17/09/2019
TEATRO E EDUCAÇÃO (panorama histórico) Iniciamos nosso panorama histórico apresentando o teatro como uma arte cujas origens remontam ao surgimento da raça humana. Das manifestações do homem primitivo, que tinha o costume de simular caças, imitar animais e personificar os espíritos em que acreditava, às mais modernas formas de representação, essa linguagem artística sofreu diversas modificações, mas sempre ocupou o seu lugar na História do ser humano. Na verdade, o teatro continuamente refletiu o momento social e os pensamentos de cada época (Berthold, 2006). Por estar o teatro tão vinculado ao homem, não é de espantar que o seu potencial educativo tenha sido explorado desde a Antiguidade. Courtney (1980), ao expor um amplo painel histórico e filosófico em que apresenta as bases intelectuais do teatro na educação, destaca que já no século V a.C. a educação ateniense estava baseada em música, desporto e literatura. Nesta última vertente, incluíam-se declamações das obras de poetas com recursos teatrais de inflexão vocal, gestos dramáticos e expressões faciais. O próprio teatro, enquanto encenação, é considerado pelo autor como “a maior força unificadora e educacional no mundo ático” (Courtney, 1980, p.5). Tal relevância é justificada pelo fato de que, especialmente na cultura grega, o teatro era utilizado como meio de transmissão de conhecimento e constituía o único prazer literário de que o povo dispunha. Para os romanos, o teatro apresentava propósitos educacionais, desde que transmitisse lições morais. No campo da filosofia, Courtney (1980) refere o grego Aristóteles e o romano Horácio como promotores das bases para o pensamento humanista no 14 teatro. O primeiro, na sua Poética, já afirmava que a imitação é natural ao homem e que o ser humano aprende por meio dela; o segundo, por sua vez, em Arte Poética, considerava que o teatro deveria tanto entreter quanto educar. Durante a Idade Média, a Igreja Católica utilizou o potencial educativo do teatro com o propósito de aproximar o povo, analfabeto, das histórias e ensinamentos eclesiásticos. Em encenações de carácter litúrgico, como os Mistérios e as Moralidades, “personagens bíblicas ganhavam vida e saltavam aos olhos do espectador, fazendo-o compreender de forma mais profunda os mistérios divinos” (Santos, 2009). Em uma época em que o acesso a obras literárias era restrito a membros da Igreja, essas encenações tinham um papel educacional de grande relevância, conforme destaca Courtney (1980): Por cinco séculos, os Mistérios e Moralidades constituíram-se no único prazer intelectual das multidões. Escolas e livros, a bem da verdade, eram privilégios de poucos. Foi o teatro que propiciou às massas sua educação (Courtney, 1980, p.9). Durante a Renascença, houve a redescoberta das obras clássicas e a retomada do pensamento humanista. A valorização da arte do falar, especialmente o latim, levou ao estudo do teatro antigo, o que acabou por favorecer muitas encenações escolares. Berthold (2006) faz referência a encenações escolares feitas durante o século XVI em diferentes países do continente europeu, tais como Alemanha, Áustria, França, Suécia, Inglaterra, Hungria e Dinamarca. O drama escolar, segundo a autora, não ficava restrito a salas de aula ou pátios das escolas, era também apresentado em auditórios de conferência em universidades, prefeituras, sedes de grémios, praças públicas, mercados e até mesmo em palácios. Predominava um tipo de teatro que buscava exercer seu efeito não pelo visual – o palco costumava ser simples e o cenário único - mas pela palavra: “Era pela declamação alta e audível em latim que os pedagogos demonstravam suas intenções didáticas aos pais e autoridades públicas” (Berthold, 2006). Ainda no contexto dos séculos XVI e XVII, Courtney (1980) faz referência a uma série de filósofos e estudiosos que teceram considerações acerca do potencial educativo do teatro: Sir Thomas Elyot, por exemplo, enfatizava a dança dramática na educação; Sir Philip Sidney e BenJonson acreditavam que o teatro deveria tanto ensinar quanto divertir; Montaigne defendia que as crianças, mais do que repetir as suas lições, deveriam atuá-las; e Francis Bacon referia-se ao teatro educacional 15 como “uma arte que fortalece a memória, regula o tom e efeito da voz e pronúncia, ensina um comportamento decente para a fisionomia e a expressão gestual, promove a autoconfiança e habitua os jovens a não se sentirem incómodos quando estiverem sendo observados” (Courtney, 1980, p. 12). No final do século XIX e, em especial, na primeira metade do século XX, diversos autores se debruçam sobre o tema teatro/educação, desenvolvendo abordagens pedagógicas que continuam, até os dias de hoje, a influenciar trabalhos na área. É o caso, por exemplo, da norte-americana WinifredWard (1884-1975), cuja obra reflete os postulados da Escola Nova. A autora enfatiza a importância da expressão criativa da criança, defendendo que o processo do trabalho com teatro em escolas deve ser mais enfatizado que o seu produto final (Ward, 1957). Destaca-se também, na primeira metade do século XX, a obra de Caldwell Cook (1885-1939), formulador da ideia de que a atividade dramática poderia ser um método eficiente de aprendizagem (Coutrney, 1980). Em The Play (Cook, 1917), o professor inglês expôs o seu método de abordagem de atividades dramáticas em ambientes escolares, também denominado play way. Até então, conforme já explicitado, o teatro nas escolas consistia apenas em encenação de peças e leituras de diálogos em aulas de língua. Cook propôs uma nova forma de abordagem: para ele, a atuação, por meio do jogo dramático, era um caminho seguro para a aprendizagem, não apenas de línguas. O seu método consistia em utilizar o conteúdo dos livros didáticos de diversas disciplinas como pretexto para que os alunos o encenassem, facilitando, assim, a aprendizagem. Desse modo, na aula de História, por exemplo, os alunos representavam os fatos históricos que estavam sendo trabalhados. Cook, para o desenvolvimento de seu método, partia dos seguintes princípios: que o aprendizado e a proficiência advêm da experiência e não da escuta ou da leitura; que o bom trabalho costuma ser resultado do livre interesse e do esforço espontâneo; e que o jogo é o meio natural de estudo para a juventude (Cook, 1917). O que o autor propunha era uma encenação livremente improvisada pelos alunos, em sala de aula, sem a intervenção do professor e ausente de maiores preocupações com convenções teatrais