03/02/2019
Neste domingo, a liturgia bizantina nos mostra o confronto que Jesus faz entre o Fariseu e o Publicano: (Lc 18,10-14)
Os fariseus eram homens que zelavam pelas coisas divinas e seguiam a risca todas as normas e tradições possíveis, mas, muitos fariseus enchiam-se de orgulho por serem exímios conhecedores das escrituras e para estes fariseus que Jesus insistia em corrigir.
Os publicanos, por sua vez, eram os cobradores de impostos que não eram bem vistos pelos judeus justamente por serem funcionários do Imperador que cobravam as taxas que mantinham o governo e o julgo sobre os judeus; muitos publicanos se aproveitavam de sua posição para cobrar injustamente o povo e adquirir lucro para si.
Então há uma controvérsia a notar aqui: de um lado o fariseu que fazia o possível para levar uma vida certa, mas se enchia de orgulho por ser o exemplo, aquele que era ouvido por todos e que era o conhecedor das escrituras;
e do outro lado o publicano que não era muito bem querido devido ao seu ofício e que cometia, talvez, alguns abusos.
O Fariseu rezou dando graças a Deus por não fazer o mal, mas com essa atitude se enche de orgulho e soberba esnobando ou rejeitando o seu irmão por também ser um pecador. Observe a prepotência com que o fariseu se dirige a Deus “Ó Deus, eu te agradeço, porque não sou como os outros homens”, ora todos os homens são iguais perante Deus, o que nos diferencia é a nossa capacidade de se reconhecer como criatura pecadora, de se arrepender com coração sincero: o fariseu rezou de si para si mesmo desprezando o próximo diante de Deus.
Foi com o coração contrito e profundo arrependimento que o publicano se reconheceu pecador, miserável e indigno de elevar os olhos ao céu, entra no templo com mansidão e quietude, com o coração contrito e sincero pede perdão a Deus pelas faltas cometidas... Assim também nós devemos agir, não somente para com Deus no Templo, mas também para com o próximo, quando faltamos com caridade para com o nosso irmão.
Muitas vezes buscamos ser elogiados pelos que são nossos superiores, buscamos sempre a glória diante daqueles que possuem autoridade sobre nós, “querer sair bonito na foto”, somos assim porque fomos feitos para a glória, mas não uma glória do mundo e sim para a glória celeste. Quando caímos no pecado buscamos glória entre os homens, buscamos mostrar aos outros o melhor possível, para que nos vejam externamente muito bem, mas internamente somos completamente o oposto disso. O que nos leva a buscarmos essa vangloria, uma glória vazia entre os homens.
Dessa forma, nos lembra o Evangelho de São João, que Jesus questiona esses fariseus: Como vocês podem dar glórias a Deus se dão glórias uns aos outros? Ou seja, quanto mais nos iludimos buscando os prazeres na terra, de sermos cada vez mais elogiados pelas pessoas que nos cercam, menos dignos somos de dar glórias a Deus. Buscar as coisas deste mundo nos impede de buscar as coisas de Deus.
O publicano foi ao templo para orar, mas não se atrevia a levantar os olhos para os céus, apenas ergueu as mãos em oração. Quando nossos olhos se envergonham de olhar a para o Senhor face-a-face por causa de nossos pecados, resta-nos elevarmos os braços e pedir ajuda para o Deus-Amor. A humildade não impediu que o publicano reconhecesse seus erros. A ausência do orgulho naquele coração cedeu lugar à Graça. Proferiu uma oração curta, simples, precisa, esmerada na verdade e honestidade e que continha todos os ingredientes necessários para que Deus a ouvisse. Nestes versículos estão presentes o reconhecimento do pecado, a consciência de que se necessita do perdão de Deus e a ação da Graça Divina. Eram estas as considerações que o levaram a baixar sua cabeça, bater em seu peito e humilhar-se sob a poderosa mão de Deus.
O fariseu saiu sentindo-se justificado. Ele tinha acabado de falar com Deus. Ele tinha cumprido sua responsabilidade e, em sua mente, tinha-a cumprido muito bem. O coletor de impostos, por outro lado, saiu justificado por Deus, porque se humilhou. Há uma diferença essencial em se sentir santo e ser santo. Ele saiu justificado porque possuía a chave do oferecimento de uma oração que é aceitável a Deus. Ele demonstrava as qualidades da verdadeira grandeza no Reino do Céu como é descrita em Mateus “Quem quiser ser o primeiro entre vos será vosso servo.” Este homem foi para sua casa justificado porque percebia que, quem quer que se humilhe será exaltado.
Encontramos publicanos e fariseus em nós mesmos e entre nós. Vez por outra a hipocrisia se instala em nossas vidas, e a humildade também. Que possamos agir como o publicano desta parábola, reconhecendo nossos pecados, buscando a misericórdia de Deus e deixando de lado a pseudo-santidade. Não basta que nos abstenhamos do mal e nos mostremos rigorosos no cumprimento de determinadas regras de bom comportamento social; mais que isso, é necessário reconhecer que somos todos irmãos, não nos julgarmos superiores aos nossos semelhantes, por mais culpados e miseráveis que pareçam ser, nem tampouco desprezá-los, porque isso constitui, sempre, falta de caridade. A humildade sincera é o melhor agente de uma autêntica conversão.
Deus nos fez conhecer seus preceitos para viver retamente: ser humilde, dar de comer a quem tem fome, dar de beber a quem tem sede, dar roupas a quem não tem o que vestir, acolher o estrangeiro, visitar os doentes e os prisioneiros, praticar as boas obras sem interesse pessoal, mas com humildade e sinceridade, não para sermos vistos praticando o bem, mas façamos isso com descrição, para que Deus, que vê o nosso coração, possa nos acolher no seu Reino Celeste e possamos saborear a verdadeira glória, a glória celeste.