09/12/2025
GUIDO DE BRÈS E A CONFISSÃO BELGA
A Confissão Belga, destaca-se como a única confissão reformada escrita por um mártir. Embora outras, como a Confissão de Guanabara (1557), tenham sido redigidas por mártires, esta nunca foi adotada oficialmente como seu documento confessional por nenhuma igreja. A Confissão Belga é singular não apenas por sua origem, mas também por seu profundo enfoque nos temas de perseguição e martírio, que permeiam todo o texto. Essa ênfase reflete diretamente a vida e o contexto de seu autor, Guido de Brès.
Convertido à fé reformada em 1547, de Brès viveu nos Países Baixos, região então considerada o "epicentro das execuções por heresia". Perseguido, ele fugiu para a Inglaterra em 1548, onde recebeu formação teológica. Após retornar aos Países Baixos em 1552, pastoreou em Lille, cidade marcada pelo martírio de fiéis sob o domínio espanhol. Vários membros de sua congregação foram executados, e o próprio de Brès precisou fugir novamente, exilando-se em Frankfurt e Lausanne. Com uma breve trégua religiosa em 1559, ele retornou e pastoreou em Tournai, mas a perseguição recrudesceu em 1561, forçando-o a nova fuga. Foi nesse contexto de sangue e morte que ele redigiu a Confissão Belga.
A obra original incluía um poema introdutório e uma Epístola Dedicatória ao rei Filipe II, onde de Brès suplicava por justiça e descrevia a determinação dos reformados em face do sofrimento. Em uma passagem notável, ele afirmava que, mesmo sob tortura, exílio ou morte, os fiéis não negariam sua fé, pois "quem quiser seguir a Cristo deve tomar a sua cruz". Antes do corpo doutrinário, de Brès listou passagens do Novo Testamento que exortam a confessar a fé em contextos de perseguição.
Ao longo dos 37 artigos, a Confissão aborda repetidamente a hostilidade contra a Igreja. O artigo 12 fala de demônios que "espreitam como assassinos" para arruiná-la; o artigo 13 destaca a providência divina que controla os inimigos; o artigo 27 descreve Deus preservando seu povo "contra a fúria do mundo inteiro"; o artigo 28 exorta os crentes a se unirem à igreja, mesmo sob ameaça de morte; o artigo 29 aponta a perseguição como marca da falsa igreja; e o artigo 37 proclama a vindicação final dos justos diante de seus opressores.
Em 1567, após ser traído e capturado, Guido de Brès foi enforcado por celebrar a Ceia do Senhor contra as ordens das autoridades. Seu legado, porém, ultrapassa a Confissão: como pastor, ele deixou um impacto profundo em seus congregados. O testemunho da família Ogvier, martirizada em Lille em 1556, ilustra isso: em cartas escritas na prisão, o jovem Martin Ogvier exortava seus companheiros a se lembrarem dos ensinamentos do "irmão G." — Guido de Brès — e a permanecerem fiéis até a morte.
Hoje, em um contexto de crescente sentimento anticristão, a Confissão Belga permanece não apenas como um resumo doutrinário fiel, mas como um testemunho histórico de coragem e convicção. Ela nos lembra que, seja em tempos de paz ou perseguição, a fidelidade à fé, como a de de Brès e seus companheiros, deixa um legado eterno — pois, como diz o antigo adágio, "o sangue dos mártires é semente".