17/10/2024
A EUCARISTIA DA SOLEIRA DA PORTA
Eu a conheci nos tempos de seminarista e trabalhei na igreja em que ela era membro. Era uma senhora dócil, amável, carinhosa e atenciosa para com os pastores e seminaristas. Ela havia aprendido com sua mãe que sacerdotes, pastores, seminaristas eram pessoas especiais, que tinham um chamado de Deus para a realização do ministério e as pessoas de fé deveriam apoiá-los para que a tarefa não fosse pesada.
Confesso que estar com aquela vovó era algo confortador, tranquilizador e renovador de energias. Tal era a amizade, que eu entrava em sua casa gritando “Ô de casa”, ia pelos fundos e invadia a cozinha já perguntando se tinha café.
Deixei aquela igreja e fui para outra cidade onde fui ordenado ao pastorado. Depois de alguns anos voltei à cidade e igreja. Uma das primeiras coisas que fiz foi visitar a “vó”. Entrei do jeito que costumava fazer. Ela, quando me viu se encheu com um largo sorriso e exclamou: “Oh! Pastor, bom vê-lo outra vez”.
Tal como sempre fazia, perguntei se tinha café na garrafa e ela olhou bem fundo nos meus olhos e disse: “Este encontro merece um café passado na hora. Espera aí que vou passar um novo para nós dois.”
Sentei na soleira da porta enquanto ela preparava o café. Para surpresa minha, ela veio, se assentou comigo, serviu-me uma taça generosa de café e um pedaço de bolo de fubá. Ali sentados continuamos nossa conversa, contamos nossas histórias, compartilhamos nossas experiências de fé. O tempo voou, como se tivesse sido um minuto ou dois. Foi uma experiência de eternidade.
Quando lembro destes fatos e revivo a experiência, não tenho dúvidas: aquilo foi uma verdadeira Santa Ceia, uma Eucaristia em seu sentido mais pleno. Sentados em torno de uma mesa imaginária, nos alimentamos da fé comum em Jesus Cristo, do amor um pelo outro. No compartilhar da bebida e da comida, da fé e da vida, fomos edificados.
Isto me leva a uma reflexão: por que Jesus teria deixado a mesa como elemento último de seu ministério? Por que Ele teria tantas vezes comido com seus discípulos após a ressurreição? Por que há mais instruções bíblicas sobre a Eucaristia que sobre o batismo?
A celebração do comer juntos como base fundamental da vida cristã foi cedendo espaços a uma formulação mais conceitual da Eucaristia. O que se podia celebrar na soleira da porta, com café e bolo de fubá, passou a ser visto dogmática como com vinho (ou suco de uva, como querem alguns) e um determinado tipo específico de pão. Eucaristia só é eucaristia quando certas formalidades são obedecidas, quando oficiante “autorizado” está presente.
Que me perdoem os ortodoxos: é eucaristia todas às vezes que me reúno com um irmão ou irmã e juntos compartilhamos algo de comer e de beber, e desta experiência saímos edificados pelo amor que nos une e pelo Cristo que nos dá vida. Não precisa ter padre nem pastor para celebrar, nem para sacramentar o ato. O próprio Cristo faz isto.
Marcos Inhauser