13/04/2026
LUTO
O luto invisível de quem cuida de almas
Existe um tipo de dor que quase ninguém vê.
Ela não tem velório, não tem despedida, não tem corpo — mas existe. É real. E, ainda assim, é constantemente invalidada por ser invisível.
É o luto de quem permanece.
Ser sacerdotisa, dirigente, guia espiritual, é carregar nos braços histórias que chegam quebradas. Pessoas chegam pela dor — pela perda, pelo desespero, pelo medo, pela falta. Chegam vazias, mas cheias de esperança. E depositam em nossas mãos algo sagrado: a fé de que suas vidas podem melhorar.
E nós acolhemos.
Acolhemos com o coração, com o tempo, com a escuta, com a entrega. Não apenas como sacerdotes, mas como seres humanos. Criamos vínculos. Laços. Afeto. Amor.
Um amor que, muitas vezes, ultrapassa qualquer definição racional.
Caminhamos junto. Orientamos. Seguramos quando é preciso. Celebramos cada pequena conquista como se fosse nossa. Porque, de alguma forma, também é.
E então… elas melhoram.
Se reerguem. Reconquistam suas vidas. Encontram estabilidade. Voltam a sorrir com mais leveza. E esse deveria ser o momento mais bonito de todos.
Mas é também onde começa um dos processos mais silenciosos e dolorosos da vida de um sacerdote: o afastamento.
E é importante dizer… esse afastamento não começou agora.
Ele sempre existiu.
O que eu vivi recentemente apenas intensificou algo que já fazia parte dessa caminhada. Porque, independentemente das minhas mudanças, do meu processo ou das minhas escolhas, existe um movimento natural de ida — de pessoas que chegam, se curam… e seguem.
E, ainda assim, isso não deixa de doer.
Porque quando a dor passa, muitas pessoas já não permanecem.
Mas o que mais dói… não é apenas o fato de irem.
É a forma como escolhem ir.
Porque ir também é uma escolha.
Ficar também é uma escolha.
E manter vínculos… também é uma escolha.
Seria possível escolher não me ver mais como sacerdotisa…
Mas ainda assim escolher o vínculo com quem eu sou como ser humano.
Seria possível separar.
Mas nem todos sabem.
E, para ser justa… nem sempre eu mesma soube.
Por muito tempo, a Karina sacerdotisa e a Karina humana se confundiram.
Eu me entreguei por inteiro.
Eu me misturei nos vínculos.
Eu ultrapassei limites — meus e dos outros.
E, em muitos momentos, eu também não soube separar o papel da essência.
Reconhecer isso não diminui a dor.
Mas traz consciência.
E talvez explique por que alguns vínculos se tornaram tão profundos… e, ao mesmo tempo, tão difíceis de sustentar.
Porque quando não há separação, tudo se intensifica:
o cuidado, o amor… e também a perda.
Então o afastamento não acontece só da função…
Ele acontece do afeto.
Do vínculo.
Da história.
Daquilo que foi construído com verdade.
Pessoas que um dia me chamaram de amiga, de confidente, de família…
simplesmente deixam de escolher esse lugar.
E isso fere em um lugar muito profundo.
Porque, para mim, o vínculo não estava condicionado à função.
Eu continuo escolhendo amar.
Mesmo quando o outro escolhe se afastar.
Mesmo quando o outro escolhe não permanecer.
Mesmo quando o outro já não me escolhe mais da mesma forma.
E essa talvez seja uma das partes mais doloridas de todas:
Sentir que o amor continua vivo de um lado…
mas já não encontra reciprocidade do outro.
É um luto que não se encerra.
Porque ele não é rompido de forma clara — ele vai se desfazendo nas escolhas não feitas, nos vínculos não mantidos, na ausência de quem, um dia, escolheu estar.
E então vem o silêncio.
A falta de reconhecimento. A sensação de que tudo o que foi vivido se apagou. Como se os detalhes, os cuidados, os momentos partilhados tivessem perdido o valor — ou sequer existido.
É um tipo de perda estranha.
Porque a pessoa não morreu. Ela continua ali, vivendo, seguindo, sorrindo… mas sem você.
E isso dói de uma forma difícil de explicar.
Dói estar no mesmo espaço e já não ocupar o mesmo lugar na vida do outro.
Dói perceber que aquilo que antes era essencial agora é visto como excesso, como peso, como algo dispensável.
Dói sentir que, para o outro, a vida ficou melhor sem a sua presença.
E talvez uma das dores mais profundas seja perceber que muitas pessoas não amavam quem você era — mas sim o que você representava enquanto elas precisavam.
Mas, em meio a tudo isso… também existe luz.
Existem aqueles que escolheram ficar.
Que escolheram permanecer mesmo depois da dor ter passado.
Que escolheram o vínculo, mesmo quando já não havia necessidade.
Que escolheram enxergar além da função… e reconhecer o ser humano.
A esses, eu carrego uma gratidão eterna.
Porque ficar, quando já não é preciso… é escolha.
E escolher ficar… é amor.
Foi no meio desse caminho que eu também precisei fazer uma escolha.
Eu precisei deixar, por um momento, a sacerdotisa de lado para salvar a mulher. A esposa. A mãe.
Porque, em nome de cuidar de tantos, eu estava perdendo o que era mais essencial: a minha própria família.
E quando eu mudei… muitos se foram.
Alguns não entenderam.
Outros não quiseram entender.
E alguns simplesmente revelaram que nunca estiveram ali por mim — mas pela versão de mim que era conveniente para eles.
Isso também é um luto.
Um luto pela ilusão.
Pelos vínculos que eu acreditava serem recíprocos.
Pelas relações que, no fundo, eram sustentadas por necessidades e não por escolha verdadeira.
Hoje eu entendo que ser sacerdotisa não me isenta de ser humana.
Eu também sinto.
Eu também me frustro.
Eu também me decepciono.
Eu também preciso de cuidado.
E talvez uma das maiores lições seja essa: aprender a amar sem se abandonar.
A acolher sem se perder.
A cuidar sem se destruir.
Porque ninguém pode sustentar o outro quando está em ruínas por dentro.
E sim, ainda dói.
Dói ver pessoas que eu amo trilhando caminhos que, muitas vezes, levam de volta ao desequilíbrio.
Dói saber que eu poderia ajudar — mas não posso interferir.
Dói lidar com a indiferença de quem já foi presença.
Mas hoje, junto com a dor, existe também consciência.
Nem todos que passam pela nossa vida foram feitos para permanecer.
E nem todos que amamos… escolherão ficar.
Mas isso não invalida o amor que foi verdadeiro.
Nem o cuidado que foi entregue.
Nem as escolhas que, um dia, foram feitas com o coração.
Porque eu levo comigo.
Levo comigo os aniversários celebrados com alegria.
Os chás de bebê cheios de esperança.
Os momentos nas maternidades, testemunhando a chegada de novas vidas.
Os casamentos, as viagens, os reencontros.
Levo comigo os abraços apertados — mesmo com toda a minha dificuldade em abraçar.
A ajuda que também recebi, em tantas formas silenciosas e generosas.
Os batizados, as primeiras incorporações, os domingos de churrasco, as noites de ritual no lar.
Levo comigo os encontros cheios de amor.
As confidências, os desabafos.
As lágrimas — de dor e de alegria — que compartilhamos.
Nada disso se perdeu.
Tudo isso vive em mim.
Guardo cada momento com amor.
E, apesar de tudo… eu ainda escolho.
Escolho amar.
Escolho honrar o que foi vivido.
E escolho manter viva a esperança de, um dia, voltar a compartilhar momentos mágicos com aqueles que eu continuo amando —
e que, se dependesse apenas de mim, eu escolheria… quantas vezes fossem necessárias.