15/07/2025
Dizem os mais velhos que certa vez, no reino de Òrún (o mundo espiritual), os orixás discutiam sobre quem deveria levar uma mensagem sagrada até a Terra. Era uma palavra que carregava o destino de uma casa de Asé – uma palavra que, uma vez dita, não poderia ser desfeita.
Seun, o rei justo, queria enviar Ògún, o guerreiro, mas este agia com o facão antes de ouvir....
Òsún, a dona do rio, ofereceu-se, mas seus sentimentos fluíam demais, e a palavra precisava de firmeza.
Até Òrúnmìlà, o grande sábio, hesitou, pois sabia que a palavra exigia mais que sabedoria – ela exigia responsabilidade...
Foi então que surgiu Esù, rindo com seu ogó (bastão). Os orixás zombaram:
— Como confiar a palavra mais sagrada ao mais imprevisível dos orixás?
Mas Seun o escutou.
— E por que devemos confiar em você, Esù?
Esù respondeu com clareza:
— Porque conheço os caminhos. Sei o que a palavra faz ao ser ouvida, e também o que ela causa quando é negada. Sei o que falam longe dos meus ouvidos, porque não há um lugar onde eu não escute. Eu sou aquele que leva e traz. Eu não minto, apenas mostro o que cada um carrega dentro de si. A coerência não está só em falar certo, mas em agir de acordo com o que se fala, e aceitar as consequências da escolha feita... e não há uma escolha sequer, que nao a tenha.
Seun silenciou. E a palavra foi confiada a Esù.
Ele desceu à Terra. Parou nas encruzilhadas. Escutou. Entregou a mensagem a quem tinha ouvidos para ouvir — e a ignorou quem não estava pronto para entender.
Laroye