18/02/2026
Muitos nos perguntam sobre a Quaresma dentro da Umbanda, do Candomblé e das religiões de matriz africana. E acredito que o primeiro passo é compreender com serenidade: para os povos africanos, historicamente, não existe o conceito de Quaresma. Por isso, as religiões que nascem dessa matriz, em sua essência, também não têm essa observância como fundamento.
Mas também é importante lembrar algo que sempre digo: não existe uma única Umbanda — existem várias Umbandas. Cada casa, cada terreiro, cada dirigente espiritual constrói sua caminhada dentro da fé. Existem, sim, casas de Umbanda e terreiros de Candomblé que optam por observar a Quaresma, ficando períodos sem festas, cuidando de Exu e Pombagira de maneira específica, realizando preparações próprias. Algumas casas mantém essa tradição porque no surgimento dos primeiros terreiros, ainda no período colonial ou imperial, o catolicismo era religião oficial e era proibida qualquer celebração durante a Quaresma, sendo que qualquer denúncia gerava severas repressões. Ou seja, suspender as atividades durante a Quaresma era sobrevivência. E por tradição algumas casas (ou suas casas descendentes) mantém essa restrição, ainda que não haja mais necessidade.
De uma forma ou de outra, por um motivo ou por outro, está tudo bem. Fé também é diversidade.
Aqui no TUES — Tenda de Umbanda que Ensina Serenidade — nós não seguimos a Quaresma, porque esse não é um fundamento da nossa tradição. Ainda assim, podemos refletir sobre algo bonito que muitas pessoas associam a esse período: o jejum. Não apenas o jejum de comida, mas o jejum de pensamentos negativos, de atitudes impulsivas e de palavras que ferem. E esse é um exercício que não precisa durar quarenta dias — deve ser um compromisso para o ano inteiro.
Cada pessoa deve encontrar o seu caminho espiritual com verdade e respeito.
Costumo dizer que a religião precisa ser um lugar onde nos sentimos bem, mas não acomodados. Um espaço acolhedor, sim — mas também um espaço que nos provoca a olhar para os nossos defeitos, a crescer, a corrigir nossas atitudes e a nos tornarmos pessoas melhores a cada dia.