro lugar, você verá que há muitas "meninas" e mulheres lindas no Brasil (ele estava certo!). Agradeça ao Senhor pela beleza das mulheres, mas lembre-se sempre que a sua vocação não é de começar uma família com uma delas, mas de servir e ajudar a todas, bonitas e feias, velhas e jovens, e especialmente as que mais sofrem, ...
Eu não sei quanto dinheiro ele me deu então, mas os bons conselhos f**aram comigo até agora e eu procuro dar-lhes também para os nossos jovens em formação ...
E assim, na quarta-feira, 30 de outubro de 1968, nós três deixamos o aeroporto de Zaventem: primeiro para Orly - Paris e depois com um 707 da Varig para São Paulo com escala em Recife. Naqueles bons tempos ainda havia uma verdadeira refeição, com direito a um menú com florzinhas que eu tenho guardado por muito tempo como lembrança; havia como primeira bebida uma taça de espumante e comida bem servida, não em pratos e com talheres de plástico, como agora. Quando a porta do avião se abriu em Recife, lembro-me do bafo de ar quente que vinha entrando de uma só vez e também as casinhas surradas em ambos os lados da pista. O aeroporto internacional de São Paulo na época ainda era o de Congonhas.
No casa provincial da Província MSC, na Ponte Pequena, estavam quebrando tudo por causa da linha de metrô que passa a poucos metros da sala de recreio e do refeitório da casa. Pe. Luis Xavier Peres era Provincial.
Em 1º de novembro, já viajamos para Curitiba e o que me chamou a atenção lá na casa paroquial do Pinheirinho foi o aparente luxo: lá havia em todos os lugares piso de madeira ou parquet e lambris nas laterais, também na antiga igreja (a famosa "igreja preta") logo ao lado da casa canônica: construída inteiramente em madeira bonita do pinheiro local (araucaria angustifolia) e pintada de preto por fora com óleo usado. Dois dias depois, Afonso e eu voltamos para São Paulo para aprender o português no escolasticado de Vila Formosa. Ficava ao lado do maior cemitério da América Latina, e havia vinte estudantes e os dois padres de nome Cornélio (Kees Van de Made e Van Amerongen) junto com o padre Adriano Seelen como superior. Já que eu tinha ido ao Brasil só por três anos, os superiores achavam que não precisava seguir o curso do CENFI (para a inculturação e estudo da língua dos futuros missionários do exterior) em Petrópolis, que o Padre José Omblets foi fazer naquele tempo. Por isso, principalmente através do estudo individual, fomos aprendendo o português e fizemos os primeiros passeios exploratórios na área da Vila Formosa. Uma das primeiras tarefas foi conseguir legalizar nossos documentos. Aqui você vê o primeiro documento de identidade de estrangeiro no Brasil: a famosa «carteira dezenove» com minha foto daquela época.
Estávamos (Afonso e eu) apenas chegando a nos acostumar um pouco e começando o estudo da língua com a ajuda dos escolásticos e Padre Adriano, quando, na manhã do dia 13 de Dezembro, para nós totalmente inesperado, porque ainda não conseguíamos ler os jornais e seguir os noticiários na TV, de repente, tudo mudou na cidade de São Paulo e em todo o país, com o segundo golpe dos militares por meio do chamado "AI 5 - Ato Institucional Número Cinco": o Congresso, Senado e Câmara dos deputados foram fechadas, as aulas nas Universidades suspensas, muitos lideres esquerdistas presos pelos militares; em toda parte na rua se viam tanques, soldados armados, carros de patrulha, controle policial; muitos professores, lideres de partidos e sindicatos fugiram para o exterior: Chile, Cuba, França ...
Foi o início da ditadura militar que duraria até o final da década de 1980. Fora do controle nas ruas algumas vezes e da falta de informação correta, nós não sofremos nada na pele nestes meses em São Paulo.
Lá, em Vila Formosa, ouvimos pela primeira vez notícias sobre a Segunda Conferência Episcopal Latinoamericana, que foi realizada em Medellín, na Colômbia em agosto-setembro de 1968 para traduzir as conclusões do Concílio Vaticano II para a realidade pastoral do continente, concretamente com a) a opção preferencial pelos pobres, b) o começo da teologia da libertação que mais tarde seria elaborada por Gustavo Gutierrez, Leonardo Boff e outros teólogos, e c) as comunidades eclesiásticas de base.
Lembro-me também o primeiro Natal que eu celebrei na freguesia de Vila Ré (também na zona leste de São Paulo, perto de Vila Formosa, onde um padre belga estava trabalhando, mas eu esqueci o nome dele; pela primeira vez eu suei no Natal e cantei outras músicas além das músicas tradicionais de Natal da nossa terra de Flandres!
1969
No final de janeiro, Afonso e eu, que já conseguíamos compreender e falar algumas palavras em Português, deixamos São Paulo, rumo a Curitiba, com a empresa de ônibus COMETA. Ficamos parados um tempão com problemas no motor perto da cidade de Registro, tomando água de uma fonte. Também me lembro que ao meio-dia pagamos 5 cruzeiros por um almoço completo com churrasco. Em Curitiba, fomos recebidos pelo Padre Rafael de Paermentier e eu sempre lembrarei o que ele me disse naquele momento: "De agora em diante, você deve sempre falar português, com duas exceções: quando tiver que confessar com um colega Flamengo e quando você sai do avião no aeroporto de Zaventem".
Havia um outro problema: eu era o sétimo JOZEF entre os MSC belgas, e, para distinguir uns dos outros, vários já haviam mudado o nome e, ao lado de Padre Afonso (Van der Snickt) padre Jef (Caekelbergh), Padre José (Bosmans), Padre José (Omblets) Padre Nicolau (Joosten) e Padre Pedro (José Laureys), a mim começaram a chamar-me do «seminarista Zeca», pois era o apelido que se dava para o mais novo «José», quando havia vários com este nome numa família grande no sul do Brasil. Mais tarde, na minha segunda volta como padre, fiquei conhecido como «O padre Zeca do ca****bo e da gaita» porque fumei ca****bo desde o início da teologia em 1970 até minha saída para o caminho de SANTIAGO no fim de setembro de 1999, e comprei o acordeão em Curitiba ao chegar como padre no Brasil em agosto de 1975.
Para ir de Curitiba para o nosso destino final, a cidade de Francisco Beltrão, havia duas empresas de ônibus: Cattani e Reunidas. Nossa primeira viagem foi pela Reunidas, mas a pista de asfalto apenas havia chegado um pouco além de Guarapuava - Três Pinheiros. Lembro que o ônibus ficou preso na lama perto da balsa do Rio Chopim e todos os passageiros tivemos que sair. Em boa parte do trajeto de 510 km só havia estrada de chão até 1976, quando foi asfaltado o trecho de Pato Branco até Beltrão.
Mas chegamos no destino: no dia 01 de fevereiro de 1969, um sábado, e eu fiquei hospedado, provisoriamente, na área onde está a sacristia da igreja matriz, ainda inacabada que agora é a co-catedral de Nossa Senhora da Glória. Mesmo sem piso, sem forro e sem instalação boa de som, já se celebrava na nova matriz, mas a igreja antiga de madeira, construída nos anos ´50 pelo Frei Leodato, ainda estava em pé. A casa paroquial ficou funcionando por uns meses neste espaço, enquanto o Padre Verwimp ainda estava organizando a casa paroquial nova. Ainda me lembro também que, no pátio da casa canônica estava preso na corrente um grande pastor alemão de nome «Méteco».
A cidade, com o prefeito Cantelmo, também estava em obras: o calçamento na avenida principal, a partir da ponte de madeira sobre o rio Marrecas, já tinha chegado na altura da loja FOTO AVENIDA do fotógrafo Bordignon; ainda levaria alguns meses antes que eles chegassem até a igreja principal.
Eu não entendia qual era o problema com os confrades no seminário (W***y Van Hootegem como superior regional, Valério Spanhove e Vitor Van Dorsselaer com o Irmão Alberto Coninx), mas me davam a impressão de que eles não sabiam o que fazer com aquele rapazinho (21 anos!) que havia interrompido seus estudos na Bélgica e foi nomeado pelo provincial para talvez, por três anos, fazer algo no seminário menor São José. Naqueles anos corria entre os colegas a conversa de que só era mandado ao Brasil quem tivesse aprontado algo na Bélgica .... Lembro-me de alguns dias "de molho" na sacristia da matriz sem saber do meu destino. Ali, o Padre Jef Caekelbergh deve ter dito ao superior Padre W***y e aos companheiros do seminário: "Deixe, então, que venha para a ASSESOAR." Talvez ainda seja possível encontrar a verdade nos relatórios do conselho regional daqueles dias, mas eu estou seguro poder afirmar que para mim foi a inspiração da Providência Divina.
Seja como seja, eu com mochila e malas, subi a colina para o antigo hospital do Doutor Walter Pecoits onde fui acolhido por algumas irmãs (Elfrida, Tecla e Gertrudes - não tenho certeza do último nome), por Osni Prim, Aquiles Costenaro, sua noiva Salete, Nilde Alberti, a cozinheira Terezinha e o Padre Jef, todos ainda solteiros na época. Um prédio de madeira que já havia conhecido melhores momentos, mas que ainda serviu por um ano como sede da entidade.
Precisamente naqueles dias foram passando por lá vários seminaristas do seminário maior Rainha dos Apóstolos de Curitiba, que haviam dado cursos de férias para a formação de catequistas em várias paróquias da diocese de Palmas. Seu diretor, que os acompanhava naquela época, era o Padre Albano Bortoletto Cavallin (Lapa, 25 de abril, 1930 - Londrina, 01 de fevereiro de 2017), que mais tarde tornou-se bispo auxiliar de Curitiba e arcebispo de Londrina, e que foi um grande amigo para mim, que inclusive me levou a Brasília no ano de 1980.
Foi uma experiência muito rica para mim poder trabalhar na Assesoar, numa organização que foi impulsionada principalmente por jovens e dirigida por pequenos agricultores, apesar do presidente durante muitos anos ser um homem respeitado na vila (Francisco Beltrão não era muito mais do que uma vila naqueles anos), que simpatizava com os pequenos agricultores: quando eu comecei era presidente o farmacêutico Doutor Euclides Scalco, que posteriormente percorreu um longo caminho na política: várias vezes eleito como deputado, presidente do partido, presidente da hidrelétrica binacional (Brasil-Paraguai) de Itaipu e chefe de gabinete do Presidente Fernando Henrique Cardoso em Brasília. Durante os anos difíceis sob a ditadura militar, por razões de segurança, o Padre Afonso de Nijs também teve que assumir por algum tempo, esse cargo de presidente.
A Organização fundada por Jef Caekelbergh, ASSESOAR, Associação de Estudos, Orientação e Assistência Rural, foi se dedicando à criação de sindicatos de trabalhadores rurais e de cooperativas agrícolas. Lançou a catequese familiar para estimular a renovação pós-conciliar da pastoral na diocese e começou em várias paróquias (especialmente aquelas controlados pelos MSC) com Grupos de Reflexão, que poderiam tornar-se comunidades eclesiais de base. Em alguns lugares encontramos dificuldades ao lançar este tipo de reuniões, pois o pessoal os confundia com os mal-afamados «grupos dos onze» do PTB de Leonel Brizola. Muita atenção foi dada também à formação de lideres para a catequese e os sindicatos e também como Ministros Extraordinários da Eucaristia. A formação de jovens seguia a escola da Ação Católica do Cardinal belga Cardijn, o método VER JULGAR-AGIR, que também foi seguido na Conferência de Medellín. No sudoeste do Paraná Jef fundou também a JAC (Juventude Agrária Católica) e um rapaz de Jaracatiá, município de Enéas Marques agora, Célio Bonetti, com todas as restrições impostas pelos militares, ficou por um tempo presidente nacional.
A primeira viagem fora de Beltrão foi para participar do funeral do Bispo de Palmas, Dom Frei Carlos Eduardo Saboia Bandeira de Melo, franciscano, nascido em Petrópolis em 1 de julho de 1902 numa família distinta, que ficou Bispo Prelado de Palmas desde 1936 (quando a diocese atual de Chapecó, em Santa Catarina ainda pertencia à Prelazia), e morreu em 7 de fevereiro, 1969, ou seja uma semana depois da minha chegada na região. Desta viagem só posso lembrar que foi longa (180 km) por estradas poeirentas, e que, chegando a alguns quilômetros da entrada de Palmas, nos refrescamos tomando banho num pequeno riacho à beira da estrada. Só que, quando chegamos na antiga catedral, Dom Carlos já havia sido enterrado: foi a má informação que nos passaram em Beltrão!
Não muito tempo depois enterramos o Padre Ulrico Staeljanssens em Beltrão: um evento impressionante, com uma numerosa participação do povo: nosso colega, fumante de ca****bo como eu mais tarde, foi carregado nos ombros dos pobres e mais tarde criaram até um bairro com o nome dele: o bairro Padre Ulrico.
Outro evento que eu me lembro desses primeiros meses foi o casamento de Osni Prim e da Terezinha, que comemoramos entre nós, a equipe da ASSESOAR e suas famílias, com um churrasco.
O que fiz lá nesses dois anos até 14 de novembro de 1970, dia do meu retorno para a Bélgica?
No primeiro ano como equipe de permanentes da ASSESOAR dedicamos muito tempo num estudo sócio-religioso do sudoeste do estado do Paraná, liderado pela irmã Cristina Schroeter, uma socióloga de Curitiba, que depois deixou a vida religiosa: foi um questionário com umas cinquenta perguntas que em quatro municípios (Capanema, Realeza, Coronel Vivida e Barracão, se não me engano) fomos usando para interrogar um número grande de famílias de agricultores sobre sua fé, devoções, igreja e visão de mundo. As famílias eram aleatoriamente selecionadas baseando-nos numa lista maior que pesquisadores da ACARPA (Associação de Crédito e Assistência Rural do Paraná) usaram para seu levantamento socio-econômico, nas mesmas comunidades. Lembro-me bem que eu fui em algum lugar em Coronel Vivida numa família onde havia 13 filhos em volta da mesa, e perto do rio Capanema em Realeza fiquei hospedado na casa de uma família extremamente pobre, em uma cama de palha num quarto com chão de terra batida, onde se podia seguir tudo o que acontecia do lado de fora através das arestas na parede de tábuas. A pesquisa nos ajudou depois para escolher os principais temas (as palavras geradoras segundo a pedagogia de Paulo Freire) que seriam abordados pelos grupos de reflexão e também para descobrir o santo mais popular da área não era Nossa Senhora Aparecida, mas Santo Antonio. Para mim, essas visitas e conversas foram, acima de tudo, uma excelente oportunidade para entender a vida cotidiana dos pequenos agricultores da região.
Além disso, o nosso levantamento também foi usado na elaboração e na melhoria de uma nova série de roteiros de catequese "De Mãos Dadas" para as crianças, e de material catequético adaptado aos adolescentes e jovens. Eu não sei quantos milhares de estêncils nós passamos na impressora de estêncils (a antiga ainda manual e depois a nova elétrica), e quantos livrinhos (meia página tamanho A4) juntamos e grampeamos nesses dois anos. Mais tarde, o material também se divulgou em outras dioceses, especialmente em Curitiba, e por isso também recebeu a ajuda de religiosas que trabalhavam lá (As irmãs Lia Francener, Araceli Roza e irmã Maria Cacilda Gaspare de Rondinha). A partir de 1976 decidimos publicá-lo pela Vozes, a editora dos franciscanos em Petrópolis, com o título «CRESCER EM COMUNHÃO», sugerido por Dom Geraldo Majella Agnelo que na época era bispo de Toledo, mas isso já foi depois da minha volta como padre em Francisco Beltrão.
Para ajudar os catequistas em seu trabalho, Assesoar também publicou uma pequena revista: «Você Catequista», onde também pude escrever alguns artigos. Também nas paróquias MSC (Capanema, Salto do Lontra, Francisco Beltrão, Marmeleiro, Barracão) lançou as bases dos grupos de reflexão que visitamos em casa: na parte da tarde ou à noite íamos em três ou quatro, na Rural (Jeep) para a comunidade onde as pessoas já haviam sido avisadas. Numa das casas da vizinhança estava reunida uma dúzia de casais dispostos a iniciar um novo grupo. O primeiro encontro era a parábola dos convidados para a festa do evangelho - Lc 14,16-24). Outros encontros tratavam dos problemas da vizinhança. Lembro-me muito bem dos primeiros encontros na Secção São Miguel e em Jacutinga que na época faziam parte da Paróquia de N S Glória em Beltrão. Às vezes, eu levava meu violão para cantar algumas músicas do nosso cancioneiro, ou um álbum seriado sobre algum tema que nós sentimos que era importante tratar, por exemplo, sobre a necessidade e a maneira de construir banheiros, porque a maioria das casas não tinha, sobre a melhor forma de proteger a fonte de água, e, neste contexto, também as doenças que decorrem da falta de higiene, a necessidade de uma dieta equilibrada também noções de horticultura e fruticultura, controle de insetos, etc.
Também me lembro que fui delegado da equipe da ASSESOAR em 1969 numa conferência internacional em Montevideu sobre alfabetização com o método de Paulo Freire, onde tivemos como conferencista o ganhador do prêmio Nobel da Paz (1980) Adolfo Pérez Ezquivel. Lá no teatro da cidade da capital do Uruguai fui assistir à peça de teatro de Lope de Vega "Fuente Ovejuna": meu primeiro contato com o teatro clássico espanhol.
No ano seguinte, em julho, fui também como delegado para um congresso sobre o voluntariado no centro de encontros de Valinhos (perto de Campinas - SP, onde agora estão as instalações de TV Século XXI). Lá assistimos na TV, no dia 20/7/1969, a transmissão direta da lua, quando Neil Armstrong e companheiros pisaram pela primeira vez na lua. Tive ali também a oportunidade de fazer contatos com muitos jovens que trabalhavam na formação popular em outras partes do país, e pude confirmar o que o Padre Marcelo me havia dito sobre as mulheres brasileiras, com as tentações relacionadas ...
No final de 1969, também fui, como segundo sobrinho da minha família, à Argentina, visitar meu tio Louis (conhecido lá como Don Carlos): ele era engenheiro agrônomo e colaborador com o regime alemão durante a segunda guerra mundial. No fim da guerra, por medo da repressão, ele fugiu da Bélgica, passou na Espanha e no Paraguai para finalmente chegar na Província de Mendoza, na Argentina, onde conseguiu emprego numa viticultura. Ali, ele conheceu nossa tia Maria, de Pamplona, no país Basco, e tiveram 4 filhos. Começaram uma pequena granja de ovos perto de San Rafael. Fiz toda a viagem de ônibus: passando a fronteira em Barracão/Dionísio Cerqueira - Bernardo de Irigoyen, de lá até Posadas, depois passando por Rosário, fui a Mendoza, aos pés da cordilheira dos Andes. Ainda me lembro do bom vinho daquela região de San Rafael. Mas também da dificuldade dos viticultores por causa da salinização da região e do clima de deserto: chove muito pouco e é só com a água que desce da montanha que se consegue manter as plantações. Mesmo com muito respeito, nas conversas com o tio, não conseguimos chegar a um acordo na nossa visão sobre os anos da guerra, pois ele ficou com a idéia de que, como Flamengos católicos, eles deviam colocar-se ao lado dos Alemães para lutar pelos direitos do povo flamengo e contra o comunismo ateu. É interessante constatar que justamente a segunda filha dele, minha prima Cloty, faria, depois da morte do pai em 1973, sua tese de doutorado na Faculdade de Pedagogia, sobre a figura de Paulo Freire com um conjunto de idéias diametralmente oposto ao do seu pai e um trabalho muito comprometido junto aos marginalizados da cidade de San Luís onde dá aulas na Universidade Nacional.
Naquela época, era costume também que os responsáveis ​​pela pastoral rural de várias dioceses do Paraná se reunissem uma ou duas vezes por ano. Lembro-me que um desses encontros se realizou na diocese de Toledo, no município de Assis Chateaubriand, onde tivemos entre outros contato com um sacerdote (se bem me lembro era Padre Odilo) que continuamente comia alho.
Outra dessas reuniões da pastoral rural aconteceu em 1966, na antiga sede da Assesoar. Esse encontro teve algumas consequências desagradáveis na época, porque, uns meses depois apareceu que uma das moças que trabalhava em uma paróquia havia sido engravidada por um padre que também havia participado do encontro.
Nos anos ´70 e ´80, vários padres, MSC e outros, descobriram sua verdadeira vocação como pai de família e marido. Entre os MSC posso mencionar Carlos Maes, Charly Hermans, Jef Joosten, Jacques Moineaux, Paulo Sablon, Guilherme Spreuwers e Vitor van Dorsselaer. A maioria de nós manteve bons contatos com eles mais tarde, depois de sua saída da Congregação e do ministério presbiteral. Mesmo com estas desistências de confrades, para mim, a experiência às vezes sofrida ao lado do povo humilde da roça só veio a fortalecer a minha opção pela vida religiosa e, por isso, fiz a renovação dos votos religiosos por dois anos em setembro de 1969.
Na semana de Natal de 1969, participei e ajudei na mudança da sede da ASSESOAR ao bairro da Cango (Colônia Agrícola General Osório, fundada na época de Getúlio Vargas), no outro lado do Rio Marrecas, no prédio de madeira onde havia funcionado o colégio Nossa Senhora da Glória, das "Irmãs Escolares de Nossa Senhora" ao pé do Monte Calvário: lá nós tínhamos quartos mais espaçosos, uma cozinha melhor equipada e uma bela visão panorâmica sobre o quartel do outro lado da mesma rua e sobre toda a cidade. Naquele monte plantamos milho e feijão e aprendi a arar com uma junta de bois. Este plantio de culturas anuais foi parado no ano 1970 para plantar no morro mudas de Araucárias, o famoso pinheiro do Paraná. Nos encontros com agricultores sempre incentivamos o plantio desta espécie nativa da região e que podia ser conseguida facilmente no Horto Florestal em Beltrão. Felizmente, hoje em dia é proibido de cortar estas árvores que costumavam signif**ar uma imensa riqueza para a região e para o Estado do Paraná. Hoje, o caminho do Calvário e a estátua do Cristo Rei em cima do morro fazem parte do patrimônio turístico de Beltrão, mas os pinheiros adultos dificultam a bela vista da cidade que as pessoas costumavam ter desde a gruta que representa o túmulo de Jesus.
Nunca tivemos boas relações com a segunda companhia e seus comandantes. Não me lembro mais quando exatamente, mas por alguns dias, dizendo que era um treinamento, montaram um posto de artilharia logo acima da gruta do morro do Calvário, e a gente viu como os soldados anotavam as placas de todos os carros que entravam no pátio da Assesoar. Sempre éramos considerados como suspeitos de subversão, por todo o trabalho de organização e formação dos pequenos agricultores e de membros ativos da Igreja na sociedade.
O Padre Jef também, por esse motivo, foi impedido de viajar à Bélgica para suas férias, e só conseguiu o visto de saída graças aos amigos que ele tinha em Curitiba. Tivemos, sim, bastante ajuda do novo prefeito (eleito pelo MDB em ´69) Deni Schwartz, amigo do Dr. Scalco, que havia trabalhado desde 1962 como coordenador do trabalho do GETSOP (Grupo Executivo das Terras do Sudoeste do Paraná, com sede em Francisco Beltrão, que pode ser considerado, segundo alguns historiadores, como a única experiência de reforma agrária que deu certo no Brasil)
A chácara da ASSESOAR nas margens do Rio Marrecas, onde f**a agora o bairro Padre Ulrico, nos permitia ainda de plantar arroz, milho, feijão, cana-de-açúcar, laranjeiras, etc. O companheiro Osmar, de Barracão, que entendia de carpintaria, me ajudou a reconstruir a casa de madeira existente nesta chácara. No rio Marrecas ao lado podíamos nadar sem problemas numa água ainda sem poluição e sem veneno. Lá eu passei alguns dias com o trator velho do seminário, que o Padre Harrie Van Briel tinha arrumado, arrancando tocos velhos e raízes e nivelando o terreno para facilitar o plantio.

Um casal belga, Renato e Lieve Verbesselt, também começou a fazer parte da equipe de permanentes a partir da segunda metade de 1970 e têm contribuído muito ele, para lançar o laboratório de análise de solos e ela, para ilustrar as publicações com seu trabalho de artista, mas eu mesmo já estava me despedindo da equipe naqueles dias.
No início do ano '70 vieram nos ajudar dois missionários de Nossa Senhora da Salete: Claudino Veronese, que já era sacerdote, e Angelo Perin que, como eu, fez um estágio pastoral antes de sua ordenação. Claudino mais tarde saiu de sua congregação e depois de alguns anos de casado morreu em um acidente de carro.
Entre os sacerdotes diocesanos foi particularmente o Padre Natalício Weschenfelder que estava preocupado principalmente com os grupos indígenas de Palmas e Mangueirinha (Guarani e Kaingangue) e muito contribuiu para o crescimento do ASSESOAR, além de alguns outros que nos convidavam para trabalhar em suas paróquias na formação de catequistas, de Ministros Extraordinários da Eucaristia e no início de grupos de reflexão. No entanto, foi sobretudo nas paróquias MSC de Francisco Beltrão, Dois Vizinhos, Capanema, Salto do Lontra, Pranchita, Marmeleiro, Barracão-Dionísio Cerqueira e Ampere onde estávamos bem-vindos, mas também o Padre Davi Fontana em Nova Prata e o Padre Raimundo Francener em São João nos chamavam de vez em quando para ajudar na formação de sua gente.
Quem nos ajudou muito naqueles anos era também o irmão Cirilo Koerbes, um irmão de La Salle que era autodidata na medicina natural e publicou um livro sobre ervas medicinais que teve mais de uma dúzia de edições na gráf**a da ASSESOAR: nas suas visitas nas casas dos pequenos agricultores e catequistas, ele sempre aproveitava para atualizar suas fichas a partir do conhecimento do povo sobre as plantas da região e suas qualidades terapêuticas. Enriqueceu desta forma o cuidado com a vida dos pequenos que não tinham acesso à medicina cara dos hospitais e das farmácias, antes da existência do SUS, e era até mesmo reconhecido na sua especialidade pelos médicos. Mais tarde, com razão, o Município deu ao parque ecológico do Horto Florestal o nome de “Parque Irmão Cirilo”.
Durante a minha estadia, a lei sobre a substituição do serviço militar na Bélgica foi diminuída de três para dois anos, e já que esta experiência tão rica confirmou minha vocação como Missionário do Sagrado Coração, pedi para começar a teologia no término desses dois anos. Inicialmente, os superiores na Bélgica haviam previsto que eu fosse para o escolasticado internacional MSC na Via Aventina em Roma, mas justamente a partir daquele ano de 1970, o conselho geral achou melhor admitir apenas os padres-MSC para estudarem em Roma. Assim ficou decidido que eu iniciaria o primeiro ano do bacharelado de teologia na KUL (Katholieke Universiteit Leuven) fazendo parte da comunidade estudantil dos MSC no Ruelensvest em Heverlee, embora começando com dois meses de atraso referente aos outros, junto com Jean De Ridder e Oscar Vermeir.
Assim, depois do encontro regional em Água Branca (Marmeleiro), voltei para a Bélgica, com uma parada em Salvador para visitar o padre belga Jef Fierens e em Recife, onde a extrema pobreza me impressionou. Outro detalhe foi que em um restaurante em Salvador, quando o garçom perguntou se queria que a minha comida fosse servida quente ou fria, respondi: "quente, claro" mas depois não consegui passar nada disso pela minha garganta: aprendi que «quente» para o Baiano signif**a muito apimentado.
Minha passagem previa que eu teria que esperar o vôo para Bruxelas em Orly (aeroporto internacional de Paris) que sairia às 11 horas, mas quando chegamos já antes das seis horas, procurei me informar se não haveria um vôo mais cedo. De fato, havia um vôo da Lebanon Airways com seu ponto final em Zaventem, que permitiria chegar em Bruxelas entre as 9 e as 10 da manhã. Em cima da hora, consegui transferir a passagem e a bagagem. Mas, na pressa, derrubei do balcão minha bolsa com uma garrafa de vinho argentino e outra com pinga brasileira. Consequência: o cheiro da cachaça me acompanhou nos corredores do aeroporto e no avião libanês e deixou marcas no chão. E, na pressa, também deixei um pacote com dois quilos de "erva mate" embrulhados em papel de embrulho marrom e um jornal brasileiro. Felizmente, éramos poucos passageiros e eu consegui me instalar em uma janela longe dos outros para não incomodar com o cheiro da pinga. Naquele mesmo dia 15 de novembro de 1970, minha irmã Maria deu à luz sua primeira filha, Els, na maternidade de Aalst. Naquela mesma noite fui até lá para ver a primeira sobrinha e para parabenizar a Maria.
O migrante - Fr. Mingas
1. Peregrino nas estradas de um mundo desigual, / espoliado pelo lucro e ambição do capital, / do poder do latifúndio enxotado e sem lugar, /já não sei pra onde andar... / Da esperança, eu me apego ao mutirão.
Quero entoar um canto novo de alegria / ao raiar daquele dia de chegada ao nosso chão. Com meu povo celebrar a alvorada: / Minha gente libertada: lutar não foi em vão.
2. Sei que Deus nunca esqueceu dos oprimidos o clamor. / E Jesus se fez do pobre, companheiro e servidor. / Os profetas não se calam, denunciando a opressão, / pois a terra é dos irmãos... / E na mesa igual partilha tem de haver.
3. Pela força do amor o universo tem carinho, / e o clarão de suas estrelas ilumina o meu caminho. / Nas torrentes da justiça meu trabalho é comunhão. / Arrozais florescerão... /Dos seus frutos liberdade colherei

PS. O resto das minhas memórias espero ir anotando nos próximos meses.
CONTINUO SONHANDO E PEREGRINANDO!!

San Salvador, 30/10/2018

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Cuiabá, MT

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