Judaísmo Campos dos Goytacazes - RJ

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06/12/2024

Nota de esclarecimentos.
A sinagoga que funcionava em Campos não Existe mais. Não existe judaísmo messiânico. O cemitério que, pertencia a nossa comunidade Israelita agora pertence a prefeitura de Campos. A FIERJ assinou um acordo para manter o cemiterio limpo.

Cemitério Israelita.
30/09/2022

Cemitério Israelita.

17/07/2017
27/01/2017

A ascensão do nazismo na Alemanha, um sistema político fundamentado na desigualdade racial, e o seu total desrespeito pelos valores civilizatórios, e, depois, a incorporação do fascismo na Itália ao mesmo ideário, teve como desfecho a 2a Guerra Mundial. No período que a precedeu e durante a Guerra, houve a tentativa, quase bem sucedida, de se exterminar os judeus que viviam nos países sob a influência política e militar desses regimes.

A perseguição aos judeus na Alemanha sob os nazistas foi num crescendo. A propaganda nazista, através de discursos, livros e filmes demonizou os judeus atribuindo-lhes “defeitos” morais que lhes seriam “inerentes”. Esta campanha difamatória serviu para justificar sua exclusão da cidadania alemã, renomeada “do Reich”. Vieram então os boicotes comerciais, deportação de “judeus poloneses” para a Polônia, afastamento dos cargos públicos e uma legislação restritiva, que ia desde a proibição de casamentos mistos ao direito de propriedade. A “Solução Final”, que ceifou a vida de seis milhões de judeus, foi o último passo dado pelos nazistas para se verem livres de todos os judeus, ou, como eles diziam, para solucionar o “Problema Judaico”.

Judeus alemães

Sob o pretexto de vingar o atentado cometido pelo jovem desterrado Hershel Grysnszpan (1921-1943/5) contra um diplomata alemão, em Paris, turbas estimuladas pelas autoridades nazistas atacaram, judeus e suas propriedades, na noite de 9 para 10 de novembro de 1938, na Alemanha, no que foi chamado de a “Noite dos Cristais” (Kristallnacht), deixando 90 judeus assassinados e suas sinagogas e lojas destruídas. Para muitos judeus alemães, os primeiros anos e ações do nazismo foram um poderoso “estímulo” para a expatriação. A meta desses migrantes forçados era os Estados Unidos, porém as restrições imigratórias deste país os fizeram procurar outras opções, e uma delas foi o Brasil – local onde já viviam alguns judeus alemães desde o final do século 19, sem que formassem uma comunidade organizada. Entre os pioneiros, merece destaque um que contribuiria para a ocupação espacial da capital paulistana, o self-made manVictor Nothmann (1841-1905), que, de pobre vendedor ambulante, chegou a ser um dos pioneiros na criação das linhas de bondes e da telefonia urbana na cidade. Ele também foi um dos criadores do bairro de Higienópolis, em São Paulo. Esta migração massiva, em fuga do nazismo, começou nos anos 1930 e vai até 1939/40, quando ficou impossível cruzar os mares devido ao conflito mundial. Estima-se que 20 mil judeus vieram para São Paulo, não apenas judeus da Alemanha, mas também dos países vizinhos atingidos pela fúria nazista.
Esses refugiados enfrentaram graves problemas para entrar no país, pois, se até a década de 1930, não havia uma política oficial seletiva de imigração, já que o fluxo de imigrantes para o Brasil era essencialmente destinado à lavoura, em 1937 criou-se uma legislação, baseada em “cotas de imigração”, para controlar politicamente esta entrada. A nova legislação só trouxe prejuízos aos refugiados de origem judaica. Algumas circulares secretas expedidas pelo Itamarati reforçaram a exclusão dos judeus nesse período. Mesmo em casos especiais, como o dos Christlichen Nichtarier (católicos de origem judaica), que tivera a intervenção da alta hierarquia da Igreja Católica para um grupo deles, o número dos que conseguiram entrar no país foi menor do que a cota liberada, pois alguns diplomatas anti-semitas usaram de todos os artifícios para barrá-los.

Esta onda migratória teve uma característica peculiar em relação às anteriores, tanto a bessaraber quanto a oriental do começo do século. Dentro das circunstâncias de desespero, ela foi relativamente planejada, pois algumas lideranças forjadas nesse conflito buscaram algumas estratégias para seu sucesso. Em 1933 foi criada a Comissão de Assistência aos Refugiados da Alemanha (CARIA), organizada pelo Dr. Luís Lorch (1894-1969), um judeu alemão que vivia em São Paulo e era casado na família Klabin. A Comissão objetivava levantar e administrar recursos para a inserção desses refugiados na sociedade brasileira, acompanhar a regularização dessas entradas, zelar pela manutenção econômica das famílias e prover o ensino do português aos recém-chegados.
O mais visível desses líderes foi o rabino Fritz Pinkuss (1905-1999), rabino em Heidelberg, cujo irmão Kurt viera para São Paulo e o convidara para ocupar o espaço religioso que estava para ser criado na cidade. Dois outros nomes devem ser lembrados: o Dr. Hans Hamburger (1891-1953) e o Dr. Alfred Hirschberg (1901-1971). Assim, em 1936, judeus alemães liderados por ele fundaram a Congregação Israelita Paulista (CIP), hoje, na Rua Antonio Carlos, onde aglutinaram os judeus salvos da destruição nazista. Mesmo sendo os fundadores oriundos da burguesia alemã, os membros da CIP tinham perfis etno-religiosos diferentes, pois havia entre elesashquenazim e sefaradim – estes, em menor número. O elemento de corte era, porém, a divisão entre liberais e ortodoxos. Todos eles pretendiam manter suas identidades no novo país. Os dirigentes da nova comunidade trabalharam para aplainar estas diferenças e construir essa pujante congregação paulistana.

Judeus italianos

Naquele momento, na Itália, os judeus também enfrentavam o mesmo problema. Após Mussolini se aliar a Hi**er, apesar de não ser anti-semita, no início de seu governo ele se tornou “discriminante”. “Justificado” por umManifesto da Raça, escrito por intelectuais fascistas em 26 de julho de 1938, seu governo promulgou leis claramente discriminatórias aos judeus, excluindo-os do serviço público e boicotando seus negócios. Para o controle político, fizeram um censo governamental levantando o número dos judeus que viviam no país. O número era pequeno: 45.270 judeus para uma população de 43.900.000 habitantes (0,1%); mas formavam uma população bem instruída, bem sucedida economicamente e claramente identificada com o país. Com tanta demanda para os países mais atraentes à imigração, o Brasil se tornou uma opção para eles.
Entre 1938 a 1940 chegaram ao Brasil os refugiados italianos,em torno de 70 famílias, que se autodenominaram ironicamente “a Colônia Mussolini”. Oriundos de um país de cultura latina, rapidamente eles se integraram ao país. Alguns, logo ao chegar, ocuparam cargos importantes em organizações estatais, como o demógrafo Giorgio Mortara (1885-1967) e o jurista Tulio Ascarelli (1903-1959). O primeiro, no IBGE, e, o segundo, na Faculdade de Direito da Universidade de S. Paulo. Como seu número era diminuto e suas origens variadas, eles não construíram uma sinagoga que lhes servisse como centro comunitário. Inicialmente freqüentaram a Sinagoga da Rua Abolição e, posteriormente, já conhecendo o ritual praticado nas sinagogas de S. Paulo, uniram-se à Congregação Israelita Paulista (CIP), fundada pelos judeus alemães, com quem tinham mais afinidades.

Judeus no mundo árabe

Uma das conseqüências da 2a Guerra Mundial foi uma reorganização geopolítica do mundo. E, em 1948, depois de anos de luta, os judeus que viviam em Eretz Israel proclamaram o Estado de Israel. Nesse processo que restaurou Israel como Estado soberano, os governantes e grupos extremistas dos países árabes retaliaram os judeus que lá viviam há milênios.
O final da Guerra deixou no Brasil a necessidade de se modernizar para poder integrar-se à economia mundial. A mudança de país agrícola para industrial, ocorrida no governo de Juscelino Kubitschek (1902-1976) e estabelecida em seu Plano de Metas intitulado “Cinqüenta anos em cinco”, gerou um clima positivo de desenvolvimento, com a implantação de pólos industriais pujantes. Atraído por este clima econômico, Edmond Safra (1932-1999) chegou ao Brasil em 1952 e, no ano seguinte, seu pai, Jacob E. Safra (1891-1963), se estabelece com sua família em São Paulo. Seguindo este exemplo, outras famílias sírio-libanesas tomam o mesmo caminho.

Inicialmente muitos vão para o Rio de Janeiro, seguindo depois para São Paulo. Estes imigrantes eram empreendedores e possuíam experiência comercial em áreas importantes, como na indústria têxtil, construção e incorporação civil e no setor financeiro. A este grupo inicial somaram-se outros, vindos principalmente do Líbano, em 1960 e 1970.

A absorção dos recém-chegados foi facilitada pela presença de escolas judaicas e de entidades como A Hebraica, Congregação Israelita Paulista e Sinagoga da Abolição (Sinagoga Israelita Brasileira Shaar Hashamaim/Templo Israelita Ohel Yaacov), e pelo fato de os imigrantes falarem, além do árabe, línguas européias. Isto lhes permitiu dominar o português com certa rapidez. Os laços comunitários e sociais entre os imigrantes eram sólidos. Costumavam-se reunir em casa, freqüentavam o Café Barba Azul, o Restaurante Fasano, o Clube A Hebraica, dentre outros locais.
A maioria passou a freqüentar a Sinagoga da Abolição; outros freqüentavam a CIP, onde, inclusive, foram realizados muitos casamentos entre judeus sírio-libaneses. No entanto, a preservação de sua tradição religiosa e seus ritos era de extrema importância para os judeus desta origem. Por isso, após superarem as primeiras dificuldades de adaptação, algumas famílias, lideradas por Jacob Elie Safra, decidiram formar sua própria congregação, construindo uma sinagoga e um centro de estudos judaicos.

Assim, em 21 de outubro de 1959, na sinagoga da Rua Abolição, um grupo liderado por Jacob Elie Safra, juntamente com o rabino Yitzhak Dayan (1878-1964), criou a Congregação Sefardi Paulista. Logo a seguir compraram um terreno na Rua Bela Cintra e a construção da sinagoga ficou a cargo do Banco Safra, com o projeto do arquiteto Jorge Wilheim, antigo refugiado italiano que pertencera à “Colônia Mussolini”, já citada anteriormente. Após o falecimento do seu benfeitor, a sinagoga inaugurada em 1964 passa a levar o nome de Sinagoga Beit Yaacov. Para a direção religiosa contrataram o rabino Menahem Mendel Diesendruck, que os lideraria até o seu falecimento em 1974.
Outra onda migratória de judeus vindos dos países árabes chegou a São Paulo no final da década de 1950. Eram judeus egípcios que, depois da queda da monarquia e a ascensão do general Nasser ao governo, em 1952, sofreram com a política discriminatória, num processo que ia desde desapropriações a prisões arbitrárias. Muitas destas famílias se estabeleceram em São Paulo após a Guerra do Suez, em 1956. Aqui eles freqüentaram inicialmente a sinagoga da Rua da Abolição, depois uma casa cedida pela Congregação Israelita Paulista (CIP), na Rua Brigadeiro Galvão, e, mais tarde, liderados por Joseph Farhi, constroem a Congregação Mekor Haim, na Rua São Vicente de Paula, em Higienópolis. A sinagoga foi assim nomeada em homenagem ao benfeitor de origem egípcia, Haim Laniado. Inaugurada em 1967, foi dirigida pelo rabino Moshe Dayan até seu falecimento, em 1982.

Com o aumento da comunidade sírio-libanesa, em São Paulo, a sede da Rua Bela Cintra se tornou pequena. Em 1991, Joseph Safra percebeu a necessidade de se construir uma nova sinagoga, mais espaçosa, em Higienópolis, onde se concentrava a maior parte da comunidade.
Planejada pelo arquiteto francês Alain Raynaud e patrocinada pelo Banco Safra, essa imponente sinagoga na Rua Veiga Filho servirá não só como local de orações, mas abrigará outras necessidades de uma comunidade formada hoje por 700 famílias. Pela Sinagoga Beit Yaacov de Higienópolis passaram figuras importantes da vida religiosa judaica de expressão mundial e até presidentes da República brasileira. Um local onde se tem, além da dimensão religiosa, o espaço educacional, assistencial e também o trabalho de recuperação e preservação da memória, realizado através do construtivo trabalho do Instituto Morashá de Cultura.

Outra sinagoga sefaradita, em Higienópolis, a Congregação Monte Sinai, foi fundada por judeus libaneses oriundos de Sidon e também de Israel, Egito e Turquia. Surgida de uma migração dentro da cidade, seus membros inicialmente moravam na Mooca. Porém, com sua mudança para as imediações da Avenida Paulista e do bairro de Higienópolis, tornou-se difícil deslocar-se para a sua sinagoga de origem. Assim, compram e fundam a sinagoga da Rua Piauí, em 1971, cujo primeiro presidente foi Assilan Meyer Nigri.

L.M.

09/11/2016

O Talmud define e dá forma ao judaísmo, alicerçando todas as leis e rituais judaicos. Enquanto o Chumash(o Pentateuco, ou os cinco livros de Moisés) apenas alude aos Mandamentos, o Talmud os explica, discute e esclarece. Não fosse este, não entenderíamos e muito menos cumpriríamos a maioria das leis e tradições da Torá e o judaísmo não existiria. Historicamente, os judeus que, individualmente ou em grupo, negaram sua validade, acabaram por se assimilar ou desaparecer. E, como outras religiões adotaram o texto da Torá Escrita - Torá she-bichtav, mesmo a tendo traduzido de forma errada, adicionando ou removendo partes da mesma e a interpretando de forma proibida pelo judaísmo, é oTalmud o verdadeiro divisor de águas, o texto sagrado que diferencia os judeus das outras nações do mundo.

Nós, judeus, sempre tivemos consciência de que nossa sobrevivência como grupo dependia do estudo deste trabalho. Os inimigos históricos de nosso povo, que devido a interesses teológicos ou nacionais quiseram converter ou destruir o judaísmo, também estavam cientes dessa realidade. No passado, quem se aventurava a declarar guerra à religião judaica, começava por proibir o estudo do Talmud, sob risco de pena de morte. Através do curso da história, em diferentes países e períodos, esta magna obra foi queimada, em praça pública. Muitos de seus trechos foram removidos por aqueles que se sentiam ameaçados por sua genuína interpretação da Torá, pela elucidação clara e inequívoca que dava aos Mandamentos Divinos e por seu repúdio absoluto a qualquer forma de idolatria ou imoralidade.

Mas, o que vem a ser esta obra monumental? Pode-se dizer, com segurança, que a maioria dos judeus de nossos dias já ouviu menção ao mesmo, mas apenas uma pequena minoria o estudou. Sua definição formal é a de ser a compilação da Lei Oral, que foi transmitida por D’us a Moisés, no Monte Sinai, tendo sido estudada e dissecada, através dos séculos, pelos sábios que viviam em Israel e na Babilônia, até o início da Idade Média. O Talmud tem dois componentes principais: a Mishná, um livro sobre a lei judaica, escrito em hebraico, e a Guemará, comentário e elucidação do primeiro, escrita no jargão hebraico-aramaico.

Um olhar superficial sobre a Guemará pode induzir alguém a pensar que se trate apenas de explicações e elaborações sobre as leis e ensinamentos daMishná. Mas, na realidade, trata-se de algo muito mais abrangente um conglomerado de milhares de anos de sabedoria, história, legislação, lendas e filosofia judaica. Sua santidade e autoridade, como veículos para a Revelação Divina, em nada são inferiores à da Torá Escrita. Ademais, mistura - entre outras áreas do conhecimento - as ciências à lógica, aconselhamento prático, lições e relatos extraordinários, palavras de perspicácia e inspiração e, até mesmo, ocasionais toques de humor. O Talmudé uma mescla de arte e ciências: é o livro da legislação judaica - técnico e preciso - mas é também uma enciclopédia e uma obra magistral de sabedoria, jamais igualada na história da humanidade.

Para um iniciante no estudo do Talmud, a Guemarápode parecer que foi escrita com total liberdade de pensamento. Geralmente envereda por apartes tangenciais ao assunto em pauta, daí partindo para a discussão de um mandamento, o relato de uma história ou simplesmente oferecendo pérolas de sabedoria que, de uma maneira ou de outra, têm alguma relação com o assunto tratado. No entanto, a bem da verdade, todo o seu arcabouço é extraordinariamente bem ordenado e lógico. Cada uma de suas palavras foi submetida à meticulosa revisão antes de ser transcrita.

É irônico que esta fonte básica e fundamental da lei judaica sirva muito raramente como autoridade final e definitiva para as discussões sobre o que a Torános ordena. Seguimos este Pentateuco de acordo com os ditames do Shulchan Aruch (o Código da Lei Judaica) e dos sábios contemporâneos que interpretam as aplicações de suas leis. Mas o Talmudpermanece sendo o alicerce imutável para praticamente todas as leis que emanam da Torá.

A Torá Oral

O Talmud cobre uma ampla variedade de assuntos, seguindo, no entanto, um plano coerente e muito bem estruturado a dizer, a Mishná, pilar central da Lei Oral. Comparada à Guemará, é concisa e objetiva. Compõe-se de uma série de declarações, organizadas por assunto e tópico, que ensinam as leis, a tradição e a história judaica. Apesar de seu conteúdo se originar do Monte Sinai, algumas de suas declarações são atribuídas ao mestre ou à escola de pensamento que as elucidou e difundiu. Os sábios talmúdicos foram mais do que a simples “cadeia de transmissão” que remonta a Moshé Rabeinu. Pois está escrito que cada um deles tinha atingido tão elevado nível espiritual que conseguia até mesmo ressuscitar os mortos. Esses mestres da Torá personificavam a Vontade de D’us e, assim sendo, cada aspecto de sua conduta e cada uma de suas palavras foram marcadas por absoluta precisão e orientação Divina.

É a Mishná que provê a Guemará de sua base organizacional e factual. Cada uma das leis talmúdicas precisa ter uma fonte e esta é encontrada na Mishná. A Guemará pode dissecar e divagar sobre os ditames da Mishná, estabelecer conexões entre seus diferentes assuntos e esclarecer aparentes contradições, mas não pode abertamente discordar da mesma. A Mishná surge como o árbitro final em qualquer litígio talmúdico.

Há outras coletâneas de diretrizes e ensinamentos, que são parte integrante da Torá Oral: Sifra e Sifri,Tosefta e Bareitot, além dos Midrashim, que também foram preservados por escrito, muitos dos quais dentro da própria Guemará. No entanto, a Mishná tem precedência sobre os demais ensinamentos da ToráOral. Isto significa que sempre que houver uma aparente contradição entre um ditado da Mishná e qualquer outro ensinamento da Lei Oral, caberá àGuemará buscar a verdade na qual se fundamenta o tema, com base na própria Mishná.

É importante mencionar que quando as pessoas falam no Talmud, geralmente estão-se referindo ao Babilônico. No entanto, há outro que foi escrito em Israel. Conhecido como o de Jerusalém o Talmud Yerushalmi foi revisado pelo Rabi Yochanan 300 anos após a destruição do Segundo Templo. É bem mais conciso que o Talmud Bavli, o Babilônico, pois, de fato, trata principalmente das leis referentes à Terra de Israel. Via de regra, os judeus que viviam na diáspora negligenciavam a obra compilada em Jerusalém, mas, nos últimos anos, vimos renascer o interesse por essa obra, devido grandemente ao retorno de milhões de judeus à Terra de Israel.

Desde o Monte Sinai, a Torá Oral - ou Torá she-be’alpê - como seu nome bem o indica, só foi transmitida oralmente. Por razões várias, nossos sábios nunca permitiram que fosse escrita. Mas, uma vez destruído o Segundo Templo, os líderes judeus começaram a se preocupar que a Torá Oral, sendo tão maciça e complexa, cairia no esquecimento em virtude da opressão romana e a conseqüente dispersão do povo judeu. No ano de 188 a.E.C., o Rabi Yehudá ha-Nassi, sábio cuja inigualável liderança e vastidão de conhecimentos sobre a Torá lhe valeram o título de o “Rabi (do Talmud)”, finalmente terminou de compilar a Mishná. Centenas de anos mais tarde, já no final do séc. IV da E.C., Rav Ashi, importante sábio babilônico, iniciou a compilação de todo o Talmud. Seus discípulos e os alunos destes deram continuidade à gigantesca obra de redigi-lo. No entanto, diferentemente da Mishná, o Talmud foi oficialmente completado por nenhum erudito em particular; daí dizer-se que “ainda está por ser terminado”. Através dos séculos, suas palavras e ensinamentos foram meticulosamente analisados, interpretados e explicados por incontáveis sábios, estudiosos e mestres. É geralmente comparado ao oceano sua vastidão é tremenda, mas sua profundidade é incomensuravelmente maior. De fato, é um fiel testamento da Infinita Torá de D’us.

O estudo do Talmud

Em hebraico, esta palavra significa literalmente “estudo” ou “aprendizado”. É a incorporação do fundamental mandamento judaico de “estudar a Torá” - Talmud Torá. Ao contrário de quase todos os outros campos do saber, o estudo do Pentateuco tem propósitos que vão muito além da simples aquisição de conhecimentos. É um meio e um fim, por si só; seu objetivo é o próprio aprendizado. Portanto, o grau de importância e aplicação prática da matéria em discussão tem importância secundária. Isto não significa que não tenha relevância. Pois como aprendemos com nossos mestres, o estudo da Torá é o maior de todos os mandamentos judaicos, uma vez que faz com que se evitem os pecados e se pratiquem atos positivos e boas ações que beneficiem nossos semelhantes. É óbvio que para aprender as leis do judaísmo - e os princípios e detalhamentos necessários para cumpri-las - é imprescindível estudar a Torá. Segundo esta perspectiva, este estudo tem um propósito prático. No entanto, o simples fato de a estudar - mesmo que não haja nenhuma aplicação prática ou razão para fazê-lo - é extraordinariamente precioso aos olhos dos Céus. Alguns de nossos mestres foram ainda mais longe, ao dizer que o estudo da Torá, apenas, é mais importante do que o cumprimento dos outros mandamentos, apesar de nenhum deles ter o poder de substituir o outro. Pois como está escrito nas preces matinais que recitamos todos os dias,...”Elu devarim…São estes os mandamentos que, se os praticar, o homem colherá os frutos neste mundo, enquanto que a sua recompensa final o esperará na vida futura: honrar pai e mãe, praticar atos de bondade, ...promover a paz entre os homens; mas, acima de tudo, reina soberano o estudo da Torá, cujo valor a todos eles se equipara” (Mishná: Peá 1:1).

A raiz da palavra hebraica Torá é hora’á - ensinamento. O Pentateuco ensina ao homem o caminho que terá que seguir se optar por viver de acordo com os desejos e diretrizes de D’us. Aquele que estuda a Torá precisa viver de uma forma que honre e eleve o judaísmo e o povo judeu. Sua vida e conduta devem refletir a sabedoria, piedade, compaixão e todos os outros ideais incorporados pelaTorá. Pois, caso contrário, diziam nossos sábios, “melhor seria nunca ter vindo a este mundo”. Afirmavam, também, categoricamente, que aquele que alega ter adquirido a sabedoria da Torá, mas não cumpre os seus mandamentos nem pratica boas ações, não a incorporou, de fato, dentro de si.

Existe uma concepção errônea generalizada de que aTorá é simplesmente um livro de lei e história judaica-divina, mas, ainda assim, apenas isto. A verdade é que representa a Vontade e a Sabedoria do Criador. O Talmud discute uma grande variedade de assuntos - uns sublimes, outros mundanos - mas todos, de alguma forma, refletem o relacionamento e envolvimento de D’us com este Seu mundo. Diferentemente das obras da Cabalá, preocupa-se, sobretudo, com o terreno e o mundano. Discute o que há de mais intrincado e, às vezes, o que aparenta ser totalmente irrelevante na lei judaica. Porém, oculto em suas lições e ditames, escondem-se profundos segredos e ensinamentos espirituais e místicos.

A Torá abarca todos os assuntos e a estudamos para entender como nos relacionar e agir diante de cada um destes. Nas palavras do Rabino Steinsaltz: “Os mandamentos e as aplicações práticas das leis daTorá estão subordinados à busca pela verdade que se esconde por trás de todas as coisas. O propósito sublime do Talmud não é utilitário, de forma alguma - mas unicamente a busca da verdade”. É por esta razão, como vimos acima, que a aplicação prática de qualquer tema nele discutido é de importância secundária. O que esta obra busca é a verdade e a visão da Torá sobre qualquer assunto ou matéria, quer seja legal, histórico ou filosófico. Portanto, uma prova ou declaração que possa dar a impressão de ser auto-evidenciada poderá ser questionada ou mesmo rejeitada pelo Talmud - pois pode conter alguma falha sutil, quase imperceptível em sua lógica ou argumentação. Este apenas aceita a argumentação mais convincente. Simboliza a busca do judaísmo pela verdade absoluta. Não há dogmas na religião judaica: quase tudo pode e deve ser questionado, apesar de que a pessoa conscienciosa deve entender que a alma humana ainda não está preparada e, portanto, não pode pretender compreender, em toda a sua plenitude, a Vontade e a Sabedoria do Criador.

Como o objetivo primordial do Talmud é essa busca da verdade, esta obra é praticamente toda estruturada em perguntas e respostas. E mesmo quando as perguntas não são explicitamente articuladas, encontram-se por trás de cada afirmação e ensinamento. Talvez seja o único livro sagrado, no mundo, que não apenas permite, mas estimula os que o estudam a questioná-lo. A Sabedoria de D’us está oculta em suas palavras, cabendo a cada um dos que o estudam, seja este sábio ou iniciante, tentar desenterrá-la. No entanto, é preciso lembrar-se que aTorá, em sua plenitude, originou-se de D’us; cada um de seus ensinamentos que já foi ou venha a ser praticado, foi transmitido a Moisés no Monte Sinai. Assim sendo, quando um sábio Talmudista faz uma afirmação, ele não está agregando ou opinando sobre algo, mas sim revelando um assunto da lei ou da sabedoria Divina. Aquele que domina as matérias acerca da lei judaica precisa ser um verdadeiro mestre em Torá. E deve entender que carrega consigo a tremenda responsabilidade de discernir e transmitir a Vontade de D’us ao povo judeu. Seus ensinamentos devem ser firmemente arraigados noTalmud e no Código da Lei Judaica, devendo ser uma extensão viva da Torá, originalmente entregue a Moisés.

É bem verdade que há diferenças de opinião noTalmud e isto, infelizmente, tem sido usado como desculpa para interpretações pessoais e aplicações impróprias ou tentativas de “reformular” as leis daTorá. Estas concepções errôneas geralmente são oriundas da falta de entendimento da dimensão espiritual da lei judaica. Diferentemente dos campos de conhecimento secular, pontos de vista diferentes sobre a Torá não constituem imprecisão ou erro. Pelo contrário, os mandamentos aparentemente contraditórios - que na prática, são raros - refletem as diferentes maneiras pelas quais D’us se relaciona com o mundo: por vezes com flexibilidade e condescendência, por vezes, com maior severidade. Uma das maiores polêmicas históricas no Talmudocorre entre as escolas de dois grandes sábios: Hillel e Shammai. Suas disputas acabaram sendo resolvidas por uma voz que emanou dos Céus, afirmando: “Ambos transmitem as palavras do D’us Vivo, mas a decisão está alinhada com a escola de Hillel”. O fato de um método ser preferível ao outro não invalida o outro nem significa que seja impreciso, de forma alguma. Os místicos judeus ensinaram que Hillel personificava o atributo Divino da flexibilidade e condescendência, enquanto que Shammai incorporava as qualidades Divinas da precisão e do rigor. Explicam que como vivemos em um mundo imperfeito, necessitando constantemente de misericórdia, seguimos, quase que sem exceção, os mandamentos da Torá de acordo com os ditames da escola de Hillel. Na era messiânica, no entanto, quando o mundo atingir um estado de perfeição, iremos seguir a Torá como a ensinava Shammai. Por isso, devemos sempre lembrar que não há ensinamento alheio, não pertinente, no Talmud. Ainda que não sejam seguidos os ensinamentos de um determinado sábio - qualquer que seja a razão para tal - não podem, de forma alguma, ser depreciados, pois também esses preceitos são oriundos do Monte Sinai. Há uma história sobre um sábio que afirmou que um certo ensinamento não era de seu agrado, sendo repreendido por seus colegas que lhe disseram ser errado afirmar que “isto é bom e isto não é”, em se tratando da Torá.

O Pentateuco, em sua totalidade, é perfeito e aquele que o estuda com o espírito preparado - e com todo o respeito que merece - conecta-se de imediato com D’us. Pois o Senhor de Tudo, cujo Saber é Infinito, “condensou” Sua Sabedoria em Sua Torá, para que o homem possa entender o pouco sobre Ele que pode ser compreendido pela mente humana. O mérito no estudo da Lei de Moisés, por si só - não com o intuito de conquistar honras e louvores - tem inestimável valor para os Céus. Sobre o estudo do Talmud, especificamente, declarou o Rabi Yehudá ha-Nassi: “Não há medida maior de recompensa do que esta”.

Através dos séculos, o povo judeu fez muitos sacrifício, para poder estudar e ensinar e, desta forma, preservar o Talmud. Entenderam - da mesma forma, como, infelizmente, o fizeram seus inimigos - que, de fato, era o que os preservava. Não há antídoto maior contra a assimilação judaica do que o estudo da Torá. E esta é uma das razões pelas quais, juntamente com a prática da caridade, constitui o maior dos mandamentos Divinos. Mas este estudo serve como uma confirmação disso, ainda maior do que a sobrevivência coletiva do povo judeu. Ensinam os nossos sábios que o estudo adequado da Torá“salva e protege” e é fonte de bênçãos para uma vida longa, com fartura e benesses. Pois está escrito: “O alongar-se da vida está na sua mão direita; na sua esquerda, riquezas e honra” (Provérbios, 3:16). Mesmo se apenas um único indivíduo estudar a Torá, são tantos e tão grandes os seus méritos, que têm o poder de acarretar bênçãos para o mundo inteiro. O judaísmo ensina que toda a existência física é sustentada pela força da oração, pelo estudo da Toráe pela prática de atos de bondade e justiça. Aquele que estuda a Lei de Moisés, torna-se, portanto, parceiro d’Aquele que sustenta o Universo por Ele criado.

Os sábios talmúdicos e mestres da Cabalá revelam que o estudo da Torá serve como escudo para a alma humana, protegendo-a após a vida. E, como “não há esquecimento diante do Trono de Glória do Senhor”, mesmo se uma pessoa esquecer parte da sabedoria da Torá que adquiriu, sua alma a recorda e a transporta para a eternidade. Contanto que a pessoa se mantenha fiel a seus preceitos, aprofundando-se nos mesmos e andando por seus caminhos, esta mesma Torá sempre implorará diante da Corte Celestial por essa pessoa e por todo o povo judeu. Por isso, afirmamos na prece que celebra o término de um tratado do Talmud: “A ti voltaremos e tu retornarás a nós; nossos pensamentos estão fixos em ti, assim como os teus estão fixos em nós; não te esqueceremos assim como tu não nos esquecerás - nem neste mundo, nem no Mundo Vindouro!”

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