24/08/2021
A GRATIDÃO
A gratidão é puro amor, é virtude sublime que, quando praticada, lapida o agradecido em um receptáculo da Sorte, da felicidade, e da Providência Divina. A palavra gratidão já provêm de "gratia" no latim que signif**a graça. Ou seja, o agradecimento proporciona graça. A palavra “obrigado”, comumente utilizada pela grande maioria das pessoas, na verdade não remete a qualquer signif**ado de agradecimento, mas, ao contrário, indica uma obrigação. Deste modo, a expressão que melhor indica o agradecimento é o "grato" ou “grata”, que na mesma raiz etimológica, também remete à graça, e desta forma, ao mesmo tempo que o agradecido atrai para ele a Graça Divina por estar agradecido, ainda se torna meio de pedir graças a quem fez o bem, ou seja, para "a-graça-descer" sobre o benfeitor.
As pessoas imaginam que a felicidade é que proporciona a gratidão, mas em verdade a gratidão é que traz a felicidade. A felicidade nada mais é do que o estado de espírito de uma pessoa grata. As pessoas querem ser felizes para depois serem gratas, se negam a agradecerem antes de estarem completamente felizes. Isso faz com que nunca sejam felizes, nunca se satisfaçam, uma vez que só a gratidão é que na verdade vai trazer a verdadeira felicidade. Se a pessoa está grata com o que tem, ela está satisfeita. Ser grato antes de receber, ser grato pelo que já se tem, esse é o segredo. Quanto mais agradecido se vive, mais graça se recebe na vida.
E como ser grato? Primeiramente é necessário reconhecimento do bem que está sendo recebido. O ignorante é absolutamente ingrato. Não há como ser grato sem que o agradecido saiba e reconheça o valor do que está recebendo. Por isso que para aquele que quer ser feliz, isto é, aquele que quer exercer a gratidão em sua plenitude, é necessário que se inicie reconhecendo o valor de tudo que recebe diariamente, desde as coisas aparentemente insignif**antes até as graças mais sublimes que recebemos nas nossas vidas.
A sábia parábola de Jesus de “dar pérolas aos porcos” se refere exatamente à gratidão. Quem não é grato assemelha-se aos porcos, que não sabem dar valor às perolas recebidas da vida. Estamos todos rodeado de pérolas, é só uma questão se sabermos reconhece-las. O reconhecimento do que já recebemos é que proporciona o merecimento para se receber mais. Quem não souber reconhecer o que recebe, jamais será feliz, pois nunca se contentará com o que tem, e consequentemente, não merecerá receber mais. É quando costuma ocorrer a perda. A perda é um instrumento pedagógico da gratidão. Quando se perde algo, é de se esperar que a pessoa passe a reconhecer o valor do que tinha e não era grato por ter.
Compreendendo desta forma a sublime hermenêutica do ensinamento de Jesus, não basta darmos a qualquer um para recebermos a Graça Divina. A máxima “fazer o bem sem ver a quem” já não se aplicaria na espiritualidade. Não devemos dar aos ingratos, a quem já demonstrou que não reconhece o valor do que recebe, mas sim a quem sabe identif**ar e reconhecer o valor das pérolas, a quem é verdadeiramente grato. A gratidão do beneficiário é que atrai a Graça ao doador. Aquele que não reconhece o que recebeu não será grato, e, desta forma, o doador não recebe a Graça Divina. Por isso não se deve fazer o bem a quem já demonstrou que não é uma pessoa grata, ao que não reconhece o bem recebido. Em uma outra analogia, de nada serve acariciar um escorpião, pois poderá inclusive acabar sendo picado. Mas ao contrário, em um cachorro por exemplo, as carícias serão muito bem recebidas, e o afeto será recíproco.
Um segundo ensinamento de Jesus, desta vez contido na parábola dos talentos, nos diz: “Porque a todo o que tem, dar-se-lhe-á, e terá em abundância; mas ao que não tem, até aquilo que tem ser-lhe-á tirado”. Se interpretarmos este ensinamento no contexto da gratidão, é possível compreender de forma perfeita o que nos é ensinado. Quem tem plenamente presente a gratidão em seu coração e valoriza o que recebe, mais graças lhe serão dadas; enquanto que quem não é grato, o pouco que tem lhe será tirado, uma vez que não é merecedor de possuir o que tem.
Se a graça é que traz felicidade, a felicidade vem por sermos gratos ou por fazermos o bem aos outros. Fazendo o bem aos outros, recebemos o agradecimento da pessoa grata, que nada mais é do que um pedido de graça sobre o benfeitor. Quem foi beneficiado, se ficou grato será feliz, pois o sentimento de gratidão trouxe a graça. O benfeitor igualmente recebe graça, por meio do agradecimento de quem foi beneficiado. Por isso fazer o bem se torna um veículo de Graça sobre todos os envolvidos, e cria, desta forma, um vínculo de sintonia divina tripartidário, entre o benfeitor, o beneficiário grato e a Providência Divina.
Contudo, imaginar que fez o bem quando na verdade não fez, não traz graça, assim como receber o bem e não ser grato também não. Como disse Mestre Gabriel: "Quem sabe se eu fiz o bem a alguém é quem recebeu o bem" Se a pessoa acha que fez o bem mas não fez, ela não é merecedora de graça. A medida da graça está no sentimento de gratidão do receptor.
Do mesmo modo, não se deve fazer o bem a alguém esperando outra contrapartida do beneficiário senão unicamente a gratidão. Fazer o bem é uma relação de entrega sem expectativa de retorno, sem interesse pessoal. Não existe investimento na vida espiritual, existe apenas doação. É semelhante a um agiota que doa vultoso dinheiro a uma instituição beneficente, e, passados alguns anos, depois de ter recebido os méritos e ser reconhecido em sua comunidade pela vultuosa doação, decide por receber o dinheiro de volta. Não há nada mais incoerente. Há uma história que ilustra bem este contexto:
Um tenista muito famoso, após o jogo, se dirigia para seu carro quando uma mulher idosa muito pobre se aproximou pedindo dinheiro para dar assistência médica para seu filho, que estava em estado terminal e precisava de recursos para salvá-lo. O tenista, sensibilizado, imediatamente retirou todo o dinheiro que tinha em sua carteira, e doou para a pobre senhora. A senhora, agradeceu fervorosamente ao tenista e se retirou. Minutos depois, no carro, sua assistente ficou sabendo do ocorrido e lhe perguntou: “Você deu dinheiro para aquela mulher?” Ele respondeu positivamente ao que ela lhe informou: “Mas essa mulher não tem filho coisa nenhuma, ela está naquele local todo tia e vive enganando as pessoas com esta história.” O tenista então perguntou: “Mas então não existe filho com estado terminal de saúde no hospital?” “É claro que não”, responde a assistente. “Poxa, que feliz notícia! Esta informação me alegrou o dia!!”
Agiu corretamente o tenista, que ao fazer uma doação, realizou-a despretensiosamente, sem o propósito de contrapartida material, doou unicamente com o propósito de fazer o bem. Isto é o que define o altruísmo do doador. O doador que realiza o bem buscado uma contrapartida é na verdade um pseudo-doador, e não é merecedor de receber a Graça Divina. Perceba que o pseudo-doador não possui confiança na Justiça Divina. Se tivesse, não se importaria com qualquer tipo de retorno, uma vez que aquele que é convicto da Justiça Divina já sabe que toda energia é vertida em círculos e portanto todo o bem retornará para o benfeitor, tem consciência do equilíbrio Universal que rege toda existência e não f**a preocupado em receber qualquer compensação pelo bem que fez. Se está pedindo por algo em troca por fazer o bem, é porque não está contente com o que tem, e consequentemente não é uma pessoa grata.
Seria análogo a um Fazendeiro que tinha um riacho maravilhoso em sua propriedade, com uma agua cristalina que encantava a todos. Querendo valorizar a agua do riacho, construiu uma enorme barragem para represá-la. Ocorre que ao terminar a obra, notou que a enorme represa que construiu era extremamente desproporcional com o curso da água, e acabou que a agua da represa ficou turva e enlameada. A agua que entrava continuava cristalina, mas era bem pouca perto da enorme represa. Desta forma, a agua f**ava parada, criando com o tempo um verdadeiro pântano com sapos, mosquitos e coberto de algas. A agua que saía da represa também passou a sair suja e barrenta, sem falar que posteriormente acabou estourando, destruindo e cobrindo de lama toda a propriedade.
O pseudo-doador não percebe que fazer o bem é como a agua de um riacho, que flui naturalmente, e que o bem que se faz se recebe na mesma proporção. Ao querer acumular benefícios ou receber mais do que se dá, o que já recebeu se torna maculado e o que se dá já não é mais limpo. Ainda, estaria sujeito a uma hora ou outra estourar e perder tudo que tem.
Feliz aquele que faz o bem despretensiosamente, e mais feliz ainda aquele que é grato pelo que tem e o que recebe. Saibamos agradecer pelo que temos e pelo que recebemos, para sermos dignos de continuar recebendo as Graças de Deus em sua infinita misericórdia.
Gregório Andrade